03 nov, 2015 - Roderick Long -

Produtividade Platônica11 minutos de leitura

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por Roderick Long

[Este artigo foi publicado para Austro Athenian Empire em outubro de 2004. Tradução de Gabriel Felippi; Revisão e edição de Giácomo de Pellegrini]

Mulheres no mercado de trabalho ganham, em média, 75 centavos para cada dólar que os homens ganham em postos de trabalho equivalentes.

O que explica essa diferença salarial? Várias possibilidades foram sugeridas. Mas alguns austríacos têm argumentado que há apenas uma explicação possível: as mulheres são menos produtivas do que os homens.

O argumento é o seguinte: se os empregadores pagarem a um empregado mais do que o valor da receita do produto marginal do referido trabalhador, a empresa vai perder dinheiro e por isso será penalizado pelo mercado. Se os empregadores pagarem a um empregado menos do que o valor de sua receita do produto marginal, em seguida, outras empresas poderão lucrar oferecendo salários mais competitivos e assim atrairão o empregado. Daí os salários que são definidos acima ou abaixo da receita do produto marginal do empregado tendem a ser limitados pela concorrência. (Veja Mises e Rothbard para este argumento.) O resultado é que qualquer disparidade persistente entre os salários das mulheres e dos homens se deve a uma disparidade correspondente entre suas produtividades marginais.

Como Walter Block coloca:

Considere um homem e uma mulher com uma produtividade de US$ 10 por hora cada, e suponha que, por causa da discriminação ou o que for, o homem é pago US$ 10 por hora e a mulher é paga US$ 8 por hora. É como se a mulher tivesse um pequeno sinal na testa dizendo: “Contrate-me e ganhe um extra de US$ 2 por hora.” Isso faz dela uma funcionária desejável, mesmo para um patrão machista.

O fato da diferença salarial não ser limitada pela competição desta forma mostra que a diferença deve se basear, continua o argumento, em uma verdadeira diferença na produtividade entre os sexos. Isso não significa necessariamente que se trata de qualquer diferença inerente em capacidades, mas em vez disso de que pode ser devido ao ônus desproporcional do trabalho doméstico assumido pelas mulheres – o que também explicaria por que a diferença salarial é maior para as mulheres casadas do que para as mulheres solteiras. (Walter Block usa este argumento também.) Portanto, preocupações feministas sobre as diferenças salariais são infundadas.

Eu não tenho certeza do porquê este argumento, se bem-sucedido, mostraria que se preocupar com a diferença salarial é um erro, em vez de mostrar que os esforços para superarem a diferença deveria prestar menos atenção em influenciar empregadores e mais atenção em influenciar normas conjugais. (Talvez a resposta fosse que, desde que esposas livremente optam por cumprir tais normas, terceiros não têm nenhuma base para condenar as normas. Mas desde quando arranjos livremente escolhidos não podem ser criticados – sobre bases morais, prudenciais ou ambas?)

Mas de qualquer maneira, eu não estou convencido pelo argumento, que me parece… mais neoclássico do que austríaco, na medida em que ignora a informação imperfeita, a passagem do tempo, etc. Eu certamente concordo com Mises e Rothbard de que há uma tendência para os trabalhadores serem pagos de acordo com sua receita do produto marginal, mas a tendência não se percebe instantaneamente ou sem enfrentar tendências de compensação e, portanto, a meu ver, não licencia a inferência de que os salários dos trabalhadores são suscetíveis de se aproximar ao valor da sua receita do produto marginal – assim como a existência de tendências equilibrantes não significa que a economia vai chegar ao ponto ou estar perto de equilíbrio. Eu aplicaria a este caso a observação que Mises faz sobre o estado final de repouso – que, embora “o mercado a cada instante esteja se movendo em direção a um estado final de repouso”, não obstante este estado “nunca será alcançado”, porque “novos fatores perturbadores emergirão antes dele ser realizado”.

