02 ago, 2016 - Roderick Long -

O legado da Grécia Antiga para a liberdade: Tucídides e a linguagem do poder12 minutos de leitura

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por Roderick Long

[Este artigo foi publicado em 10 de maio de 2016 para o libertarianism.org. É a vigésima segunda parte da série O legado da Grécia Antiga para a liberdade. Tradução e revisão de Gabriel Goes; Edição de Giácomo de Pellegrini]

História da Guerra do Peloponeso se debruça sobre eventos políticos sem romanceá-los.

A principal obra de Tucídides, primeira grande contribuição historiográfica grega após Histórias, de Heródoto, é muito mais impiedosa do que a antecessora.

Isso se dá, em parte, devido ao tema principal; Heródoto escrevia sobre o tópico relativamente feliz (para um grego) de um conflito que as cidades gregas unidas venceram contra um invasor estrangeiro, enquanto Tucídides tratava de um combate brutal entre as não mais unidas cidades gregas, que devastou a Grécia e não teve um lado realmente vencedor (tecnicamente Esparta se saiu melhor ao conquistar Atenas, dissolver seu império, destruir suas muralhas e instalar uma oligarquia amigável. Contudo, um ano depois que as tropas espartanas foram embora, os atenienses derrubaram a oligarquia; um pouco mais de uma década depois, reconstruíram as muralhas; e mais umas décadas adiante, haviam em grande parte refeito seu império. Quantos cadáveres de fato vale uma vitória tão efêmera quanto essa?).

No entanto, mais do que isso, o contraste se dá pelo temperamento dos autores; Tucídides é um realista político de visão ferrenha e cínica da natureza humana, sempre pronto para destruir ilusões românticas sobre a Guerra de Troia (I.1) ou as origens da democracia ateniense (VI.19). Não são para ele as digressões sobre culturas fascinantes, as coleções de contos impressionantes ou as confissões de confiança na providência divina de Heródoto. Se a obra de Heródoto é Star Wars (ou Guerra nas Estrelas), com suas excursões a bares exóticos e um corajoso bando de guerreiros da liberdade combatendo o império maligno, então a de Tucídides é Game of Thrones, um choque cruel e implacável de ambições em que os fracos são atropelados. Não é acidente que Tucídides fosse o historiador favorito de Thomas Hobbes, que o descreve como o autor “no qual […] a faculdade da escrita da história atinge seu ápice”, já que “não há qualquer outro (meramente humano) que executa com mais completude e naturalidade” a “principal e adequada tarefa da história”, qual seja, “instruir e permitir aos homens, pelo conhecimento de ações pretéritas, que suportem com prudência o presente e com providência o futuro”1.

Tucídides (~460-400 a.C.), cidadão ateniense, serviu como general na guerra, até que foi acusado de ser responsável por uma grande derrota (ele o negou) e, em consequência, mandado para o exílio, muito do qual passou na companhia dos inimigos de Atenas, o que o deu insights em relação à perspectiva dos dois lados na guerra. Durante esse período, ele aparentemente observou eventos em primeira mão, entrevistou pessoas sobre acontecimentos longínquos e manteve notas cuidadosas; depois da guerra, retirou-se para sua propriedade na Trácia e começou a montar todo o seu material na forma de uma história magistral, a qual nunca terminou (os dois primeiros livros de Helênicas, de Xenofonte, parecem ter a pretensão de completar, postumamente, a obra de Tucídides; de qualquer forma, eles 1-começam onde Tucídides para, 2-levam a narrativa até o final da guerra e 3-são muito mais parecidos em tom com Tucídides do que o resto das Helênicas2).

Em sua impaciência para com crônicas fantasiosas e ilusões sentimentais, e na insistência de identificar causas subjacentes em vez de parar na superfície, Tucídides parece, com frequência, contundentemente moderno. De fato, em certo ponto (I.1), ele descreve, como um deslocado viajante no tempo e com bastante precisão, como as ruínas de Atenas e Esparta chegarão às gerações posteriores e como diferirão em sua aparência.

Contudo, embora Tucídides seja um escritor magnífico e um historiador brilhante, compartilha de algumas das deficiências de seu antecessor, pelos padrões da pesquisa histórica moderna. Com efeito, ele é ainda mais vago em relação a suas fontes do que Heródoto. Além disso, a impressão de completude que a obra confere é enganadora; ele cobre tanto que é fácil passar despercebido pela possibilidade de que muito esteja sendo omitido. Por exemplo, muitos gregos, à época, acreditavam que o protecionista Decreto Megário era a principal causa da guerra – deveras, Aristófanes devotou uma peça inteira, Os Acarnianos, para essa análise econômica do conflito3 –, mas Tucídides mal o menciona, e não fosse por fontes rivais, como o próprio Aristófanes, seria impossível adivinhar sua importância.

