29 abr, 2015 - Roderick Long -

O Valor na Amizade10 minutos de leitura

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por Roderick Long

[Esse artigo foi publicado para Philosophical Investigations na Auburn University em janeiro de 2003. Tradução de Pedro Eidt, revisão e edição de Giácomo de Pellegrini]

O propósito desse texto é fazer uma pergunta. A pergunta é: “O que é aquilo que nós valorizamos na amizade?”

O propósito desse texto não é responder a pergunta. Essa é uma tarefa mais árdua do que a que eu pretendo realizar aqui. Ao invés, meu propósito é simplesmente fazer a pergunta.

Você pode pensar que eu já fiz a pergunta; então meu texto já atingiu seu propósito e eu deveria parar agora mesmo. Afinal, eu não acabei de dizer que minha pergunta era: O que valorizamos na amizade? Mas eu não consegui realmente fazer a pergunta ainda, porque eu ainda não clarifiquei qual pergunta eu estou fazendo. Quer dizer, eu ainda não distingui a questão que quero perguntar de outras questões facilmente confundíveis com esta. Portanto ainda não estamos no ponto de poder realizar a minha pergunta. Nós precisamos perambular pela selva um pouco – embora, espero, não por quarenta anos – antes que possamos chegar à terra prometida da minha questão.

Para que possamos chegar onde estamos indo, precisamos começar de outro lugar. Vamos começar com uma citação de E. M. Forster: “Se eu tivesse que escolher entre trair meu país e trair meu amigo”, Forster escreveu, “espero que eu tenha a coragem de trair meu país”. Essa afirmação captura adequadamente o que pode parecer filosoficamente problemático sobre a amizade. A amizade pode conflitar com o bem-estar da sociedade: lealdade a um amigo pode requerer de você que traia seu país. A amizade também pode conflitar com seu próprio bem-estar: trair seu país provavelmente vai fazer você ser preso ou morto, e por isso demanda coragem.

Sidgwick afirmou famosamente que o utilitarismo e o egoísmo são as únicas teorias morais que fazem sentido. Como muito do que Sidgwick disse, isso foi inteligente e errado. Mas o que faz dessa afirmação inteligente, a despeito de estar errada, é que ela captura uma ideia intuitiva. Quando eu estou sendo parcial, eu tenho uma razão especial para me importar com o meu próprio interesse, porque sou eu. E quando estou sendo imparcial, eu tenho uma razão especial para me importar com o bem-estar de todos, porque do ponto de vista imparcial, todos contam igualmente. Mas a amizade parece não se adequar a nenhum dos dois critérios. Parece altruístico demais do ponto de vista do autointeresse, e egoísta demais do ponto de vista do bem-estar geral.

Daí sempre ter havido alguns filósofos que aconselhavam contra colocar muito peso em comprometimentos pessoais com pessoas particulares. Utilitaristas, de Mozi na China Antiga até William Godwin na Inglaterra do século XVIII, criticaram a parcialidade àqueles que amamos sob o argumento de que ela tende a prejudicar as reivindicações legítimas anteriores da sociedade em geral; Godwin, por exemplo, escreveu que uma pessoa deveria salvar um estranho de um prédio em chamas em preferência a salvar sua própria mãe, se o estranho fosse um importante filantropo na sociedade, e sua mãe fosse uma mera camareira. E estóicos como Epiteto alertaram que vínculos emocionais fazem a serenidade da pessoa vulnerável ao azar. Em uma famosa anedota estóica associada a um grande número de diferentes filósofos, o homem sábio explica sua equanimidade ao ouvir a notícia da morte da pessoa amada dizendo: “Afinal, eu sabia que ela era mortal.”

Ainda assim, a maioria dos filósofos – egoístas e utilitaristas inclusos – têm sido mais amigáveis à amizade. Epicuro, por exemplo, defende a amizade em bases egoísticas: a amizade é uma fonte de felicidade pessoal. Em resposta à inevitável objeção de que um amigo é alguém que nós valorizamos pelo seu próprio bem, não simplesmente como um meio para atingir nossa própria felicidade, Epicuro distingue entre a motivação para levar-nos a *entrar* em uma amizade e a motivação que nós temos depois que já estamos na amizade. A última motivação – a motivação que é interna à, ou constitutiva da, felicidade – é de fato uma preocupação com o amigo pelo seu próprio bem, não pela nossa própria felicidade. Nossa própria felicidade é (ordinariamente) um subproduto da amizade, mas não seu principal objetivo. Entretanto, como a amizade *tende* a trazer felicidade, uma preocupação com nossa própria felicidade é uma boa razão para levar-nos a entrar em uma amizade, em primeiro lugar. Então, assim que estivermos em uma amizade, nós adquiriremos uma nova preocupação que não tínhamos antes; responderemos a bens que são internos à amizade. Antes de entrar na amizade, nós ainda não temos nenhuma razão para nos importarmos com *aqueles* bens (apesar de termos boas razões para *nos importarmos* em nos importar com eles). Analogamente à noção de Mcintyre sobre bens internos a uma prática, os bens internos à amizade são bens cujo ponto nós só conseguimos reconhecer quando já estamos em uma amizade. Nas palavras de Epicuro, “Toda amizade é intrinsecamente valiosa; mas ela surge por causa dos seus benefícios.”

Portanto temos motivos autointeressados para fomentar motivos não autointeressados em nós mesmos (ou para permitir que sejam fomentados). É como a Aposta de Pascal, que supostamente deveria nos motivar a *tornar-nos* crentes, mas que, para aqueles que finalmente *acreditam*, deve ser chutada para fora depois de usada, como uma escada ou uma armadilha para peixes (dependendo de qual lado do Ural a pessoa obtém suas metáforas).