Primeiro de tudo, a maioria dos empregadores não sabem com muita precisão a receita do produto marginal dos seus trabalhadores. As empresas são, afinal, ilhas de planejamento central – em uma escala pequena o suficiente para que os ganhos com a coordenação central geralmente superem as perdas, mas ainda assim elas são epistemologicamente prejudicadas pela ausência de mercados internos. (E eu sou um pouco cético em relação às tentativas de simular mercados dentro das empresas à la Koch Industries.) A empresa confronta o teste de rentabilidade como uma unidade e não empregado por empregado, e por isso há um pouco de adivinhação envolvida em pagar trabalhadores de acordo com a sua rentabilidade. Precisamente esta característica é apontada, em outro contexto, pelo próprio Block: “estimar a receita do produto marginal de funcionários reais e potenciais […] é difícil de fazer: há produtos comuns; a produtividade depende de como o trabalhador ‘se encaixa’ com os outros; é impossível manter um olho em uma determinada pessoa durante todo o dia; etc.” Mas Block acha que isso não importa muito, porque “os empresários que podem realizar tais tarefas prosperam; aqueles que não podem, não”. Bem, é verdade, mas um empresário não tem que resolver esses problemas perfeitamente a fim de prosperar – como qualquer pessoa que tenha passado algum tempo no frequentemente insano mundo dilbertiano da indústria real pode testemunhar. (A razão para Dilbert ser tão popular é que ele é tão deprimentemente preciso.)

dilbert-salaryUma empresa que não dá a devida atenção à rentabilidade está fadado ao fracasso, certamente; mas precisamente porque não estamos vivendo no mundo de concorrência perfeita neoclássica, as empresas podem sobreviver e prosperar sem serem maximizadoras do lucro. Elas só têm de ser menos loucas e estúpidas do que seus concorrentes. Na verdade, é uma das glórias do mercado que ele possa produzir tais resultados maravilhosos de tal imperfeição.

Mesmo que as mulheres geralmente não sejam menos produtivas do que os homens, então, ainda pode haver uma presunção generalizada por parte dos empregadores de que elas são, e tendo em conta a dificuldade de determinar a produtividade de indivíduos específicos, essa presunção não seria facilmente falseada, tornando assim qualquer diferença salarial com base em tal presunção mais difícil para as forças de mercado as limitarem. (Presunções semelhantes poderiam explicar a diferença salarial entre mulheres casadas e solteiras do mesmo modo.)

Assim, uma diferença salarial pode persistir mesmo que os empregadores estejam focados exclusivamente na rentabilidade, não têm interesse em discriminação e estejam fazendo o melhor para pagar o salário apenas sobre a produtividade marginal. Mas não há também nenhuma razão para excluir a possibilidade da deliberada discriminação que ignora o lucro. A discriminação pode ser um bem de consumo para os gestores e este bem pode ser tratado como parte do pacote de salários e benefícios do gestor; quaisquer custos para a empresa decorrente de práticas discriminatórias do gerente pode, assim, serem vistos como puros custos de folha de pagamento. Talvez alguns gestores encomendem fantásticos painéis de madeira para seus escritórios e outros gestores paguem menos às mulheres por motivos sexistas; se o primeiro tipo de comportamento pode sobreviver ao teste do mercado, por que não o último?

Devo acrescentar que eu não acho que meu ceticismo sobre a teoria da produtividade dos salários seja qualquer tipo de crítica ao mercado. A tendência que os austríacos pontuam é real e isso significa que os mercados são suscetíveis de nos deixarem mais perto de salários segundo a produtividade do que qualquer sistema rival poderia deixar. (Já que a competição perfeita dos neoclássicos é incoerente e impossível, não conta como um rival relevante.) Se os empregadores têm dificuldade em estimar a produtividade dos seus trabalhadores (o problema da informação), ou, por vezes, não tem boas razões para tal (o problema do incentivo), isso não é motivo para supor que o governo faria melhor. Os empregadores estão, certamente, em uma posição melhor (embora imperfeita) para avaliar a produtividade dos seus funcionários do que está algum legislador ou burocrata distante e eles também têm mais razões para se preocuparem com a rentabilidade da sua empresa (mesmo que não seja tudo o que importa) do que teria o governo. Portanto, não há razão para pensar que a transferência de poder de decisão dos empregadores para o Estado traria salários em melhor alinhamento com a produtividade. Pessoas no governo são imperfeitas também e (dado a eficiência superior da democracia econômica em comparação com a democracia política) estão ainda menos restringidas por qualquer tipo de prestação de contas do que as empresas privadas.