Uma das características mais problemáticas da narrativa de Tucídides são os longos discursos que ele atribui a várias figuras históricas. Seus leitores estariam acostumados, sobretudo do teatro trágico e cômico, com questões políticas dramatizadas por meio de pares de discursos opostos, e o historiador fornece o mesmo artifício. Mas quão precisos historicamente são esses discursos?

Tucídides nota que alguns ele mesmo ouviu, enquanto outros foram relatados por terceiros (embora ele não diga qual pertence a qual categoria) e explica que, em ambos os casos, foi “difícil carregá-los palavra por palavra na memória”; daí sua decisão de “fazer com que aqueles que discursavam dissessem o que fosse, em minha opinião, deles demandado pelas várias ocasiões”, enquanto, ao mesmo tempo, “ficando o mais próximo possível do senso geral do que realmente disseram”4. Em outras palavras, quando Tucídides relata um discurso de Péricles, o que realmente se tem é uma mistura de Péricles e Tucídides, mas as proporções relativas não podem ser adivinhadas.

Por consequência, assim como não é fácil saber quanto os discursos representam posições genuinamente encampadas pelas pessoas a que são atribuídas, descobrir as próprias visões de Tucídides é tarefa também difícil. A maioria das falas compartilha de seu realismo insensível, o que pode levar a uma visão dos falantes como meros porta-vozes do historiador – exceto que, com frequência, eles discutem uns com os outros. Tucídides põe defesas entusiasmadas da democracia na boca de figuras como Péricles (II.7) e Atenágoras (VI.19) – vimos o principal discurso de Péricles anteriormente nesta série5 –, mas sua própria preferência política parece ter sido pela “constituição mista” que combinava aspectos da democracia e da oligarquia6; em qualquer caso, ele escreve sobre a efêmera “Constituição dos 5000”, que foi uma tentativa de implantar tal modelo constitucional:

Foi durante o primeiro período dessa constituição que os atenienses parecem ter gozado do melhor governo que já tiveram, ao menos em meu tempo. Pois a fusão do alto e do baixo foi efetuada com julgamento, e foi isso que primeiro permitiu ao Estado levantar sua cabeça depois de inúmeros desastres.7

Heródoto havia atribuído a proeminência ascendente de Atenas a suas instituições democráticas8; mas Tucídides prefere uma explicação geográfica:

Os solos mais ricos são sempre os mais sujeitos à mudança de mestres; assim como no distrito ora chamado Tessália, na Beócia, na maior parte do Peloponeso – exceto na Arcádia – e nas partes mais férteis do resto de Hellas [Grécia]. A bondade da terra favoreceu o engrandecimento de indivíduos em particular, e, portanto, criou facções, que provaram ser uma fonte fértil de ruína. Também atraíram invasões. Por conseguinte, a Ática [região onde se encontra Atenas], da pobreza de seu solo, aproveitou, de longa data, liberdade de facções, e nunca experimentou uma troca em seus habitantes.9

(Tucídides, aqui, antecipa o relato de Platão em A República sobre como a riqueza favorece o militarismo.10)

O historiador às vezes permite que o realismo centrado de seus oradores seja colocado a serviço do que podem parecer objetivos compassivos. Por exemplo, ele faz com que o político ateniense Diódoto argumente contra punições severas, mas com base puramente pragmática, e não humanitária – qual seja, que punições cumprem mal o papel de dissuasão, enquanto a clemência pode motivar as pessoas a melhorar:

