11 ago, 2016 - Roderick Long -

O legado da Grécia Antiga para a liberdade: O desafio dos sofistas9 minutos de leitura

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por Roderick Long

[Este artigo foi publicado em 24 de maio de 2016 para o libertarianism.org. É a vigésima quarta parte da série O legado da Grécia Antiga para a liberdade. Tradução e revisão de Gabriel Goes; Edição de Giácomo de Pellegrini]

A maior parte do que se sabe sobre os sofistas vem de seus adversários. Quem, de fato, eram eles?

O principal conflito filosófico do período clássico grego (séculos V e IV a.C.) foi travado entre, de um lado, Sócrates e quem por ele foi influenciado (incluindo Platão, Xenofonte e Aristóteles) e, de outro, aqueles que conhecemos como “sofistas”.

Quem eram os sofistas?

Hoje, os termos “sofista” e “sofisma” têm conotação negativa e sugerem a prática de argumentação traiçoeira e desonesta. Isso se deve em grande parte à influência de seus oponentes socráticos. Pois os socráticos venceram – no sentido de que a sua foi a influência filosófica dominante no ocidente pelos dois mil anos seguintes (até que o lado sofista do debate foi ressuscitado por Hobbes) – e os vencedores de fato tendem a escrever a história. Xenofonte, falando pelo lado socrático, resume com clareza o julgamento padrão dado aos sofistas:

Agora, o que me surpreende nos “sofistas”, como são chamados, é que, embora professem – a maioria deles – guiar os jovens à virtude, na verdade guiam ao caminho oposto. […] Seus escritos também não possuem nada projetado para tornar os homens bons, mas eles têm volumes sobre assuntos vãos e frívolos […] [A] sabedoria [que o sofista] preconiza consiste em sutilezas da palavra, não em ideias. […] [P]alavras para ele se prestam à enganação e são escritas para o ganho pessoal […] Meu conselho, então, é que não se confie nas sonoras frases feitas dos sofistas e não se rejeite as racionais conclusões do filósofo; pois o sofista é um caçador de ricos e jovens, já o filósofo é amigo comum de todos eles; nem honra nem despreza as fortunas dos homens.1

De maneira estrita, contudo, “sofista” refere-se a uma profissão, não a um conteúdo doutrinário ou a um estilo argumentativo em particular, e a palavra não foi contrastada com “filósofo” em sua origem2. Os sofistas eram, em primeiro lugar, professores da arte da fala persuasiva – uma habilidade inestimável em uma sociedade sem advogados ou representantes eleitos, na qual o sucesso dependia em fazer o próprio caso diante das cortes de jurados ou da assembleia democrática. Porém, seus interesses variavam em um leque amplo que passava por ética, política, sociologia, matemática, física, metafísica, filosofia da mente, filosofia da linguagem e filosofia da ação. Tal era o impacto desses pensadores e mestres da retórica seculares, céticos, pragmáticos, brilhantemente talentosos, de cujo período muitos pesquisadores modernos tratam como o “Iluminismo Sofista”. E Sócrates, por toda sua oposição a essa classe, pode ser visto, de muitas maneiras, como um produto do mesmo meio intelectual.

Enquanto alguns deles eram atenienses nativos (Antifonte foi o mais notável), a maioria dos sofistas mais conhecidos (por exemplo, Górgias, Protágoras, Pródico, Hípias e Trasímaco) era de estrangeiros, vinda de colônias gregas tão distantes quanto a Sicília do Oeste e a Calcedônia do Leste. Viajavam por todo o mundo grego, mas eram atraídos em especial a Atenas, por ser o centro intelectual de toda essa imensa região. Em essência, foram os pioneiros na provisão de educação superior entre os gregos; seus honorários poderiam ser altos, mas patronos abastados, como pode-se ver em Protágoras, de Platão, algumas vezes concediam festas nas quais era possível ouvir os sofistas de graça.

Sofistas como charlatães?

Muito do antigo preconceito com os sofistas lembra o preconceito moderno com os advogados. Um contexto forense tende a encorajar argumentos que focam na vitória, e não na verdade; Protágoras e Górgias, por exemplo, propagandeavam que poderiam argumentar de maneira convincente contra e a favor em qualquer assunto (incluindo aqueles sobre os quais não sabiam nada) e também ensinar essa habilidade a outros. Nos discursos que sobreviveram dos tribunais atenienses, vemos os mesmos oradores defendendo um ponto em um caso e, em outro, colocando-se contra ele. Por exemplo, era costumeiro que o testemunho de escravos fosse tomado sob tortura; encontra-se a mesma pessoa arguindo que tal depoimento é especialmente confiável e, em outras instâncias, que não é confiável, a depender de qual argumento melhor ajuda o caso em questão (o orador Lísias foi até mesmo capaz de desenvolver ambas as alegações no mesmo discurso!3). A ideia de que os sofistas educavam na arte da trapaça desonesta só foi reforçada por Górgias, que se vangloriava de que “o efeito da fala sobre a condição da alma é comparável ao poder das drogas sobre a natureza dos corpos” e pode “drogar e enfeitiçar a alma com uma espécie de persuasão maligna”4. Essa é a origem da acusação comum de que os sofistas “fazem, do argumento mais fraco, o mais forte”, isso é, permitem que a argumentação por uma causa falsa se sobreponha àquela por uma causa verdadeira.

