08 maio, 2015 - Roderick Long -

O Logos Inexprimível11 minutos de leitura

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por Roderick Long

[Este artigo foi publicado na Austro-Athenian Empire em março de 2004. Tradução de Pedro Eidt; Revisão e edição de Giácomo de Pellegrini.]

Em Teísmo e Ateísmo Reconciliados, eu argumentei que “a disputa entre teísmo e ateísmo é de certa forma ilusória”, já que ateístas estão comprometidos a reconhecer a existência de, enquanto teístas estão comprometidos a identificar Deus com a estrutura lógica da realidade.

O colega molinariano Charles Johnson me envia algumas perguntas a respeito disso:

– Mas se (1) Deus é a ordem lógica do universo, e (2) o pensamento lógico não corre em trilhos, por assim dizer, então isso não significa que, em um sentido importante, Deus não é absolutamente nada? É assim que Deus morre – não com um estrondo, mas com um gemido?

Charles está se referindo à visão wittgensteiniana (que eu aceito) de que a lógica não deveria ser pensada como um conjunto de restrições externas às quais os nossos pensamentos respondem: “para que sejamos capazes de traçar um limite ao pensamento, nós deveríamos achar ambos os lados do limite pensáveis” (i.e. nós deveríamos ser capazes de pensar o que não pode ser pensado). Ou como eu resumo a visão de Wittgenstein em meu livro vindouro:

Pensar na lógica como se ela estivesse restringindo algo é imaginar, ou tentar imaginar, como as coisas seriam sem a restrição. Já que não é possível fazer sentido nem de um mundo ilógico nem de um pensamento ilógico toda a questão não pode ser perguntada significativamente e por isso pode ser descartada em sã consciência.

Assim é verdade que, em certo sentido, a estrutura lógica da realidade não é “absolutamente nada” – e é nesse sentido que o logicismo teológico conta como um tipo de ateísmo. Mas em outro sentido a estrutura lógica da realidade é um tipo bem peculiar de “absolutamente nada”. Citando meu livro novamente:

Quer-se dizer que já existe, de alguma forma, um padrão etéreo ao qual qualquer uso de signos deve se conformar se esse uso for para constituir pensamento, fala, ação, etc.; A possibilidade da lógica já parece como um tipo de lógica. […] Ainda assim, como Wittgenstein insiste, quando tentamos descrever esse padrão, nós acabamos balbuciando tautologias – “as coisas são o que elas são”, “se nós fazemos algo então nós o fazemos” – E o padrão não parece exercer qualquer restrição, uma vez que não conseguimos identificar nada que ele exclua. […] Assim nós vacilamos entre ver a estrutura lógica do universo como um esquema metafísico altamente articulado, e vê-la como absolutamente nada. […] Estaria Wittgenstein tendendo à última opção? Nós poderíamos colocar dessa forma. Mas poderíamos igualmente dizer: claro que esse esquema metafísico existe, os platonistas não estavam tateando totalmente em vão, mas a sua existência consiste em – não é nada além do que – a diferença entre fazer sentido e não fazer sentido (ao invés de ser algo por trás dessa diferença, explicando-a). […]

De certa forma, essa posição é tanto uma concessão ao, quanto uma refutação do, platonismo. Platonistas sempre pensaram na lógica como sendo básica e irredutível; e Wittgenstein concorda. Mas o erro dos platonistas foi tratar a lógica como uma espécie de entidade metafísica misteriosa, ou reino de entidades, sobre a qual mais poderia ser dito – quando na realidade não há nada a dizer sobre a lógica, exceto o que dizemos dentro da e com a lógica. O próprio âmbito da lógica pertence ao reino dos mostráveis, não dos dizíveis. (Frege chega perto de reconhecer isso em seu famoso debate com Benno Kerry, onde Frege nega a possibilidade de predicar qualquer coisa de conceitos, já que para fazer tal coisa se deveria, incoerentemente, colocar um termo-predicado na posição de sujeito). “A estrutura lógica da realidade não é absolutamente nada” é tão indizível quanto “A estrutura lógica da realidade é algo por si só”.”