[C]omunidades exerceram a pena de morte por muitas transgressões menos graves do que esta: ainda assim, a esperança leva os homens a se aventurar, e ninguém se coloca em perigo sem a convicção interna de que terá sucesso em seus desígnios. […] Todos, Estados e indivíduos, são igualmente suscetíveis ao erro, e não há lei que o possa prevenir; ou então por que os homens teriam exaurido a lista de punições em busca de algo que os protegesse de malfeitores? É provável que, em tempos pretéritos, as penalidades para as maiores transgressões fossem menos severas, e que, quando essas foram ignoradas, foi-se chegando gradualmente, na maioria dos casos, à pena de morte, que é também desprezada. Portanto, ou alguma forma ainda mais pavorosa de terror do que essa deve ser descoberta, ou deve-se conceder que essa restrição é inútil; e que, enquanto a pobreza dê aos homens a coragem da necessidade, ou a bonança os encha da ambição que pertence à insolência e ao orgulho, e as outras condições da vida permaneçam cada uma sob o serviço de alguma paixão mestra e fatal, até então o impulso nunca faltará para impelir os homens em direção ao perigo. […] Em suma, é impossível prevenir, e só muita ingenuidade pode almejá-lo, que a natureza humana realize o que colocou na mente, seja por força da lei ou seja por outra força impeditiva qualquer. […] Não podemos, portanto, nos atrelar a uma política falsa por meio de uma crença na eficácia da pena capital, ou excluir dos rebeldes a esperança de arrependimento e breve reparação de seu erro.11

Uma das passagens mais famosas de Tucídides é sua descrição dos efeitos da guerra civil em Córcira e em outros lugares, particularmente no que tange a seu relato de mudanças linguísticas a serviço de fins políticos:

A revolução, dessa forma, seguiu seu caminho de cidade em cidade, e os lugares aos quais chegou por último, tendo ouvido o que ocorrera antes, levaram a um excesso ainda maior o refinamento de suas invenções, como manifesto na destreza de seus empreendimentos e na atrocidade de suas represálias. As palavras tiveram de mudar do significado original e tomar o que agora lhes fora dado. Audácia inconsequente passou a ser considerada a coragem de um aliado fiel; hesitação prudente, covardia capciosa; moderação foi tratada como um disfarce para falta de masculinidade; a habilidade de ver os diversos lados de uma questão, como inaptidão para agir em qualquer um deles. Violência frenética tornou-se um atributo da masculinidade; conspiração cuidadosa, uma forma justificável de autodefesa. O defensor de medidas extremas era sempre confiável; seu oponente, um homem de quem suspeitar. Ter sucesso em uma conspiração era ter uma mente perspicaz, desenvolver uma conspiração significava mais perspicácia ainda; mas tentar prover para que não se tivesse de realizar nenhuma delas tratava-se de ação contra o partido e medo dos adversários. Por fim, prevenir-se da pretensão de um criminoso ou sugerir a ideia de um crime onde fosse necessário eram igualmente recomendados, até que mesmo o sangue virou um elo mais frágil do que o partido.12

Hoje, a ideia de mudanças linguísticas politicamente motivadas é associada com escritores de tramas distópicas como Zamyatin13, Rand14 e Orwell15; porém, a questão também preocupava Hobbes, que, por exemplo, após distinguir entre três formas básicas de governo (monarquia, aristocracia e democracia), de acordo com quem e em que número governa, diz o seguinte:

Há outros nomes para governos nas histórias e livros de política; como tirania e oligarquia: mas não são nomes de outras formas de governo, e sim confusões das mesmas formas. Pois aqueles descontentes com a monarquia a chamam de tirania; os desgostosos com a aristocracia chamam-na oligarquia: então, da mesma forma, aqueles que se encontram aflitos em uma democracia dão a ela o nome de anarquia, que significa falta de governo; contudo, não creio que qualquer um acredite que falta de governo é uma nova forma de governo: nem, pela mesma razão, devam acreditar que o governo é de um tipo quando dele gostam e de outro quando não gostam ou quando são oprimidos pelos governantes.16

Essa atenção para com o uso político da linguagem é uma das muitas lições que Hobbes aprendeu com Tucídides.

1. Thomas Hobbes, na introdução a sua tradução de Tucídides.

2. Retornaremos a Xenofonte posteriormente nesta série.

3. Veja a parte 17 desta série.

4. Thucydides, History of the Peloponnesian War, trad. Richard Crawley (London: Longmans Green, 1874), I.1

5. Veja a parte 7 desta série.

6. Veja a parte 11 desta série.

7. Thucydides, History VIII.26.

8. Herodotus, Histories V.78.

9. Thucydides, History I.1.

10. Plato, Republic II.

11. Thucydides, History III.9.

12. History III.10.

13. Yevgeny Zamyatin, We (1921). (https://mises.org/library/we)

14. Ayn Rand, Anthem (1938).

15. George Orwell, Nineteen-Eighty-Four (1948); veja também “Politics and the English Langauge” (1946).

16. Thomas Hobbes, Leviathan II. 19.

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