15 jun, 2015 - Roderick Long -

Sobre Racismo Reverso: Três Experimentos Mentais10 minutos de leitura

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por Roderick Long

[Este artigo foi publicado para Bleeding Heart Libertarians em novembro de 2014. Tradução de Uriel Alexis Farizeli Fiori. Revisão e edição de Giácomo de Pellegrini.]

Para algumas pessoas, especialmente na direita, o racismo reverso é exatamente tão sério e problemático quando o racismo regular. Para outras, especialmente na esquerda, o racismo reverso é impossível; uma pessoa negra, digamos, pode ser hostil ou preconceituosa em relação a pessoas brancas, mas não pode contar como racista em relação a elas.

Esta discordância é devida, em parte, a uma discordância maior quanto a se o racismo, e/ou a maldade do racismo, é essencialmente uma questão de atitudes e ações individuais, ou essencialmente uma questão de relações sistemáticas de poder. E as mesmas questões surgem com sexismo, heterossexismo, cissexismo, e assim por diante.

Eu creio que ambos os lados estão errados. Isto é, eu creio que o racismo reverso (juntamente com o sexismo, etc) é a) possível e real, mas b) menos seriamente problemático que o tipo regular. Deixe-me dizer por quê.

Começarei com um experimento mental projetado para convencer quem já aceita a existência do racismo reverso (etc.) e que ele é menos seriamente problemático do que o tipo regular.

Experimento Mental #1: A Barraca de Hambúrguer de Bobby Shafto

Bobby Shafto tem uma estranha obsessão com sardas, especificamente sardas no rosto. Ele gosta de pessoas com um número par de sardas no rosto. (Isso inclui pessoas sem quaisquer sardas no rosto, uma vez que zero é um número par.) Mas ele tem uma aversão em relação a pessoas com um número ímpar de sardas no rosto, e recusa a deixá-las entrar em sua barraca de hambúrguer, seja como empregadas ou como clientes. Em seu mundo, que vamos supor que seja o nosso também, o preconceito particular de Shaft é, claro, bem pouco comum. Mas na Terra Gêmea, vamos dizer, o mesmo preconceito é amplamente compartilhado entre as pessoas com sardas pares e, como as pessoas com sardas pares comandam a maior parte do poder político e econômico, elas são capazes de tornar seu preconceito efetivo.

Suponha que Bobby Shafto e sua estranha política de discriminação realmente exista em algum lugar. Poderíamos bem desaprovar. Mas quão preocupados estaríamos com ela? Não muito, eu suspeito. E a razão não é difícil de encontrar: o preconceito de Shafto é tão raro que causa muito pouco dano geral; é fácil o suficiente encontrar outros lugares para se trabalhar e comer.

Em comparação, quando consideramos o cenário da Terra Gêmea em que o preconceito de Shafto é a norma entre as pessoas com poder econômico e político, então as escolhas de vida das pessoas com sardas ímpares começariam a ser sistematicamente restringidas, e o preconceito em questão começaria a parecer como algo que necessita ser condenado e combatido de uma forma séria e organizada. (Tal combate não precisa, necessariamente, tomar a forma de coerção legal; mas esta é uma questão distinta.)

Quando eu digo que o preconceito contra pessoas com sardas ímpares é um mal pior na Terra Gêmea do que em nosso mundo, eu não quero apenas dizer que ele tem consequências piores (embora isso seja parte do que eu quero dizer). Eu também quero dizer que ele evidencia um motivo e um caráter piores – uma vez que envolve intencionalmente contribuir para a opressão contínua, de uma maneira que Shaft não o faz.

Então a discriminação contra as pessoas com sardas ímpares é um mal sério na Terra Gêmea; mas nosso mundo não é a Terra Gêmea. E, considerando Bobby Shafto em nosso mundo – Bobby Shafto, o estranhão excêntrico isolado -, eu pergunto a quem pensa que o racismo reverso é tão seriamente problemático quanto o racismo regular, se eles também pensam que a política de discriminação de Shafto é tão seriamente problemática quanto o racismo regular. Se – como eu prevejo – a maioria não concordar, isso parece mostrar que eles estão comprometidos a reconhecer que a maldade do racismo é, pelo menos em grande parte, uma questão de restringir sistematicamente as opções das pessoas – de sua opressão, no sentido de Marilyn Frye. Mas isso significa que o racismo reverso – isto é, o racismo por parte de um grupo oprimido contra um grupo não-oprimido – não pode ser um mal tão sério quanto o racismo por parte de um grupo não-oprimido contra um grupo oprimido.

Meu argumento pressupõe, claro, que pessoas negras são um grupo oprimido e que pessoas brancas não o são. (E assim também, mutatis mutandis, para mulheres e homens, etc.) Obviamente algumas das pessoas que se preocupam com o racismo reverso negarão essa suposição. Eu acho que elas são loucas de negar isso, mas este é um debate no qual não vou entrar aqui. Para os propósitos deste artigo, eu estou me dirigindo a quem concede que pessoas negras são oprimidas, ao passo que pessoas brancas (enquanto brancas) não o são, mas que, não obstante, consideram o racismo regular e o racismo reverso como igualmente ruins. O ponto da minha comparação entre Bobby Shafto e a Terra Gêmea é convencer defensores dessa posição de que não podem mantê-la consistentemente.

Permitam-me passar agora ao segundo grupo – quem nega a possibilidade do racismo reverso, sobre o fundamento de que o racismo é essencialmente sobre a opressão sistemática e institucional, não meramente sobre atitudes individuais. A crítica usual a esta visão é que ela conflita com o uso comum. Essa crítica é, creio eu, forte, mas não tão forte quanto quem a propõe supõe.

