01 set, 2015 - Roderick Long -

Política Contra Política7 minutos de leitura

Download e-book

por Roderick Long

[Este artigo foi publicado para Austro Athenian Empire em outubro de 2006. Tradução, revisão e edição de Giácomo de Pellegrini]

Eu argumentei, alguns diriam que ad nauseam, que a luta libertária contra a opressão estatal precisa ser integrada (ou reintegrada) com as tradicionais lutas de esquerda contra vários tipos de opressão não-estatais como patriarcado, racismo, etc.

Minha posição encontra apoio, embora de maneira indireta, no artigo de Rothbard, “Contempt for the Usual“, publicado na edição de maio de 1971 da Libertarian Forum.

Pode parecer um artigo estranho para ser citado em nome da minha heresia esquerdista, uma vez que o artigo é um ataque ao esquerdismo cultural em geral e ao feminismo em particular. Mas afirmo que os argumentos de Rothbard, sem dúvidas, malgré lui, suportam na verdade a minha posição.

Aqui estão alguns trechos cruciais:

À parte da tendência à esquerda pelo emprego da coerção, a esquerda parece ser incapaz de deixar as pessoas em paz no sentido mais fundamental; Parece incapaz de abster-se de uma importunação contínua, pressionando e assediando todos a sua vista ou ao alcance da sua voz. […] A esquerda é incapaz de reconhecer a legitimidade da pessoa média e pacífica perseguindo seus próprios objetivos e seus próprios valores através da sua vida tranquilamente sensata.

Muitos libertários que estão encantados com os princípios do Maoísmo, salientando, em teoria pelo menos, que as comunas descentralizadas e as sessões autocríticas são supostamente voluntárias e não impostas pela violência. Mesmo concedendo até este ponto, o Maoísmo no seu melhor, desconsiderando a violência, seria quase intolerável para a maioria de nós e certamente para qualquer pessoa que pretenda exercer uma vida verdadeiramente individualista. O Maoísmo depende de uma contínua intimidação, assédio e importunação de todas as pessoas ao alcance, trazendo-os à escala completa de valores, atitudes e convicções adotadas pelo resto dos seus vizinhos. […] O ponto é que no mundo maoísta, mesmo em sua forma mais civilizada, o assédio está em toda parte.

Colocando de uma outra maneira: uma diferença crucial e permanente entre libertários e a esquerda é a visão de cada uma quanto a uma sociedade futura. Libertários querem o fim da política; eles desejam abolir a política para sempre, para que cada indivíduo possa viver sua vida sem ser molestado e de acordo com seus valores. Mas a esquerda, em contraste, quer politizar tudo; para a esquerda, cada ação individual, não importa quão trivial seja, torna-se um ato “político”, para ser examinada, criticada, denunciada e reabilitada em conformidade com as normas da esquerda. […] O movimento The Women’s Lib, claro, tem sido a vanguarda desta intimidação e importunação para uma obrigação moral universal. […]

Seria de esperar que a sociedade livre do futuro seja livre, não só da violência agressiva, mas também livre dos assédios hipócritas e arrogantes. “Cuide da sua própria vida” implica que cada pessoa é responsável pelos seus próprios assuntos e permite que todos os outros homens tenham o mesmo privilégio. Isso é uma moralidade básica de civilidade, de cortesia, da vida civilizada, de respeito pela dignidade de cada indivíduo. Isso não abrange toda a moralidade, mas é um ingrediente necessário para uma ética social verdadeiramente racional e civilizada. […]

O ponto crucial aqui é que os libertários cuja única filosofia é se opor a violência coercitiva estão deixando de lado as lutas ideológicas atuais. O problema com a esquerda não é simplesmente sua propensão à coerção; é também e em algum sentido mais fundamentalmente, seu ódio à excelência e à individualidade, a sua hostilidade à divisão do trabalho, sua obsessão pela uniformidade total e sua dedicação à importunação permanente. E como parece ao redor do mundo, que encontra como objeto principal de seu ódio, o americano médio, o homem que em silêncio, tem todos os valores que ele não pode tolerar. […] Uma das grandes e vazias tarefas de um intelectual, do verdadeiro intelectual, se você assim desejar, é vir em auxílio à burguesia, com o propósito de resgatar o americano médio de seus tormentos triunfantes. […] Em nome da verdade e da razão, nós devemos levantar o escudo e o martelo sobre o americano médio.

