05 ago, 2016 - Roderick Long -

O legado da Grécia Antiga para a liberdade: Tucídides e os deuses de Melos10 minutos de leitura

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por Roderick Long

[Este artigo foi publicado em 16 de maio de 2016 para o libertarianism.org. É a vigésima terceira parte da série O legado da Grécia Antiga para a liberdade. Tradução e revisão de Gabriel Goes; Edição de Giácomo de Pellegrini]

O historiador pinta um retrato nuançado de Atenas e contrasta suas políticas doméstica e externa.

A História da Guerra do Peloponeso contém um dos mais inspiradores panegíricos já escritos sobre a democracia ateniense – o discurso funerário de Péricles. Como sempre com Tucídides1, não se sabe quanto a fala reflete o que a figura histórica de fato disse e quanto é invenção do autor; mas, em todo caso, ele oferece um retrato atrativo da cidade nativa de ambos. A seguir, algumas passagens marcantes:

Nossa constituição não copia as leis de Estados vizinhos; somos um padrão para outros, em vez de imitadores nós mesmos. Sua administração favorece os muitos ao invés dos poucos; é por isso que a chamamos de democracia. Se observarmos as leis, fornecem igual justiça para todos em suas diferenças privadas; se observarmos as posições sociais, o avanço na vida pública se dá pela capacidade, e não pela reputação, e às considerações de classe não é permitido interferir no mérito; nem, mais uma vez, a pobreza barra o caminho – se um homem está apto a servir ao Estado, não é impedido pela humildade de sua condição. A liberdade de que gozamos no nosso governo também se estende a nossa vida ordinária. Lá, longe de exercermos vigilância invejosa sobre a vida do outro, não nos sentimos compelidos a ficar irritados com nosso vizinho por fazer o que gosta. […]

Deixamos nossa cidade aberta ao mundo e nunca, por atos estrangeiros, excluímos forasteiros de qualquer oportunidade de aprender ou observar, embora os olhos do inimigo possam, por vezes, beneficiar-se de nossa liberalidade; confiamos menos ao sistema e às políticas do que ao espírito nativo de nossos cidadãos; enquanto na educação, na qual nossos rivais [espartanos], do próprio berço, por dolorosa disciplina, perseguem a masculinidade, em Atenas vivemos exatamente como desejamos e, ainda assim, estamos tão prontos quanto eles para encarar qualquer perigo legítimo. […]

[E]m vez de considerar a discussão como um obstáculo no caminho da ação, pensamos nela como preliminar indispensável para qualquer ação sábia possível. Novamente, em nossas iniciativas, apresentamos o espetáculo singular da ousadia e da deliberação, cada um levado a seu ápice […] Em suma, digo que, como cidade, somos a escola de Hellas [a Grécia], e duvido que o mundo possa produzir um homem que, dependendo somente de si mesmo, está à altura de tantas emergências e agraciado por tão afortunada versatilidade quanto um ateniense.2

Entretanto, o livro de Tucídides contém outras perspectivas sobre Atenas, nem todas igualmente lisonjeiras. No início da obra, representantes de Corinto se dirigem aos espartanos em uma conferência de cidades do Peloponeso, e seus comentários mostram o que a “ousadia” e a “versatilidade” de Atenas poderiam parecer para observadores externos:

Os atenienses são viciados em inovação, e seus projetos são caracterizados por rapidez tanto na concepção quanto na execução; vocês [espartanos] têm grande capacidade de manter o que possuem, acompanhada por uma total falta de inventividade, e, quando forçados a agir, nunca vão longe o bastante. Novamente, eles são aventureiros para além de seu poder e ousados para além de seu julgamento […] Portanto, imiscuem-se em problemas e perigos todos os dias de suas vidas, com pouca oportunidade de aproveitar, estando sempre engajados em conseguir: sua única ideia de um feriado é o que a ocasião demanda e, para eles, a ocupação laboriosa é um infortúnio menor do que a paz de uma vida quieta. […] [P]ode-se verdadeiramente dizer que nasceram para não descansar e não deixar os outros descansarem.3