Essa noção de Deus como uma espécie de nada-que-é-tudo, sobre o qual é em certo sentido impossível de falar diretamente, não é de forma alguma alienígena à tradição teística; e Platão obviamente mantinha que a Forma do Bem, a causa de todo ser, não é ela própria um ser, mas é “além do ser”, não possuindo nenhuma propriedade por si só e sendo capaz de ser caracterizada apenas em relação com outras coisas. (Para parafrasear Heráclito, o Logos está tanto disposto quanto indisposto a ser chamado de Deus – ou de fato qualquer coisa). Parte da atratividade do logicismo teológico é precisamente que ele explica o que do contrário seria uma notável e enigmática coincidência: a saber, a grande similaridade entre as coisas místicas que soam estranhas que os teólogos se acham compelidos a dizer sobre Deus, e as igualmente coisas místicas que soam estranhas que lógicos como Frege e Wittgenstein se acham compelidos a dizer sobre a lógica. E isso fortalece a minha afirmação de que um Deus que não fosse idêntico com a estrutura lógica da realidade estaria aquém de Deus como concebido tradicionalmente. (Aqueles que pensam que essa concepção de Deus necessariamente envolve uma concepção diluída de poder divino deveriam reler a citação de Eddy, e a minha discussão dela, no meu post original).

Mais de Charles Johnson:

Claro, uma maneira de motivar tal ideia seria dispensar com todas as alternativas. Então aqui está uma parte do dilema destrutivo que você usa contra os relatos teístas (Cristãos convencionais) do que eles querem dizer com “Deus”:

“A outra é que Deus está dentro dessa estrutura, junto com todo o resto. Mas essa opção, como Wittgenstein observou, rebaixaria Deus ao status de ser meramente um objeto entre outros, mais um fragmento de contingência – e ele não seria mais o maior de todos os seres, já que haveria algo maior: a própria estrutura lógica. (Isso pode ser parte do que Platão queria dizer ao descrever a Forma do Bem como “além do ser”).”

Mas certamente esse consequente não segue exatamente do antecedente. Se Deus é tomado como sendo um ser dentro da estrutura lógica da realidade, não segue disso que Ele é tomado como sendo um ser contingente, segue? As alternativas que você parece estar apresentando aqui são: (1) Deus existe, mas fora de todos os mundos possíveis; ou (2) Deus existe, mas em alguns mundos possíveis e não em outros; ou (3) Deus é a estrutura lógica da realidade de todos os mundos possíveis. (1) é claramente ininteligível, e (2) é teologicamente não atraente. Mas por que não adotar (4) Deus existe como um ser em todos os mundos possíveis?

Claro, isso levantaria a questão de por que Deus existe em todos os mundos possíveis enquanto mesas e cadeiras, etc. não existem; mas a resposta óbvia a ser apelada seria a de que Deus é necessário nesse sentido: para haver um mundo, Deus deve existir; mesas e cadeiras, etc. não poderiam existir sem Deus, mas Deus poderia existir sem mesas e cadeiras. Mas isso é o mesmo que dizer: Deus é o Criador de qualquer mundo que poderia haver. Eu posso pensar que essa é uma doutrina estranha de se acreditar, mas parece perfeitamente razoável que um Cristão chegue a esse entendimento de sua fé.

Isso também preservaria a distância ontológica entre Deus e Sua criação; claro, isso ainda significaria que Deus é um ser particular entre outros particulares em Suas várias possíveis casas. Mas eu não vejo por que qualquer Cristão deveria objetar a isso. A não ser que, claro, você esteja certo de que isso deixa YHVH [yehovah] como uma espécie de Demiurgo, abaixo de algo maior (viz. a estrutura lógica da realidade). Mas sobre isso, ver acima.

