01 maio, 2015 - Roderick Long -

Teísmo e Ateísmo Reconciliados8 minutos de leitura

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por Roderick Long

[Este artigo foi publicado na Austro-Athenian Empire em março de 2004. Tradução de Pedro Eidt; Revisão e edição de Giácomo de Pellegrini.]

Já que meu blog tem entrado em território teológico ultimamente, eu pensei que talvez valesse a pena dizer algo sobre a existência de Deus.

Quando me perguntam se acredito em Deus, eu costumo não saber o que dizer – não porque eu não esteja certo de minha opinião, e sim porque eu não estou certo de como descrever essa opinião. Mas aqui vai uma tentativa:

Eu acredito que a disputa entre teísmo e ateísmo é de certa forma ilusória – que quando se tenta elencar precisamente aquelas coisas com as quais teístas estão comprometidos e aquelas com as quais ateístas estão comprometidos, as duas posições convergem para essencialmente a mesma coisa, e seus respectivos proponentes têm lutado pelos dois lados do mesmo escudo.

Vamos começar pelo ateísta. Há algum sentido em que até mesmo o ateísta está comprometido em reconhecer a existência de alguma espécie de realidade suprema, eterna, não-material que transcende e subjaz todo o resto? Sim, há: a saber, a própria estrutura lógica da realidade.

Assim, na medida em que o teísta não quer dizer nada além disso por “Deus”, o teísta e o ateísta não discordam realmente.

Claro, o teísta pode pensar que por Deus ele quer dizer algo além disso. Mas da mesma maneira, antes de as pessoas saberem que baleias eram mamíferos elas pensavam que por “baleia” elas queriam dizer um tipo de peixe. O que o teísta está de fato comprometido em querer dizer?

Bem, suponha que Deus não é a estrutura lógica do universo. Então nós podemos perguntar: Que tipo de relação Deus tem com essa estrutura, se não identidade? Parece que haveria duas possibilidades.

Uma é que Deus está fora dessa estrutura, como seu criador. Mas essa “possibilidade” é ininteligível. Lógica é uma condição necessária para o discurso significativo. Assim não se pode falar significativamente de um ser não constrangido pela lógica, ou de um tempo em que as restrições da lógica ainda não estavam em vigor.

A outra é que Deus está dentro dessa estrutura, junto com todo o resto. Mas essa opção, como Wittgenstein observou, rebaixaria Deus ao status de ser meramente um objeto entre outros, mais um fragmento de contingência – e ele não seria mais o maior de todos os seres, já que haveria algo maior: a própria estrutura lógica. (Isso pode ser parte do que Platão queria dizer ao descrever a Forma do Bem como “além do ser”).

A única opção viável para o teísta, então, é a de identificar Deus com a estrutura lógica da realidade. (Chame isso de “logicismo teológico.”) Mas nesse caso a disputa entre o teísta e o ateísta se dissolve.

Talvez seja contestado que a “reconciliação” que eu ofereço realmente favoreça o ateísta ao invés do teísta. Afinal de contas, que teísta poderia se satisfazer com uma divindade que é meramente a estrutura lógica do universo? Ainda assim, há de fato uma venerável tradição de teístas que proclamam precisamente isso. Tomás de Aquino, por exemplo, propôs resolver as perguntas imemoriais “pode Deus violar as leis da lógica?” e “pode Deus ordenar algo imoral?” identificando Deus com o Ser e a Bondade personificadas. Assim, Deus é constrangido pelas leis da lógica e da moralidade, não porque ele é sujeito a elas como se fossem um poder maior, e sim porque elas expressam sua própria natureza, e ele não poderia violá-las ou alterá-las sem deixar de ser Deus. A solução de Aquino é, essencialmente, logicismo teológico; ainda assim, poucos acusariam Aquino de ter uma concepção diluída ou cripto-ateísta de divindade. Por que, então, não deveria o logicismo teológico ser aceitável ao teísta?