Deveras, Tucídides mostra o lado negro de Atenas, e particularmente da política externa dessa cidade-Estado, em grande parte de sua obra. Até mesmo Péricles é retratado admitindo para o povo o verdadeiro status do império ateniense: “pois o que vocês governam é, para falar mais claramente, uma tirania; tomá-la talvez tenha sido errado, mas abrir mão dela é inseguro”4 (Thomas Jefferson, em um episódio famoso, falou a mesma coisa sobre a escravidão americana5). E o sucessor de Péricles, Cleon (que Tucídides desprezava quase tanto quanto Aristófanes), deixa tudo ainda mais inequívoco: “seu império é despotismo e seus súditos, conspiradores descontentes, cuja obediência é garantida não por suas concessões suicidas, mas pela superioridade dada a vocês por sua força, e não pela lealdade deles”6.

Pode parecer paradoxal que um Estado como Atenas, com tanta liberdade doméstica (relativamente, ao menos), teria um comportamento tão tirânico no exterior; mas, de fato, não é tão surpreendente. Estados mais livres em seu interior tendem a ser mais prósperos, e maior prosperidade permite sustentar uma política militar mais agressiva. Como escrevi em outro lugar: “a civilização é, em grande medida, um processo de aumentar as opções das pessoas (avanços na tecnologia e na liberdade política podem ser vistos sob essa luz); mas, infelizmente, uma das coisas que se pode melhor fazer à medida que as opções aumentam é diminuir as opções do vizinho”7. A história da política externa dos Estados Unidos fica bastante clara quando é vista por esse ponto de vista.

Tucídides retrata Atenas como capaz de ser tanto vingativa quanto clemente. Por exemplo, quanto a cidade de Mitilene se revolta contra o comando ateniense em 427 a.C., os governantes (por ordem de Cleon) inicialmente decidem responder com um massacre e mandam um navio para a cidade subordinada com essa instrução. Porém, no próximo dia, sentindo “arrependimento […] e refletindo sobre a horrível crueldade de um decreto que condenava uma cidade inteira a uma sina merecida apenas pelos culpados”8, eles mudam de ideia e enviam um segundo navio para alcançar o primeiro e rescindir a ordem. Ele é bem-sucedido em fazê-lo (embora por pouco), pois a tripulação da primeira embarcação estava relutante em levar a ordem adiante e, portanto, viajava devagar, enquanto os tripulantes da segunda se encontravam ávidos por prevenir uma atrocidade e, dessa maneira, singraram as águas com rapidez (tipicamente, embora Tucídides diga que a suspensão da ordem foi feita por motivos sentimentais e morais, os discursos que ele relata no debate levantam apenas considerações pragmáticas).

No entanto, as vítimas de Atenas nem sempre tinham tamanha sorte. No chamado “Diálogo Meliano”, uma das duas passagens mais famosas do livro (o discurso funerário de Péricles é a outra, o que cria um par de irônico contraste), Tucídides lida com a punição ateniense à ilha de Melos, em 415, por manter uma política de neutralidade entre as rivais na Guerra do Peloponeso (esse, você pode se lembrar, é o incidente que inspirou As troianas, de Eurípides9).

Os representantes atenienses que demandam a subordinação de Melos renunciam de forma explícita a apelos à moralidade em favor de apelos ao poder:

Por nós mesmos, não incomodaremos vocês com pretensões ilusórias – seja de como temos um direito ao nosso império pois derrubamos os medos [povo de origem ariana que ocupava o atual Irã] ou seja por que atacamos agora por um erro que cometeram contra nós […] já que vocês sabem tão bem quanto nós que o certo, enquanto o mundo é mundo, só entra em questão entre iguais em poder, ao passo que os fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que devem.10

Quando os mélios respondem com uma prece de “que os deuses nos concedam tanta sorte quanto a vocês, já que somos justos lutando contra injustos”11, os atenienses replicam:

