14 abr, 2016 - Roderick Long -

O real significado do 11 de setembro8 minutos de leitura

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por Roderick Long

[Esta consideração foi publicada para praxeology.net em 11 de setembro de 2008. Tradução e revisão de Gabriel Goes; Edição de Giácomo de Pellegrini]

Eu comecei a escrever no meu blog no primeiro aniversário do 11 de setembro e, ao longo dos anos seguintes, falei um bocado sobre esse evento – como ele mostra tanto o poder quanto a impotência do Estado; como ele alimenta o ciclo de Higgs de intervenções crescentes; como a mentalidade pré-11 de setembro é a única realista; como ele ilustra a superioridade de Aristóteles em relação a Sêneca e também a D. H. Lawrence; e como não só os teóricos da conspiração do 11 de setembro, mas também seus críticos, são confusos.

Neste último aniversário, gostaria de falar sobre como o Estado fomenta a guerra – no sentido de provocar ataques como o de 11 de setembro, bem como no de gerar as próprias respostas confusas, como a guerra do Iraque.

Governos entram em guerra com tanta frequência que as pessoas se esquecem de ficar desconcertadas com o fenômeno. No entanto, dados os efeitos de reputação, a escolha de violência sobre cooperação tende a ser custosa, como mesmo um pensador tão pessimista quanto Hobbes reconhece:

Portanto, aquele que quebra o contrato [social] e, por conseguinte, declara que pensa que pode fazê-lo com razão, não pode ser recebido em qualquer sociedade que se une por paz e segurança, a não ser que os que o recebem incorram em erro; também não pode, depois de recebido, ser acolhido sem que vejam o perigo desse erro; erros nos quais um homem não pode confiar como meios para sua segurança: e se, dessa maneira, for deixado de fora ou expulso da sociedade, morrerá; e, se viver em sociedade, é pelos erros de outros, os quais ele não poderia prever, nem nos quais poderia confiar; consequentemente, contra a razão de sua preservação; então, todos que não contribuem para sua destruição, toleram-no apenas por ignorância do que é bom para eles mesmos.

Se a cooperação tende a ser um equilíbrio estável, por que conflitos interestatais são tão frequentes? A resposta, sugiro eu, é que a natureza do Estado permite que ele colha os benefícios da guerra enquanto socializa os custos. Já que o Estado adquire suas receitas de guerra compulsoriamente (através de taxação), e seus soldados também (no melhor dos casos via servidão por contrato e, no pior, via conscrição), enquanto os meios eleitorais para prover feedback negativo são ocasionais e indiscriminados demais para serem efetivos o bastante, ele é capaz de transportar os custos da guerra para a própria população (por isso Bentham descreveu bem a guerra como um crime “cometido pelos poucos governantes em uma nação conquistadora contra os muitos governados de ambas as nações”).

Guerras são caras, tanto em vidas quanto em dinheiro; se os pagadores de impostos que proveem o caixa do governo fossem livres para escolher quais funções governamentais financiar (como o são os clientes de outros provedores de serviços, e como pagadores de impostos foram em sociedades total ou parcialmente sem Estado) – e se os soldados que dão suas vidas tivessem a mesma liberdade de abandonar seus empregos que outros empregados têm –, tal socialização de custos seria muito mais difícil de ser atingida; mas, como são as coisas, aqueles que suportam os custos não têm direito de saída.

Os benefícios da guerra para o Estado, por outro lado, são usualmente enormes, mesmo se ele não ganhar (desde que não seja conquistado), na medida em que guerras e outras emergências nacionais lhe dão uma desculpa para expandir seus poderes – expansões que, de maneira crescente, quase nunca retornam aos níveis originais depois que a crise acaba. Não foi por nada que Randolph Bourne declarou que a guerra é “a saúde do Estado”. Ademais, dado seu acesso aos meios de educação e propaganda, o Estado pode convencer a população de que ela também se beneficiará da guerra; veja a crença amplamente difundida nos EUA de que a Segunda Guerra ajudou a economia, apesar de toda a evidência em contrário.

