18 fev, 2015 - Roderick Long -

Uma Fé Obscura8 minutos de leitura

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por Roderick Long

[Este artigo foi publicado para Austro-Athenian Empire em outubro de 2007. Tradução de Uriel Alexis Farizeli Fiori. Revisão e edição de Giácomo de Pellegrini.]

Selwyn Duke acha que quem questiona a base biológica de várias diferenças psicológicas e comportamentais entre as raças são “praticantes de uma fé obscura” (trocadilho intencional?) incompatível com os ensinamentos da ciências:

Parece especialmente estranho quando você considera que a maior parte destes inquisidores [o termo de Duke para a esquerda antirracista] são indivíduos sem religião que aceitam a Teoria da Evolução. No entanto, apesar de sua crença de que diferentes grupos “evoluíram” em partes completamente diferentes do mundo, operando em diferente ambientes e sujeitos a diferentes pressões, eles querem que acreditemos que todos os grupos são idênticos em termos da multidão dos talentos do homem e em todas as medidas da capacidade mental. Por alguma razão, o milagre dos milagres, todos esses acidentes cósmicos bípedes, o produto de uma jornada de bilhões de anos desde a sopa primordial até a primazia entre as criaturas, cuja evolução foi influenciada por talvez milhões de fatores, acabaram sendo precisamente a mesma coisa. É realmente o melhor argumento a favor de Deus que eu já ouvi, já que tal impossibilidade estatística poderia apenas existir se ela fosse ordenada por aquele a quem todas as coisas são possíveis.

Da forma que Duke escreveu, o seu argumento está atacando um espantalho, uma vez que poucas das pessoas a quem ele está criticando fizeram a alegação extrema de que raças diferentes são “idênticas” em “todas as medidas”. Mas a alegação de Duke pode ser reapresentada em uma forma mais moderada: dadas as diferentes histórias evolutivas das raças existentes, não é plausível supor que mais de suas diferenças são geneticamente embasadas do que a esquerda antirracista está preparada para reconhecer?

A resposta é não. Mesmo ficando ao nível de considerações empíricas, poderíamos dizer que o ceticismo em relação às tentativas de embasar diferenças comportamentais entre grupos em bases biológicas está indutivamente justificado pela mesma razão que o ceticismo em relação às tentativas de defender a astrologia está justificado: porque tais tentativas vem sendo feitas repetidas vezes por séculos e todas elas têm se provado espetacularmente erradas. Pedir para que consideremos a última iteração de tais teorias com frescor de orvalho e inocência, sem atenção à longa e embaraçosa história de tais alegações e sua subsequente refutação, é, bem, não científico, tipo pedir para que Charlie Brown confie na Lucy para segurar a bola de futebol mais uma vez. (Tal história já vem há muito tempo. Aristóteles, por exemplo, acreditava que os povos celtas e germânicos não conseguirem rivalizar com as conquistas culturais da Grécia era um sinal de um defeito intelectual inato. É irônico que os principais proponentes deste tipo de argumento nos séculos XIX e XX sejam eles mesmos de ascendência celta ou germânica.) E isto antes de sequer chegarmos aos horrores sociais que esta triste história de fracasso científico foi usada para justificar.

Eis uma analogia: suponha que da próxima vez que uma criança desapareça, eu diga, “ei, talvez a criança tenha sido sequestrada por judeus que queriam usar seu sangue para fazer matzás”. Quando criticado por esta sugestão, eu exclamo indignadamente, “Não é possível que isso seja o que aconteceu? Não deveríamos considerar cada possibilidade? Vocês inquisidores politicamente corretos não ligam para a verdade?”. Bem, claro que minha sugestão é possível em algum sentido abstrato. Mas à luz da história real de tais especulações – sua falta de fundamento empírico, combinada com seus resultados horríveis – tal sugestão de minha parte seria apropriadamente atribuída ao arquivo de “provocação inutilmente ofensiva” em vez de ir para o arquivo de “hipótese científica séria”. E o fato de que eu ache tal hipótese saliente, apesar de sua debilidade empírica, revela meus próprios vieses. (Claro, tudo isso se aplica ao gênero também – e é por isso que estou feliz em ver Larry Summers chutado da presidência da minha alma mater.)

