12 jul, 2016 - Roderick Long -

O legado da Grécia Antiga para a liberdade: Aristófanes contra a guerra9 minutos de leitura

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Por Roderick Long

[Este artigo foi publicado em 10 de março de 2016 para o libertarianism.org. É a décima sétima parte da série O legado da Grécia Antiga para a liberdade. Tradução e revisão de Gabriel Goes; Edição de Giácomo de Pellegrini]

Oposição ao conflito armado era um tema recorrente nas peças desse dramaturgo, especialmente Os acarnianos e Lisístrata.

Embora os gregos antigos sejam com frequência criticados por libertários e liberais clássicos por exaltar as artes da guerra em detrimento daquelas do comércio pacífico e da indústria produtiva, já vimos diversos importantes pensadores helênicos que podem muito bem ser declarados “não culpados”, incluindo Hesíodo, Eurípides e, ao menos em alguns aspectos, Homero. Outro caso significativo é o de Aristófanes, cujas comédias apresentam uma crítica consistente ao militarismo e uma súplica pela paz.

De fato, uma de suas obras mais antigas, a agora perdida Os Babilônios, aparentemente continha uma crítica à política externa ateniense – ela condenava o tratamento dado aos aliados de Atenas1 – e, dessa forma, atraiu a ira do proeminente estadista Cléon. Assim começava a longa disputa entre ele e Aristófanes.

O dramaturgo arriscou contar com o desgosto da audiência mais uma vez em Os Acarnianos, quando fez com que o protagonista Diceópolis (literalmente “cidade justa”) argumentasse que o papel de Atenas na Guerra do Peloponeso não era de todo inocente. “Culparemos os espartanos por tudo?”, pergunta o personagem, e responde que esses inimigos, longe de serem “a única razão para nossos infortúnios”, são “de muitas formas […] a parte prejudicada” e que a maneira pela qual responderam às provocações atenienses é precisamente a maneira pela qual os atenienses teriam respondido a provocações similares vindas do outro lado.2

Em A Paz, os deuses roubaram a paz e a esconderam para punir os gregos por sua disposição para a guerra, e o protagonista Trigeu toma para si a tarefa de atacar os céus (voando no dorso de um besouro rola-bosta gigante), roubar a Paz de volta e retorná-la à Terra. Com a missão cumprida, Trigeu então resolve reciclar um “peitoral bem construído”, transformando-o em um “bom penico”3 – a versão de Aristófanes [da citação da Bíblia, em Isaías 2:4] da conversão de espadas em enxadões.

Na mesma peça, o autor expressa simpatia para com os conscritos:

E há lá um pobre diabo que não trouxe suas rações,

Sem ideia de que seria designado a um posto até que aconteceu

De olhar de relance ao quadro de notícias do quartel colado

Na estátua de Pandião, e lá viu seu nome,

E com pressa foi embora, aturdido e cheio de tristeza.4

Enquanto muitas de suas obras se focam nos males da guerra, Aristófanes também insere comentários antiguerra em peças sobre outros temas. Por exemplo, no início de As Nuvens, o protagonista reclama que, graças à guerra, ele não mais pode punir seus escravos, por medo de que desertem para o inimigo5 (bem, eu não prometi que todos os seus argumentos antiguerra seriam libertários); e, posteriormente, quando a ele é mostrada a Grécia em um mapa, implora ao cartógrafo que coloque uma distância maior entre Atenas e Esparta.6

A abordagem mais famosa de Aristófanes sobre a guerra em geral, e sobre a Guerra do Peloponeso em particular, acontece em Lisístrata, em que as mulheres, tanto no lado ateniense, quanto no espartano, famosamente organizam uma greve de sexo de maneira a pressionar os maridos para que encerrem o conflito (esse aspecto da peça formou a recente base para o filme mais novo de Spike Lee, Chi-Raq, que lida com a violência entre gangues em Chicago). De forma menos famosa, as mulheres de Atenas também tomam a Acrópole “[p]ara impedi-los [os homens] de serem capazes de remover / dinheiro do erário para gastar na guerra”7.

Uma exploração mais profunda do lado econômico da guerra ocorre na já mencionada Os Acarnianos – juntamente com Lisístrata, talvez a mais interessante peça antiguerra de Aristófanes. Os caminhos da guerra e da paz são contrastados de maneira vívida:

– Garoto, garoto, retire minha lança da parede e a traga aqui.

– Garoto, garoto, retire o shish kebab da grelha e o traga aqui.

– Traga-me o broquel redondo com ornamento de Górgona.

– E a mim, uma pizza com base de queijo. […]

– Dê-me, garoto, meu corselete de cota de malha.

– E a mim, garoto, meu jarro de vinho. […]

– Quão diferentes são as trilhas que caminham!

Ele será enfeitado e beberá até ficar cheio.

Tu estarás de guarda e congelarás.

Ele estará na cama

Com uma amável garota cheia de surpresas […]8

A Guerra do Peloponeso é descrita como calcada em motivos econômicos, em especial o Decreto Megárico, uma medida protecionista de cerca de 432 a.C., aprovada em Atenas pelo que Aristófanes descreve como uma “gangue de rufiões espúrios e obnóxios” que “continuaram a denunciar os megários [à época, aliados de Esparta] por importar invólucros sem pagar taxas”.