Uma outra objeção poderia ser levantada: Aquino obviamente não parou na identificação de Deus com Ser e Bondade, mas continuou a atribuir a Deus várias características não obviamente compatíveis com essa identificação, tais como personalidade e vontade. Mas se a estrutura lógica da realidade tem personalidade e vontade, ela não será aceitável ao ateísta; e se ela não possui personalidade e vontade, então ela não será aceitável ao teísta. Então minha reconciliação não acaba se desfazendo?

Eu acho que não. Afinal de contas, Aquino sempre tomou cuidado em insistir que ao atribuir essas qualidades a Deus nós estávamos falando analogicamente. Deus não possui literalmente personalidade e vontade, pelo menos se por esses atributos nós queremos dizer os mesmos atributos que nós humanos possuímos; ao invés, ele possui atributos análogos aos nossos. O ateísta também pode conceder que a estrutura lógica da realidade possui propriedades análogas a personalidade e vontade. É somente com a imputação literal dessas propriedades que o ateísta deve discordar. Nenhum conflito aqui.

Mas Deus, como entendido pelos teístas, não deveria criar e sustentar o universo? Talvez. Mas ateístas também podem conceder que a existência do universo depende de sua estrutura lógica e não poderia existir nem por um instante sem ela. Então onde está a disputa?

Mas Deus não deveria ser digno de adoração? Claro. Mas ateístas, enquanto eles não podem conceber a ideia de adorar uma pessoa, são geralmente muito mais abertos à ideia de adorar um princípio. De novo o logicismo teológico nos permite transcender a oposição entre teístas e ateístas.

Mas e quanto à prece? Seria a estrutura lógica da realidade algo para o qual alguém poderia sensatamente rezar? Se for, poderia parecer, a vitória vai para o teísta; se não, para o ateísta. Ainda assim isso depende do que conta como prece. Obviamente não faz sentido peticionar a estrutura lógica da realidade por favores; mas essa não é a única concepção de oração existente. Em “Ciência e Saúde”, por exemplo, o teólogo M. B. Eddy descreve a atividade de rezar não como um pedido a um princípio mas como uma aplicação de um princípio:

Quem se postaria diante do quadro negro e rezaria para o princípio da matemática resolver o problema? A regra já está estabelecida, e é nossa tarefa achar a solução. Devemos pedir ao divino princípio de toda bondade para fazer Seu próprio trabalho? Seu trabalho está feito, e nós só temos que nos valer do domínio de Deus para receber Sua bênção, que nos possibilita a achar nossa própria salvação.

Seria essa uma concepção diluída ou “naturalística” de oração? Dificilmente precisa ser assim; como fundador da Ciência Cristã, Eddy dificilmente poderia ser acusado de subestimar o poder da reza! E concepções parecidas de prece são achadas em muitas religiões orientais. Novamente, as credenciais teísticas do logicisimo teológico são tão impecáveis quanto as suas credenciais ateísticas.

Outra possível objeção é a de que se a identificação de Deus com a estrutura lógica da realidade favorece o ateísta ou o teísta depende de quão metafisicamente robusta é a concepção de “estrutura lógica” para a qual se apela. Se alguém pensa sobre a estrutura lógica da realidade em termos realistas, como uma realidade independente por si só, então a identificação favorece o teísta; mas se alguém ao contrário pensa, em termos nominalistas, que não há nada na estrutura lógica para além daquilo que ela estrutura, então a identificação favorece o ateísta.

No entanto, esse argumento assume que a distinção entre realismo e nominalismo é coerente. Eu argumentei em outro lugar que ela não é; realismo conceitual imagina a estrutura lógica como algo imposto pelo mundo em uma mente inerentemente desestruturada (e portanto envolve a noção incoerente de uma mente inerentemente desestruturada), enquanto nominalismo imagina a estrutura lógica da realidade como algo imposto pela mente em um mundo inerentemente desestruturado (e portanto envolve a noção igualmente incoerente de um mundo inerentemente desestruturado). Se a dicotomia realismo/antirrealismo representa uma falsa oposição, então a dicotomia teísmo/ateísmo também representa. A diferença entre as duas posições será então apenas, como Wittgenstein diz em outro contexto, “uma de grito de guerra”.

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