Mas há algo mais envolvido aqui do que considerações empíricas, porque a ciência empírica lida apenas com as condições capacitantes da mente, não com as condições constitutivas. (Para esta distinção, veja aqui, aqui, aqui, e aqui.) Em suma, existem verdades sobre o que a mente é que estão acessíveis apenas para a investigação filosófica, não para a investigação científica; e tais verdades colocam restrições sobre que tipos de hipóteses empíricas sobre a mente, e diferenças entre mentes, são admissíveis. Raças diferentes podem, de fato, terem atingido a mentalidade por caminhos evolutivos um tanto diferentes, mas uma vez que seja a mentalidade que elas tenham atingido, então o que quer que seja filosoficamente possível de ser conhecer sobre a mentalidade se aplicará igualmente a todas as raças. (Certamente não é uma espantosa anomalia estatística, necessitando de um apelo à intervenção divina, que culturas largamente separadas e diversas tenham convergido, por exemplo, sobre a proposição de que 7 + 5 = 12.)

Como um exemplo, costumava ser popular nos círculos racistas dizer que certas raças careciam de um senso moral. Duke poderia dizer, “bem, essa é uma hipótese empírica admissível – não há qualquer garantia evolutiva de que todas as raças terão as mesmas capacidades – façamos alguns testes e descubramos“. Mas suponha que ocorra, via análise filosófica, de que ter um senso moral é parte de se ter uma mente – que capacidades mentais e morais estão conceitualmente conectadas. Nesse caso, a sugestão não será uma hipótese empírica admissível; sua coerência já foi eliminada em bases conceituais.

Há assim uma triste ironia no fato de que o argumento de Duke esteja recebendo opiniões favoráveis entre alguns praxeologistas, porque a reclamação de Duke de que a rejeição dos antirracistas de argumentos embasados na evolução é uma expressão de “fé” é impressionantemente similar à frequente caracterização que o mainstream faz da praxeologia austríaca como um “culto” por rejeitar abordagens empíricas à economia em favor de considerações a priori. Do ponto de vista materialista-empiricista-psicologista-cienticista, qualquer apelo a considerações filosóficas em vez de empíricas conta como “fé” em vez de ciência. Mas isto simplesmente evidencia uma falta de entendimento da natureza do raciocínio filosófico. Praxeologistas reconhecem tais críticas como falsas quando dirigidas à praxeologia; deveriam reconhecer que tais críticas são igualmente falsas quando direcionadas à esquerda antirracista.

Eu argumentei em posts anteriores (veja aqui, aqui e aqui) que uma série de hipóteses populares sobre diferenças comportamentais geneticamente embasadas são simplesmente eliminadas por considerações filosóficas. Além disso, existem casos em que, embora certas hipóteses não sejam absolutamente eliminadas, sua probabilidade a priori é diminuída. Por exemplo, uma razão para enfatizar determinantes ambientais (ao invés de biológicas) da mentalidade tanto quanto pessoas pensadoras antirracistas o fazem é que a mentalidade em si consiste, em um grau significativo, em transações com o ambiente social e físico, em vez de meramente o que acontece dentro do crânio. Esta descoberta, no entanto, foi atingida através de meios filosóficos conceituais em vez de empíricos (a “revolução externalista”, como podemos chamá-la, da qual Wittgenstein foi o principal arauto), e tem sido largamente ignorada por quem trabalha nas ciências empíricas – o que é uma razão pela qual pesquisadores empíricos procedem como se tudo de relevante para a mentalidade estivesse localizado no cérebro. A dimensão externalista da mentalidade não elimina absolutamente hipóteses inatistas, mas nos dá uma razão pela qual, de outra forma, não teríamos que olhar mais de perto os determinantes ambientais das características mentais do que de outra forma poderíamos.

Em suma, então, quando uma hipótese é ou impossível ou relativamente improvável por razões a priori, tem um histórico fraco a posteriori também, e tem a inferioridade de certos grupos como seu principal desfecho, a sugestão de que a hipótese poderia ter sido incitada mais por preconceito do que pela investigação científica destemida parece menos com a “corretude política” sobre a qual Duke se lamuria do que se parece com o simples senso comum.

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