Se vissem um pepino ou um coelho,

um leitão, dente de alho, punhado de sal,

“megário!”, gritariam, e confiscariam o lote,

para depois vendê-lo a um preço mais baixo […]9

Aristófanes, defendendo o livre comércio, parodia os extremos absurdos a que chegavam os protecionistas e fanáticos pela segurança estatal em seus argumentos, que fomentavam histeria e pânico xenofóbicos:

– [T]u importas pavios de lâmpadas de países contra os quais estamos em guerra.

– O quê!? Denuncia-o por pavios?

– Um pavio pode queimar as docas. […]

Digamos que um camarada da Beócia

pregasse um pavio no dorso de um besouro,

acendesse-o e mandasse o bicho por uma sarjeta

até que uma lufada de vento do norte viesse para balançá-lo

na direção dos navios e os pusesse em chamas.10

Um dos aspectos mais intrigantes de Os Acarnianos é o fato de que o protagonista Diceópolis decide criar sua própria política externa, separada daquela de Atenas, com também políticas militares e comerciais únicas:

Eu, por minha vez, anuncio livre comércio entre eu e

todos os espartanos, megários e beócios […]

Essas são as fronteiras dos meus negócios.

Dentro delas, as pessoas do Peloponeso,

de Mégara e Beócio são livres para trocar

e vender para mim: todos exceto Lamaco [um general ateniense afeito à guerra].11

Logo Diceópolis começa a importar bens que estão embargados para outros cidadãos, o que provoca a inveja de seus vizinhos: “Que estoque maravilhoso ele tem / De coisas à venda por causa da trégua”12.

Esse pode ser muito bem a mais antiga formulação do ideal político conhecido como panarquia, no qual cada membro da comunidade pode escolher de forma livre a qual sistema político deseja se submeter, sem ter de se realocar geograficamente.13 De maneira diferente de propositores posteriores da panarquia, Aristófanes, pode-se presumir, não advogava por tal sistema literalmente; é só seu jeito de dramatizar as vantagens do comércio em relação à guerra. Contudo, ele merece os créditos, não obstante, por formular uma ideia tão intrigante e fecunda.

Como vimos em um texto anterior14, Platão mais tarde descreveria a democracia ateniense, com desaprovação, em termos ainda mais panarquistas, como “um supermercado de constituições” no qual cada cidadão pode “escolher o que lhe aprouver”, de forma que “não há obrigatoriedade […] de estar em guerra quando outros estão em guerra, ou de ser pacífico quando outros também o são”15.

Conquanto seja difícil tomar essa como uma descrição literal da Atenas que se conhece pelos relatos históricos, pode-se ver o “supermercado de constituições” de Platão como uma exposição exagerada do fato de que essa cidade grega permitia aos seus cidadãos um grau razoavelmente elevado de escolhas de modos de vida. Enquanto isso, o relato de pessoas construindo suas políticas pessoais de guerra e paz sem levar em consideração o que o resto da cidade decide pode ser uma referência sarcástica a proeminentes estadistas atenienses como Temístocles e Alcibíades, que se mancomunavam com o inimigo enquanto em exílio, só para serem recebidos de braços abertos quando voltavam à cidade. No entanto, a metáfora especificamente panarquista usada por Platão para transmitir sua crítica sem dúvidas deriva de Os acarnianos, de Aristófanes, cujo protagonista, de forma bastante explícita, não sente “obrigatoriedade […] de estar em guerra quando outros estão em guerra”.

 

1. Teorias variam sobre a acusação que Aristófanes fez em Os babilônios; para detalhes, veja David Welsh, “The Chorus of Aristophanes’ Babylonians,” Greek, Roman, and Byzantine Studies 24.2 (1983), pp. 137-150.

2. Aristophanes, Acharnians 309-314, 497-556; in Aristophanes, The Complete Plays: The New Translations, tradução de Paul Roche (New York: New American Library, 2005), pp. 20, 27-30.

3. Aristophanes, Peace 1224-1235; tradução de Roche, op. cit., p. 327.

4. Peace 1180-1184; tradução de Roche, op. cit., p. 325.

5. Aristophanes, Clouds 4-7; tradução de Roche, p. 134.

6. Clouds 206-217; tradução de Roche, p. 143.

7. Aristophanes, Lysistrata 488; tradução de Roche, op. cit., p. 441.

8. Acharnians 1118-1149; tradução de Roche, op. cit., pp. 57-58.

9. Acharnians 517-522; tradução de Roche, op. cit., p. 28.

10. Acharnians 916-924; tradução de Roche, op. cit., pp. 48-49.

11. Acharnians 623-625, 719-722; tradução de Roche, op. cit., pp. 33, 39.

12. Acharnians 971-972; tradução de Roche, op. cit., p. 51.

13. Veja a recente coleção: Aviezer Tucker e Gian Piero de Bellis, eds., Panarchy: Political Theories of Non-Territorial States (Routledge, 2016).

Uma antecipação parcial dessa ideia ocorre em um incidente de autenticidade histórica dúbia em Heródoto, quando o nobre persa Otanes, em troca de sua renúncia de qualquer reivindicação do trono, obtém para si e para sua família a concessão de não estar sujeito à autoridade do rei persa, apesar de continuar a residir dentro de seu território: Herodotus, Histories III.83; tradução de George C. Macaulay, The History of Herodotus (London: Macmillan, 1890).

É claro, ter diferentes sistemas legislativos para diversos grupos de pessoas dentro de uma mesma área geográfica não é incomum em termos históricos.

14. Veja a parte 7 desta série

15. Plato, Republic 557d-e; tradução de C. D. C. Reeve (Indianapolis: Hackett, 2004).

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