É claro, assim como a Aposta de Pascal, a aposta pode não render; às vezes a amizade requer sacrifícios maiores do que as satisfações na amizade podem compensar. Se isso acontecer, você terá cavado sua própria cova através do cultivo de motivações não egoístas em si mesmo. Mas ao decidir que tipos de desejos você quer ter, você tem de ser guiado pelo resultado *mais provável*; como os benefícios da amizade costumam ser maiores do que os custos, entrar em uma amizade é um risco que vale a pena tomar.

Assim afirma a justificação egoísta da amizade. E a justificação utilitarista da amizade é similar: apesar de a amizade envolver se importar mais com algumas pessoas do que outras, e, portanto, às vezes levar pessoas a fazerem escolhas antiutilitárias, nós temos boas razões utilitaristas indiretas para permitir e até mesmo fomentar a instituição da amizade, porque ela traz à humanidade mais satisfação do que insatisfação, no todo.

Essa é uma história sobre o que faz a amizade ser valiosa. Seria ela uma resposta à *minha* pergunta? Não. Ela diz que temos razões instrumentais (sejam elas egoístas ou utilitaristas) para entrarmos em uma amizade – a saber, que a amizade causa prazer. Mas *por que* a amizade causa prazer?

Eu não estou pedindo uma explicação *causal*. Um teórico evolucionário poderia nos dizer que organismos que formam relações afetivas uns com os outros são mais propensos a sobreviver e reproduzir, e, portanto o processo evolucionário selecionou a característica de achar a amizade prazerosa, o que motivou os organismos a buscarem e manterem amizades. Tudo isso é sem dúvida verdadeiro. Mas essa é uma explicação *externa*. O que eu estou procurando é a motivação *tal qual ela é experimentada pela pessoa que está de fato em uma amizade*. Quando você está na amizade, não é o valor da sobrevivência ou da reprodução que lhe dá prazer. E certamente não é o “fato de que te dá prazer” que te dá prazer. Aproveitar a amizade simplesmente é derivar prazer dela, de modo que não faz sentido algum dizer que aquilo que nós aproveitamos na amizade é o prazer que ganhamos. Ao invés, o que nós gostamos sobre a amizade é o que quer que esteja *na* amizade que a torna prazerosa.

Agora estamos finalmente na posição de podermos realizar minha pergunta: O que é que valorizamos na amizade? E agora podemos ver toda a importância do “na”. Há muitas coisas que são valiosas *sobre* a amizade; muitos aspectos que podem ser apreciados de fora. E há perguntas interessantes e importantes a serem feitas sobre esses aspectos. Mas nenhuma dessas é a minha pergunta. A minha pergunta diz respeito aos aspectos da amizade que nós apreciamos ou achamos valiosos de dentro, quando nós estamos de fato sentindo os sentimentos da amizade. Responder essa questão com algum tipo de história consequencialista indireta, seja ela egoísta, utilitarista, ou evolucionária, é não entender a questão; é confundir minha pergunta com alguma outra – e portanto não conseguir vê-la como uma questão significativa. Tais histórias consequencialistas indiretas nos dizem por que temos boas razões para adotarmos as motivações características da amizade; mas elas não nos dizem como o valor da amizade parece quando visto *através* das lentes dessas motivações. (Incidentalmente, é por isso que argumentos consequencialistas indiretos são na realidade reductiones ad absurdum do consequencialismo; eles mostram que os próprios consequencialistas estão comprometidos, pelos seus próprios princípios consequencialistas, a rejeitar estes princípios. Como as versões indiretas do consequencialismo são as únicas que teriam qualquer chance de serem plausíveis, esse resultado é bastante embaraçoso para o consequencialismo; mas também, o que não é?)

Apesar de ainda não ter mencionado – nem usado – o nome de Aristóteles, minha discussão inteira foi obviamente aristotélica em espírito. Mas não está claro que o próprio Aristóteles tenha respondido minha pergunta. Aristóteles identifica, entre os principais benefícios da amizade, o fato de que ela estende a nossa atividade e aumenta o nosso autoconhecimento. Eu acredito que essa identificação é menos estranha do que parece. Mas seriam esses bens *internos* à amizade, ou não? E a resposta seria afetada por esses bens estarem relacionados *instrumentalmente* ou *constitutivamente* com a amizade – ou essa é uma questão separada? Aristóteles aparentemente deixa essas perguntas como exercícios ao leitor.

O que nós valorizamos na amizade? Bem, o amigo, certamente. Mas quais aspectos do amigo exatamente? De qualquer forma, nós não valorizamos apenas o amigo, mas também o nosso relacionamento com o amigo. (É somente quando algo deu errado que nós nos vemos valorizando o amigo e não a amizade “Se pelo menos eu não me importasse tanto com essa maldita pessoa. […]”) Quais aspectos do relacionamento nós valorizamos? Aristóteles fala sobre viver junto, e por essas palavras ele quer dizer, não dividir uma residência (para Aristóteles, a maior parte da verdadeira vivência se dá fora de casa), mas compartilhar atividades juntos. Mas quais atividades, e quais aspectos delas? Existem respostas diferentes para diferentes tipos de amizades, ou existe um denominador comum?

Essas são as questões que podemos perguntar, e tentar responder, apenas depois que tivermos clarificado o caminho para a minha pergunta. Eu plantei, e agora devo descansar.

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