É certo, no entanto, que a capacidade de argumentar em favor de uma conclusão falsa não é necessariamente útil só para uma causa injusta. Se se está sendo julgado por infringir uma lei injusta (e se de fato o fez), e não há qualquer esperança de convencer o tribunal de que a lei é injusta, pode-se alcançar a justiça ao convencer a corte – falsamente – de que a lei não foi infringida (Sócrates poderia pensar o contrário – mas até ele admite5 que mentir pode ser justificável por uma boa causa). Os argumentos “traiçoeiros” de advogados são, muitas vezes, a primeira linha de defesa contra a opressão injusta. Melhor ligar pro Górgias!

Para deixar claro, é verdade que argumentos legais traiçoeiros podem ser usados para a injustiça também, e com frequência o são; além disso, os sofistas tinham a reputação de ser defensores da injustiça. Até que ponto essa infâmia é justificada é difícil dizer; os poucos trabalhos que deles perduraram são fragmentários, e não se pode sempre dizer se uma posição dúbia está sendo defendida como a opinião sincera do autor, ou somente como demonstração da arte do argumento6.

Muita da informação atual sobre os sofistas vem de fontes hostis – tais como os diálogos de Platão, nos quais proeminentes sofistas amiúde aparecem como adversários de Sócrates (imagine qual não seria nossa visão de Sócrates se a única fonte atual sobre suas visões fosse As Nuvens, de Aristófanes!). O que se encontra nos escritos dos sofistas é, muitas vezes, sensato e valioso – incluindo uma das enunciações mais antigas do princípio de que não se pode pedir que se prove uma negativa7.

Sofistas vs. socráticos: a origem da injustiça?

Todavia, há evidências consideráveis, como veremos, de que alguns sofistas de fato argumentavam em prol de um tipo de autoafirmação amoral que poderia justificar atropelar direitos e interesses alheios. Tal posição pode ter sido inspirada por uma suposição bastante difundida de que os interesses humanos estão, no fundo, em conflito uns com os outros. O tratado sofista anônimo intitulado Dissoi logoi (“argumentos duplicados”), por exemplo, nota que “doenças são ruins para os doentes, mas boas para os médicos”; que “se um jarro é quebrado, isso é bom para os oleiros, mas ruim para o resto das pessoas”; que “em uma corrida no estádio […] a vitória é boa para o vencedor, mas ruim para os perdedores”; e que “a vitória dos espartanos sobre os atenienses […] foi boa para aqueles, mas ruim para estes”8. Afinal, se há que se escolher entre os interesses próprios e os alheios, concluíram alguns sofistas, não faz mais sentido escolher os próprios? Essa é a perspectiva que se vê refletida nos argumentos de “o poder decide o que é certo” dos embaixadores atenienses no retrato de Tucídides do massacre em Melos9. E até mesmo aqueles sofistas que não chegaram a essa conclusão muitas vezes defendiam posições que poderiam tornar tal inferência irresistível.

Sócrates e seus seguidores, como também veremos, rejeitam o pressuposto central de um modelo de interesses humanos em conflito. Em vez disso, defendem uma tese de harmonia de interesses que, embora antecipe em parte a tese de liberais clássicos modernos, é importante e até mesmo radicalmente diferente.

1. Xenophon, On Hunting With Dogs 13.1-8; in H. G. Dakyns, trans., The Works of Xenophon (Macmillan, 1897).

2. Para exemplos de usos iniciais de “sofista” de forma não pejorativa e mais ou menos equivalente a “filósofo”, veja Rosamond Kent Sprague, ed., The Older Sophists (Indianapolis: Hackett, 2001), p. 1.

3. Quando seu oponente se recusa a permitir que um escravo seja interrogado sob tortura, Lísias o acusa de “evadir-se desse teste seguro”. Então, apenas algumas sentenças mais tarde, ele rejeita a oferta do adversário para que os outros escravos sejam torturados, e diz que “se tivéssemos pegado esses escravos […] e os torturado, eles teriam, em uma tentativa ilógica de favorecer seu mestre, fornido-me com uma mentira, em contradição com a verdade”. O “teste seguro” parece ter perdido a segurança bem rápido. (Lysias, “Wounding With Intent to Kill: Quarrel Over a Slave-girl,” p. 110; in Kathleen Freeman, ed., The Murder of Herodes; and Other Trials From the Athenian Law Courts (Indianapolis: Hackett, 1991), pp. 107-113.)

4. Gorgias, Encomium of Helen, p. 53; in Sprague, op. cit., pp. 50-54.

5. Plato, Republic I, 351b-d.

6. Górgias famosamente argumentou que nada existe; mas seus argumentos podem, com facilidade, se não com obrigatoriedade, ser lidos como uma reductio ad absurdum de filósofos eleáticos como Parmênides, Zenão e Melisso, no lugar de uma asserção de niilismo metafísico que ele deveras defendesse.

7. “Hás de dizer, talvez, que é justo que não forneças testemunhas do que não ocorreu. Mas não é justo. Pois é um tanto quanto impossível que testemunhas deponham acerca do que não ocorreu, mas sobre o que aconteceu, não só não é impossível, como é até mesmo fácil (…)” (Gorgias, Defense on Behalf of Palamedes, p. 59; in Sprague, op. cit., pp. 54-63.)

8. Dissoi Logoi 1, pp. 279-280; in Sprague, op. cit., pp. 279-293.

9. Veja a parte 23 desta série.

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