Então, como tudo isso oferece suporte a minha posição? Bem, observe que Rothbard aqui trata do princípio “cuide da sua própria vida” como mais amplo do que o princípio da não agressão; ele critica “os libertários cuja única filosofia é se opor à violência coercitiva” por não reconhecer que cuidando da própria vida implica uma rejeição “não só de violência agressiva, mas também do assédio hipócrita e arrogante”, mesmo quando o assédio não envolve uso da força contra a pessoa ou propriedade.

Resumindo, então, Rothbard concorda que uma atitude generalizada de tal crítica “intolerável” de estilo-maoísta, mesmo se pacífica, seria uma forma de opressão e que os libertários deveriam se preocupar em combater tanto quanto eles combatem a agressão real. E isto é exatamente o tipo de coisa que eu venho dizendo também. Práticas e atitudes culturais restritivas podem ser opressivas mesmo se não violentas e devem ser combatidas (embora, claro, sem violência) por libertários através do mesmo tipo de razões que a opressão violenta deve ser combatida.

Claro, o ponto de Rothbard pode parecer apoiar o meu apenas genericamente, não especificamente – afinal ele identifica o feminismo, ao invés do patriarcado, como uma instância de forma de opressão, na qual ele está preocupado em combater. Como Rothbard disse, “o americano médio, o homem que em silêncio, tem todos os valores que [a esquerda] não pode tolerar”, é inofensivamente “cuide da sua própria vida”, enquanto feministas e outros esquerdistas que atacam seus valores se recusam a cuidar das próprias vidas e estão, em vez disso, submetendo o ordinário americano a “uma contínua intimidação, assédio e o importunando […] até levá-lo para a escala completa de valores, atitudes e convicções adotadas pelo resto dos seus vizinhos.”

Acredito que este é o caminho errado para compreender a natureza das reclamações trazidas pelas feministas e outros esquerdistas. Não quer dizer, claro, que nós feministas et al nunca somos culpados desse tipo de coisa que Rothbard está se referindo; nenhuma ideologia pode ser e cada ideologia certamente tem sido defendida de forma intrusiva, intrometida e detestável, e o feminismo não é exceção. Mas a questão é se isso é toda a história, ou até mesmo a história principal, das críticas feministas que Rothbard está falando, e afirmo que não é. A maneira de entender as críticas feministas que trazemos é ver que, do nosso ponto de vista, é o patriarcado que se recusa a deixar a gente em paz – que o processo pelo qual as atitudes patriarcais são promovidas, inculcadas e reforçadas precisamente como “uma contínua intimidação, assédio e importunando cada pessoa [especialmente mulheres] na tentativa de trazer [ela] para a escala completa de valores [patriarcais], atitudes e convicções adotadas pelo resto dos [seus] vizinhos.”

O ponto da crítica feminista, portanto, não é para politizar a reprodução da supremacia masculina, mas sim, para identificar o caráter político que já possui, e o objetivo de um movimento político feminista (compreenda “político” aqui como denotando qualquer movimento organizado para a mudança social, seja pacífica ou violenta) é defender mulheres contra tal opressão, para servir como seu “escudo e martelo”. E o mesmo vale, mutatis mutandis, para a defesa dos trabalhadores, dos gays, das minorias étnicas, etc., contra várias formas de opressão que, enquanto na verdade muitas vezes apoiada por meios violentos (estatistas ou de outros tipos), não se limitam a tais meios. A extensão “americanos médios” de Rothbard são cúmplices em tal opressão, eles estão nessa medida não cuidando da sua própria vida – e esquerdistas que tentam corrigir suas atitudes estão estritamente na defensiva, em serviço, ao invés de violando “uma moral básica de civilidade, de cortesia, de vida civilizada, de respeito pela dignidade de cada indivíduo”.

Download e-book