Quando falam do favor divino, podemos ter tanta esperança dele quanto vocês; já que nem nossas pretensões nem nossas condutas são, de qualquer forma, contrárias ao que os homens acreditam dos deuses, ou praticam entre eles. Dos deuses acreditamos, e dos homens sabemos, que, por uma lei necessária de sua natureza, governam sempre que podem. E não é como se fôssemos os primeiros a fazer essa lei, ou a agir de acordo com ela: encontramo-la já existente antes de nós, e deixá-la-emos para a posteridade; tudo que fazemos é utilizá-la, sabendo que vocês e todo mundo, tendo o mesmo poder que temos, hão de fazer o mesmo que nós.

Esse apelo à mitologia grega para provar que os deuses não têm objeção à injustiça é reminiscente do argumento em As mulheres na assembleia, de Aristófanes: “Façam como as deidades fariam. Não é óbvio que, quando rezamos perante suas efígies, elas estão desejosas?”12

A tréplica dos mélios apela para que eles “não irão, em um momento, privar da liberdade uma cidade que esteve habitada pelos últimos setecentos anos”, mas, em vez disso, escolherão “confiar no destino pelo qual os deuses a preservaram até agora”. Contudo, os deuses não intervêm; e a Assembleia ateniense não repete sua mudança de ideia de última hora de 12 anos antes. Em lugar disso, os atenienses “passaram à espada todos os homens crescidos que haviam tomado e venderam as mulheres e as crianças como escravos. Em sequência, enviaram 500 colonos e habitaram o local eles mesmos”.

A sina de Melos não só expõe a natureza criminosa do império ateniense, mas também levanta de novo a questão de que razão há para ser justo. Autores gregos como Hesíodo e Heródoto asseguram seus leitores de que os deuses hão de recompensar os justos; mas incidentes como o massacre mélio parecem sugerir o contrário. E se é verdade, como o autor do fragmento de Sísifo sugere13, que a única razão que temos para ser justos é o medo dos deuses – e, se for também verdade que os deuses ou não existem (a hipótese vista em Sísifo) ou coadunam com a injustiça (a hipótese do arauto ateniense no Diálogo Meliano), o que explicaria por que eventos como esse ocorrem –, então de fato o próximo passo lógico seria que não há razão para agir de forma justa, exceto por medo da capacidade de retaliação alheia, de modo que “o certo […] só entra em questão entre iguais em poder”.

Os representantes atenienses em Melos realmente ofereceram os argumentos amorais de “o poder decide o que é certo” que Tucídides a eles atribui? Não há como saber. Porém, ideias como essas estavam no ar em sua sociedade à época, como veremos.

Os argumentos dos atenienses em Melos representam as visões de Tucídides? Não em sua inteireza, é certo; o autor desaprova completamente o que ocorreu com os mélios, assim como desaprovara o tratamento que Cleon propusera para Mitilene. Contudo, dado seu cinismo geral e seu pragmatismo racionalista, é difícil ver quais argumentos contrários ele poderia oferecer.

Ocorre que um contemporâneo e concidadão de Tucídides oferecia justamente esses argumentos contrários. Mas Tucídides nunca o menciona. Seu nome era Sócrates.

1. Veja a parte 22 desta série.

2. Thucydides, History of the Peloponnesian War, trad. Richard Crawley (London: Longmans Green, 1874), II.6.

3. Thucydides, History I.3.

4. History II.7.

5. Em cartas para John Holmes (22 de abril de 1820) e Lydia Huntley Sigourney (18 de julho de 1824).

6. History III.9.

7. Roderick T. Long, “The Nature of Law, Part IV: The Basis of Natural Law” Formulations 4.2 (Winter 1996-97).

8. History III.9.

9. Veja a parte 14 desta série.

10. History V.17.

11. Ou, para citar Game of Thrones: “E quem é você, disse o lorde orgulhoso, diante de quem tenho que me curvar tanto?”

12. Veja a parte 20 desta série.

13. Ibid.

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