Nada que eu tenha dito mostra que homens e mulheres são igualmente produtivos; só serve para mostrar que, dado que prevalece normas culturais e relações de poder, bem poderíamos esperar ver uma lacuna entre os rendimentos de homens e mulheres, mesmo que eles fossem igualmente produtivos (que é, pelo menos, razão para o ceticismo sobre alegações de que eles não são igualmente produtivos).

Gostaria de acrescentar também que, mesmo se houver problemas persistentes – relações de poder não-governamentais, mas ainda assim prejudiciais e similares – que os processos do mercado não eliminariam automaticamente, não se segue que não há nada a ser feito sobre estes problemas além de recorrer à força governamental. Essa é uma razão pela qual eu sou mais simpático ao movimento operário e feminista do que muitos libertários hoje em dia tendem a ser. No século XIX, os libertários viam a opressão política como um componente em um sistema de bloqueio de fatores políticos, econômicos e culturais; eles não cometeram o erro de pensar que o poder político é o único problema, nem o erro de pensar que o poder político pode ser utilizado com segurança e eficácia para combater os outros problemas.

Como já escrevi em outro lugar:

Como estudantes de economia austríaca (ver, por exemplo, os escritos de F. A. Hayek), sabemos que o livre mercado, ao coordenar o conhecimento disperso dos agentes de mercado, tem a capacidade de chegar a soluções que nenhum indivíduo poderia ter inventado […] [Mas como] estudantes de economia austríaca (ver, por exemplo, os escritos de Israel Kirzner), também sabemos que a eficiência dos mercados depende, em grande parte, da ação dos empreendedores; e na teoria austríaca os empreendedores não reagem passivamente aos preços de mercado (como fazem na economia neoclássica), mas em vez disso estão alertas para oportunidades de lucro e estão constantemente tentando inventar e ofertar novas soluções […] [Nós] devemos nos lembrar de equilibrar o insight hayekiano contra o igualmente importante insight kirzneriano de que o funcionamento do mercado depende do engenho criativo de indivíduos […] Eu vejo o nosso papel […] como o de empreendedores intelectuais; nossa chegada a soluções faz parte (apesar de nenhuma maneira completamente) daquilo que é para o mercado chegar a soluções. Nós somos o mercado.

Sabemos – independentemente da existência da diferença salarial – que há uma abundância de sexismo no mundo dos negócios. (Aqueles que não sabem disto podem verificá-lo por si mesmos passando um tempo neste mundo ou falando com aqueles que o fazem parte.) Uma vez que vemos porque a teoria da produtividade dos salários, embora correta, tanto quanto se pode ver, vai menos longe do que seus proponentes frequentemente supõem, não parece implausível supor que esse sexismo desempenhe algum papel na explicação da diferença salarial e que esse sexismo precisa ser combatido. (E mesmo que a diferença salarial fosse baseada em uma verdadeira lacuna de produtividade decorrente da maior responsabilidade das mulheres no trabalho doméstico, as expectativas culturais que levam as mulheres a assumir tal responsabilidade seriam, então, o sexismo a se combater.) Mas isso não é razão para se queixar de uma “falha de mercado”. Tal falha é meramente nossa falha. Em vez disso, temos de lutar contra o poder – de forma pacífica, mas não em voz baixa.

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