A razão por que rejeito a opção (4) é que eu penso que as chances de mostrar que Deus é um ser logicamente necessário são nulas a não ser que Deus seja a estrutura lógica da realidade.

Considere o argumento que Charles oferece ao teísta não-logicista: “para haver um mundo, Deus deve existir.” Como está, o máximo que isso mostraria é que a existência de Deus é necessária para a existência do mundo, não que a existência de Deus é necessária per se. Mesmo que a existência do mundo necessariamente implicasse a existência de Deus, isso não estabeleceria a necessidade do consequente (existência de Deus) a não ser que o antecedente (a existência do mundo) já fosse necessário. Porém, se a existência do mundo já fosse necessária, isso iria eliminar a necessidade de postular um Deus como a explicação do mundo. A própria premissa necessária para fazer a inferência para um criador divino possível também derrota o caso para que esse criador seja um ser necessário.

Para colocar meu ponto de forma um pouco diferente: Ou existência em todo mundo possível é suficiente para necessidade lógica ou não é. (Alguém poderia pensar que não é se esse alguém pensasse que não há nada de necessário na existência de um mundo; Eu não acho que isso faça sentido, mas eu menciono como uma possível opção.) Se existência em todo mundo possível é suficiente para necessidade lógica, então a existência de algum mundo ou outro já é necessária por definição (em todo mundo, é verdade que há um mundo), e por isso não requer Deus como explicação. De outro lado, se existência em todo mundo possível não é suficiente para necessidade lógica, então apelar para Deus para explicar a existência do mundo mostraria meramente que Deus existe em todo mundo possível, mas não que Deus é um ser necessário.

O modo padrão de argumentar a partir de seres contingentes para um Deus necessário é a prova cosmológica, que afirma que seres contingentes requerem uma explicação para sua existência, e apenas um ser necessário poderia fornecer tal explicação. Mas primeiro de tudo, eu não vejo por que seres contingentes requerem uma explicação para sua existência, na verdade, eu acredito que a existência de seres contingentes sequer poderia ter alguma explicação, pelo menos do tipo que o teísta não-logicista quer. Porque se a explicação torna a existência desses seres contingentes logicamente inevitável – como na visão de Leibniz em que Deus é um ser necessariamente existente que necessariamente cria o melhor mundo possível – então ela nega a existência das próprias explananda ao invés de explicá-las. (A “solução” leibniziana equivale, a despeito de intenções leibnizianas em contrário, a dizer que há apenas um mundo possível e por isso nenhum ser contingente; qualquer mundo cuja existência é descartada pela existência de um Deus que é ele próprio um ser logicamente necessário é, portanto, logicamente impossível). Por outro lado, se a explicação da existência dos seres contingentes não torna sua existência inevitável – se ela surge da escolha livre e irrestrita de Deus, por exemplo – então a contingência foi simplesmente realocada ao invés de explicada. (Mesmo que Deus seja um ser necessário, sua “escolha livre, irrestrita” ainda é um ser contingente e nós não teríamos avançado em nada).

Também não está claro exatamente como um componente particular do mundo poderia ser um ser logicamente necessário. Um ser logicamente necessário pareceria ser um ser cuja essência implica sua existência; como Kant apontou, isso significa que a prova cosmológica necessariamente pressupõe a prova ontológica. Mas se, como a maioria dos filósofos concordam hoje em dia, a prova ontológica é falaciosa, a prova cosmológica pareceria falhar também. (Poderia-se tentar consertar a prova cosmológica formulando suas premissas em termos de necessidade metafísica ao invés de lógica. Mas meus argumentos anteriores sobre a impossibilidade de explicar existência contingente, no sentido de “explicação” requerido por teístas não-logicistas, aplica-se tão bem à contingência metafísica, creio eu, quanto à lógica). Mas assim que Deus é identificado com a lógica, a ameaça de contingência divina desaparece.

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