20 abr, 2015 - Roderick Long -

Por que libertários deveriam se opor às sweatshops6 minutos de leitura

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por Roderick Long

[Este artigo foi publicado para Bleeding Heart Libertarians em junho de 2012. Tradução, revisão e edição de Giácomo de Pellegrini.]

Não tenho problemas com a tese central de Matt – ou seja, que eliminando as sweatshops (fábricas de suor) sem fazer mais alguma mudança poderia ser ruim para os pobres. Mas acredito que uma análise das sweatshops que param por aí, ou que colocam sua ênfase principal nisso, é uma má escolha para os libertários bleeding-heart.

Pode ser verdadeiro que é preferível empregos numa sweatshop do que as alternativas disponíveis, mas precisamos perguntar por que essas são as alternativas disponíveis; e na maioria dos casos a resposta é que estes trabalhadores vivem sob regimes opressivos que se fecharam violentamente a outras opções – o que lança dúvidas sobre a descrição da escolha dos trabalhadores como “voluntária”.

Em seu vídeo, Matt refere-se aos trabalhadores como sendo “livres para escolher dentro de seu conjunto restrito de opções”; claro que é analiticamente verdadeiro que sempre somos livres para escolher dentro de tudo o que é possível dentro do nosso conjunto restrito de opções (caso contrário não seriam opções). Se alguém coloca uma arma na sua cabeça e exige seu dinheiro ou sua vida, você tem, é claro, a liberdade sartreana para escolher qualquer uma; mas isto não é o que voluntariedade significa num contexto político. E embora seja verdade o bastante dizer que nós não deveríamos tirar a liberdade da vítima do assalto para evitar a morte entregando o dinheiro, isso seria uma estranha análise libertária bleeding-heart da situação em que não vai mais longe do que isso.

Como Jeremy Weiland pergunta, por que libertários deveriam gastar “tanto tempo precioso, energia e dinheiro para justificar” uma má situação, ao invés de investir esse mesmo “tempo, energia e dinheiro para advogar uma melhora no conjunto de escolhas”, a fim que os trabalhadores das sweatshops possam ter “melhores opções que não sejam humilhantes, perigosas e injustas?”

Matt tem suscitado dúvidas em seus posts anteriores sobre o papel do governo em explicar as restrições das opções dos trabalhadores:

Às vezes os trabalhadores são pobres, porque eles sofreram injustiças. Mas não vejo qualquer razão para supor que isto seja sempre e necessariamente verdadeiro. A pobreza não é uma aberração que só pode ser explicada pela injustiça humana. A pobreza, para a maioria da história humana, era o estado normal da existência humana. É a riqueza, não a pobreza, que requer uma explicação especial.

Isso é verdade suficiente, se estamos falando sobre a longa história antes de várias invenções modernas e técnicas serem desenvolvidas (embora mesmo assim, a melhor explicação para os períodos de rápidos avanços sejam geralmente mais liberdade). Mas uma vez que tais inovações estão disponíveis, é raro para qualquer pequena violência organizada impedir a propagação delas através do livre intercâmbio (graças a lei de associação ricardiana) para qualquer um que queira tê-las. Hoje em dia a riqueza ou pobreza de um país praticamente sempre está correlacionada com o grau de liberdade ou opressão.

Matt também lança dúvidas sobre se os proprietários das sweatshops são responsáveis pelas políticas de governos dos seus países de acolhimento. Acredito que a responsabilidade varia caso a caso. Certamente essas empresas procuram países com baixos salários, que, na prática, significa a procura de países cujos governos artificialmente restringem as opções de seus cidadãos; e enquanto os governos já são opressivos, certamente suas disposições coercitivas apenas são reforçadas pela necessidade de manter as corporações caça-níqueis ao redor. Casos onde as corporações realmente trazem suporte armado, ou mesmo se estabelecem através de golpes de Estado, regimes que reprimem os sindicatos e resistem a uma reforma da terra podem ser a exceção, mas não são desconhecidos (a United Fruit é o exemplo mais célebre). Mesmo quando essas corporações não compartilham a culpabilidade da opressão, são certamente culpadas por explorá-las.

Isto interessa ao ponto de Matt? Afinal, ele não está reivindicando que os proprietários das sweatshops sejam moralmente virtuosos; tudo o que ele está dizendo é que, como as coisas estão, os trabalhadores pobres estão melhores com as sweatshops do que sem elas.

É justo; mas ele fala um pouco mais do que isso, para ele é também condenável protestos e boicotes às sweatshops. Isso é justo? Concordo que, se os protestos e boicotes tenham como objetivo simplesmente o fechamento das sweatshops (ou, pior ainda, regulamentos, tais como as leis de salário mínimo que forçam a fuga das sweatshops), então eles são um erro. Mas o que as pessoas que protestam contra as sweatshops estão exigindo não é que os empregadores demitam todos os seus funcionários e fechem suas fábricas; em vez disso, demandam salários mais elevados e melhores condições. Se uma empresa responde a um boicote, não melhorando suas fábricas, mas por fechá-las, e quem boicota responde acabando com o boicote, então o boicote está sendo feito de forma contraproducente; mas isso é um motivo para condenar a estupidez desses tipos de boicotes, não para condenar um boicote per se.

Mas e se a empresa não pode se dar ao luxo de oferecer salários mais elevados e melhores condições? Às vezes esse é o caso; mas no caso da maioria dessas corporações internacionais, há uma diferença considerável entre o que os empregadores estão oferecendo agora e o que poderiam oferecer, enquanto continuam permanecendo rentáveis – caso contrário as greves, particularmente greves de modelo Immokalee (veja aqui e aqui e para uma reflexão mais ampla aqui), nunca teriam êxitos – e “a pechincha de mercado” de Adam Smith (e acredito de que boicotes, greves, protestos e greves secundárias sejam partes dessa pechincha que Smith menciona) poderia ajudar a fechar essa lacuna. (Além disso, um pouco de melhoria das condições de trabalho poderia ser efetuada sem muito custo, simplesmente por uma mudança nos métodos de gerenciamento.)

Na verdade, por que não oferecer Immokalee como um modelo para trabalhadores de fábrica seguirem, suportada sem vigorosa pressão sobre os empregadores? E o que poderia ser uma solução mais libertária bleeding-heart para o problema da sweatshop?

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