Por que o apelo do uso comum é forte? Porque o uso padrão da palavra “racismo” na linguagem comum realmente trata as atitudes individuais como suficientes (mesmo se não necessárias) para o racismo. Claro, as pessoas estão livres para dar à palavra “racismo” um sentido especial enquanto termo técnico se referindo exclusivamente ao racismo institucional; mas se isso é tudo que elas estão fazendo, então elas não têm direito de criticar outras que usam o termo da maneira comum. Por analogia, o termo “tropoNT, como usado em minha profissão, significa algo radicalmente diferente de seu(s) uso(s) em quase qualquer outro lugar (seja na retórica, na teoria literária, ou na linguagem comum); mas seria tolo de minha parte criticar quem não a usa da forma que filósofos analíticos o fazem.

Por que o apelo ao uso comum não é necessariamente decisivo? Porque o uso comum de um termo pode ser legitimamente rejeitado se ocorrer de haver algo errado com esse uso – como eu argumentei ser o caso com, por exemplo, o termo “capitalismo”.

Mas há qualquer coisa errada com o uso comum de “racismo”? Ele permite a possibilidade de racismo reverso, claro, mas há qualquer coisa errada em fazer isso? Pode-se pensar que sim, se pensar que reconhecer o racismo reverso como uma categoria comprometeria a pessoa a considerar o racismo reverso como comparável ao racismo regular, seja em abrangência ou em seriedade moral; mas não existe qualquer comprometimento do tipo. (Que a existência do racismo reverso não implica em ele ser comparável em seriedade moral ao racismo regular era a moral do meu experimento mental com Bobby Shafto acima.) Claro, o tipo de pessoas que tendem a bater na tecla do racismo reverso tipicamente consideram sim ele como comparável, tanto em abrangência quanto em seriedade moral, ao racismo regular; mas não precisamos negar a existência de uma categoria a fim de negar que a categoria tem a significância de quem está mais investido na categoria geralmente atribui a ela.

Uma outra razão que se poderia ter para rejeitar o uso comum de “racismo” é simplesmente a necessidade de um termo que transmita as dimensões sistemáticas e institucionais do problema; se “racismo” como comumente usado não faz isso, talvez devêssemos mudá-lo de maneira que o faça. Mas, na verdade, nós temos termos que fazem o truque, tais como “opressão”, “privilégio branco”, e (mutatis mutandis) “patriarcado”. Esses termos são todos assimétricos; “racismo” não precisa ser (nem, por exemplo, “sexismo”).

Em todo caso, insistir que nada conta como racismo a menos que envolva opressão sistemática e institucional tem algumas consequências que mesmo quem assume essa visão deveria achar estranhas. Isto me leva ao meu segundo experimento mental.

Experimento Mental #2: Dono do Homem das Cavernas Descongelado

Pegue alguém que você pense que seja obviamente racista; presumivelmente Donald Sterling vai dar conta (ele também é machista, então este exemplo pode ter função dupla), mas escolha outra pessoa se quiser. Agora suponha que, ao excursionar por uma instalação de criogenia, ele caia no tanque e seja instantaneamente congelado. Quando ele é revivido, muitos anos (décadas? séculos? milênios?) se passaram, e ele acorda em um mundo em que a verdadeira igualdade racial (assim como de gênero, etc) finalmente foi alcançada. Mas todas as atitudes de Sterling continuam as mesmas que eram no começo do século XXI. Sterling não é mais um racista (o mesmo vale para machista)?

Se o racismo necessariamente envolve relações de poder que permeiam toda a sociedade, então Sterling, no meu exemplo, não é um racista uma vez que acorde, já que as relações de poder em questão se foram. Mas parece bizarro negar que o Sterling do futuro, com todas suas atitudes inalteradas daquelas do Sterling do presente, é um racista. Eu não quero só dizer que parece bizarro para mim. Antes, estou predizendo (sujeito, claro, a falsificação) que mesmo aqueles (ou a maioria daqueles) que são atraídos pela negação da possibilidade do racismo reverso acharão plausível pensar sobre o Sterling do futuro como um racista. Mas se ele é um racista, então o racismo não depende essencialmente da opressão sistemática (mesmo se muito do interesse moral no racismo provenha de tal opressão), e assim o argumento principal contra a possibilidade do racismo reverso deve ser abandonado.

Mas talvez será dito que o Sterling do futuro conte como um racista apenas porque suas crenças e atitudes foram formadas em um contexto social de privilégio branco e, assim, ainda são definidas por sua origem. Bem, nesse caso, vamos considerar um último experimento mental.

Experimento Mental #3: O Perigo Vermelho e Amarelo

Dois grupos étnicos distintos, os Winkies e os Quadlings, vivem em territórios adjacentes. Cada lado considera o outro como degenerados racialmente inferiores que merecem ser ou subjugados ou exterminados. Os dois estão em constante guerra um com o outro, mas como estão aproximadamente igualados, nenhum lado teve sucesso em dominar o outro. Os Winkies e os Quadling não são racistas?

O ódio racial mútuo entre os Winkies e os Quadlings parece como o tipo de situação para o qual o termo “racismo” foi feito sob medida para descrever. Mas, ao passo que cada lado busca dominação, nenhum a tem. Não há nenhuma desigualdade, nenhum privilégio, nenhuma opressão. Então o racismo, sugiro eu, não precisa envolver esses. Caso no qual o racismo reverso é possível. Embora não seja necessariamente grandes coisas.

NT Além do link fornecido pelo autor, vide também os diferentes significado em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Tropo_(filosofia) , http://pt.wikipedia.org/wiki/Tropo, e http://en.wiktionary.org/wiki/trope#English

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