Não se deve dizer, contudo, que agentes não estatais nunca optam pelo conflito violento; é óbvio que o fazem. Particularmente em sociedades de costumes machistas, fatores culturais que direcionam para a violência podem prevalecer com frequência sobre incentivos econômicos que incitam a paz. Em sociedades total ou parcialmente sem Estado, no entanto, ao menos os incentivos econômicos afastam a possibilidade de guerra (caso prevaleçam ou não), ao invés de aproximá-la como acontece em Estados; e, com o tempo, tais incentivos podem, de fato, suplantar os costumes machistas. Como evidência, considere a Islândia medieval ou a Inglaterra pré-normanda, sociedades as quais surgiram em condições culturais que podem parecer incompatíveis ao máximo com a paz, dado o forte apoio social a um código de honra que obrigava a participação em disputas familiares; mesmo assim, a instituição da restituição ou wergild (pagamento vultoso de compensação à família da vítima) teve sucesso em sobrepujar aqueles costumes, já que o alto custo monetário da restituição desencorajava o homicídio, enquanto a tentadora bonança financeira de aceitá-la em vez de buscar vingança desgastava, de forma gradual, os incentivos baseados na honra que haviam sustentado as disputas sangrentas. Em um exemplo mais recente, a Somália, durante seu período sem Estado, atingiu um nível mais baixo de violência do que seus vizinhos com Estado (econômica e culturalmente comparáveis) ou mesmo do que ela própria enquanto ainda possuía um Estado.

Há uma grande cena em “O Jovem Indiana Jones”, na qual um líder tribal africano, ao ouvir sobre a contagem de mortos da Primeira Guerra Mundial, pergunta a Indy como as potências europeias puderam custear uma guerra tão grande – como puderam pagar a restituição massiva às famílias dos milhares de mortos? Indy fica chocado com essa noção: esse líder tribal é tão primitivo que põe um preço na vida humana? O mentor de Indy (de forma implausível, Albert Schweitzer) responde que é melhor do que não a valorizar de forma alguma.

Os ataques do 11 de setembro são um caso exemplar do Estado de guerra em operação. Como com Pearl Harbor seis décadas antes, as intervenções arrogantes do governo dos EUA ao redor do mundo tornaram tal ataque virtualmente inevitável (para cada jihadista que se alista para lutar contra os EUA porque “odeia a liberdade americana”, cem se alistam porque “odeiam as bombas americanas”). E, claro, as primeiras vítimas da retaliação a tais intervenções são os inocentes mortos em represálias terroristas (o 11 de setembro foi incomum no sentido de que o establishment estatal foi atingido também; ainda assim, a classe política como um todo claramente se beneficiou, no fim das contas, por seus poderes expandidos).

Mesmo deixando de lado as considerações morais e o risco de retaliação, as intervenções do governo dos EUA ao redor do mundo são terrivelmente caras; se você visse os custos numa conta mensal, logo cancelaria o “pacote premium” e ficaria com o básico. Se os pagadores de impostos tivessem a escolha de financiar ou não intervenções militares, com o impacto da decisão de ir à guerra diretamente nos bolsos dos que decidem, elas não ocorreriam – e a retaliação ao 11 de setembro seria prevenida também. Além disso, quando o Estado responde a tais ataques com uma guerra vagamente relacionada no Iraque, que dura muito mais do que o entusiasmo dos pagadores de impostos, isso só é possível pela impossibilidade de saída (e pela capacidade do Estado em evitar que muitos “clientes” o deixassem, na esteira do escândalo das armas de destruição em massa inexistentes).

Sobre a guerra civil iraquiana que a invasão americana engatilhou, pode-se agradecer ao Estado também, já que o principal fator que impulsiona esse conflito é a expectativa de que vá surgir, ou continuar a existir, um aparato estatal, e o medo correspondente de que a gangue adversária tome posse dele.

Eleger candidatos melhores não é completamente infrutífero como estratégia para aprofundar a paz; mas é um curativo, na melhor das hipóteses. É como tirar Jaime II e colocar Guilherme de Orange – foca-se em mudar o pessoal quando o que realmente precisa ser mudado é o sistema.

Enquanto as instituições políticas tiverem uma base de clientes obrigatórios e puderem adquirir recursos e trabalho de forma compulsória, elas serão capazes de socializar os custos e concentrar em si os benefícios de ir à guerra; e, contanto que seja dessa forma, a escolha de se envolver em conflitos será menos custosa para elas do que o seria para um empreendimento honesto – assim, quando os custos estatais para agir de forma agressiva são reduzidos, mais cedo ou mais tarde ele comprará mais violência, seja o presidente um Obama ou seja um McCain.

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