19 jan, 2015 - Roderick Long -

Um brinde ao politicamente correto7 minutos de leitura

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por Roderick Long

[Este artigo foi publicado para praxeology.net em janeiro de 2003. Tradução de Lucas Senra. Revisão e edição de Giácomo de Pellegrini.]

Há duas formas de deixar o politicamente correto controlar a sua mente.

Uma é rejeitar pontos de vista, não porque eles são falsos, mas porque eles são politicamente incorretos.

A outra é abraçar pontos de vista, não porque são verdadeiros, mas porque são politicamente incorretos.

Nós, libertários, raramente somos acusados do primeiro erro. Mas frequentemente somos acusados do segundo. Aqueles que cometem o segundo erro são tão escravos do politicamente correto quanto aqueles que cometem o primeiro.

Em uma reunião acadêmica, eu, certa vez, vi um libertário se apresentar para uma professora com uma frase matadora: “Você é feminista? Eu odeio feministas.” Libertários descrevem o grande público do politicamente correto (PC) como hipersensíveis e que ficam ofendidos facilmente. A acusação é geralmente válida. Mas ser hiperinsensível e ofender a tudo e a todos não é nenhum avanço.

Camisas em que se lê “Politicamente Incorreto” são populares no nosso movimento. Mas por que exatamente o politicamente incorreto é algo para se gabar? A ideia, presumivelmente, é que nós somos pessoas de pensamento independente que não se guiam por nenhuma linha partidária. E é certamente verdade que uma boa quantidade de tolice e até mesmo um mal completo foi perpetrado em nome do politicamente correto (como também em nome de quase todas as outras coisas). E a tendência de preocupações com a hegemonia e a dominação desaparecerem quando a hegemonia e a dominação são exercidas pelo Estado com propósitos politicamente corretos podendo ser algo incrivelmente hipócrita. Mas o quão independente é pensar que o público do PC não está certo em nada?

Por exemplo, já que é politicamente correto atribuir papéis de gênero primariamente a fatores culturais em vez de fatores genéticos, muitos de nós parecem adorar abraçar a posição contrária. O fato dessa corrida para sociobiologia ser muitas vezes motivada mais por fatores emocionais do que por fatores intelectuais é sugerido pelo fato que, para argumentar em favor dessas posições, libertários geralmente se permitem os tipos de desleixo que condenariam com razão, digamos, em discussões sobre economia. Por exemplo, eu ouvi libertários argumentarem: “Diferenças psicológicas entre homens e mulheres têm correlações neuropsicológicas, então estas diferenças devem ter bases genéticas em vez de culturais.” Isso significa que características psicológicas adquiridas, diferente das características inatas, não têm correlações neuropsicológicas?

Aqui está outra: “Se a igualdade sexual completa é possível, desejável e consistente com a natureza humana, como nenhuma sociedade na história humana não conseguiu atingir tal feito?” Tente substituir “igualdade sexual” por “liberdade libertária” nesse sentido para ver porque esse é um argumento estranho para nosso movimento adotar.

Libertários – incluindo, infelizmente, muitas das chamadas feministas individualistas ou libertárias – abraçaram rapidamente a distinção de Christina Hoff Sommers entre o inócuo “feminismo liberal” e o assustador “feminismo de gênero”. O feminismo liberal aceita as instituições e práticas de nossa sociedade mais ou menos da forma que elas são, e argumentam apenas em favor de papéis mais igualitários para as mulheres dentro dessas instituições e práticas. Já para o feminismo de gênero, as instituições e práticas de nossa sociedade estão profundamente transformadas por uma ordem patriarcal socialmente construída que reforça sistematicamente o enfraquecimento das mulheres, logo, essas instituições e práticas devem ser reformadas de maneira radical antes da igualdade poder ser atingida.

Caramba! Se essas são minhas escolhas, então, sim, eu sou um feminista de gênero!

É claro que é bem verdade, como os libertários acusam, que a) muitas feministas de gênero estenderam essa ideia a extremos absurdos e, similarmente, que b) as soluções que as feministas de gênero dão envolvem tipicamente um aumento da violência estatal. Mas, em relação a a), não há posição tão racional que não tenha tido proponentes que a defendem em formas absurdas ou extremas. (Alguns libertários, por exemplo, chegam a achar as regras da lógica dedutiva “coercitivas”.) E, em relação a b), fora dos círculos libertários quase todo mundo tende a apelar para a violência estatal como solução para qualquer problema. O fato dessas soluções propostas pelas feministas de gênero serem inaceitáveis para nós não mostra que elas não identificaram alguns problemas importantes.

Muitos libertários trabalham sob a ilusão de que as chamadas “feministas de gênero” estão todas consumidas pelo ódio que nutrem pelos homens. Eu sugiro que eles conheçam algumas. Encarem à realidade, camaradas.

Outro problema que coloca os libertários contra o politicamente correto são os códigos de fala nos campus universitários. Sim, muitos códigos de fala são bobos. Mas, as pessoas deveriam ter exatamente a mesma liberdade de expressão que têm na sua propriedade na propriedade da universidade? Por que exatamente?

Se a resposta é que os propósitos da universidade são melhores servidos por uma atmosfera de livre intercâmbio de ideias – não é válido para essa afirmação que certas formas de discurso podem tender, através de um efeito intimidador, a minar esta atmosfera?

Ou, se a resposta é que universidades, como receptoras de fundos financiados com impostos, estão representando o público e devem, por isso, administrar esses fundos de maneira não discriminatória – isso implica que os receptores de benefícios sociais devem, também, ser proibidos de gastar seu auxílio financeiro de maneira discriminatória? Se imposto é roubo, como nós acreditamos, é difícil ver como fundos de impostos para universidades com códigos de fala são um violação de direitos pior do que fundos para universidades sem esses códigos. O problema em si é que universidades estão sendo subsidiadas através da extorsão.

Na universidade onde trabalho, diversos membros de uma irmandade de brancos foram recentemente disciplinados por terem se vestido, alguns com uniformes do Ku Klux Klan e outros com máscaras negras, e encenado um linchamento simulado. A universidade é culpada de ter violado sua liberdade de expressão? Eu não penso assim. Certamente aqueles estudantes têm o direito natural de se vestirem como bem desejarem e participar de qualquer encenação que gostarem, enquanto permanecerem pacíficos. Mas não existe nenhum direito natural de ser um estudante da Auburn University.

Às vezes, escuta­-se o argumento: “se eles são contra essa e essa ideia, deve ter algo nelas.” Essa atitude de quodcumque ostendis mihi sic incredulus odi NE, no entanto, é um caminho para a verdade inconfiável. Stalin opor-se a Hitler é um fato que favorece Hitler? Hitler opor-­se a Stalin é um fato que favorece Stalin?

Não é verdade que as contribuições de mulheres, minorias e culturas não ocidentais foram tradicionalmente marginalizadas e excluídas? Ninguém precisa querer colocar mais páginas sobre George Washington Carver do que sobre George Washington nos livros de história para concordar que o público do PC está certo sobre alguma coisa. Observe a histeria anti­muçulmanos e pró-guerra que varre o país nesses dias. O grande público do PC, abençoados sejam, estão certamente no lado correto dessa questão. Libertários deveriam considerar o público do PC da mesma forma que nós consideramos os conservadores: como aliados potenciais. Aliados muitas vezes irritantes e equivocados – mas, todavia, pessoas para se cultivar, não para insultar.

NE Horácio. Ars Poetica, 188: Tudo que você me mostrar, eu desacreditarei e abominarei.

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