15 jun, 2016 - Roderick Long -

O legado da Grécia Antiga para a liberdade: A tragédia da política6 minutos de leitura

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Por Roderick Long

[Este artigo foi publicado em 19 de novembro de 2015 para o libertarianism.org. É a décima segunda parte da série O legado da Grécia Antiga para a liberdade. Tradução e revisão de Gabriel Goes; Edição de Giácomo de Pellegrini]

Long examina os temas políticos da dramaturgia grega na Antiguidade.

Embora a tragédia grega geralmente lide com histórias de mitos e lendas, isso não preveniu que autores explorassem as ideias políticas relevantes para a realidade de sua própria era. Os três dramaturgos mais proeminentes – e os únicos cujas peças ainda sobrevivem intactas – foram os atenienses Ésquilo (~525-455 a.C.), Sófocles (~496-405 a.C.) e Eurípides (~480-406 a.C.), e suas peças representam uma rica mina de pensamento político.

Em sua obra As Suplicantes, Eurípides faz do lendário herói de Atenas Teseu porta-voz da ideologia democrática. Quando um arauto tebano chega e pede para se dirigir ao “mestre” da cidade, Teseu responde:

Começaste errado, ao procurar um mestre aqui.

Esta cidade é livre, governada por ninguém.

As pessoas reinam, em sucessão anual.

Elas não abrem mão do poder para os ricos;

O pobre tem dele igual medida.1

Quando o arauto se vangloria, em resposta, de que sua própria cidade “é controlada / Por um único homem, não uma turba”, Teseu responde com uma defesa da democracia e uma crítica da ditadura:

Nada

É pior para uma cidade do que um governante absoluto. […]

Com leis escritas,

Pessoas de parcos recursos e os ricos

Podem recorrer da mesma forma à justiça. Agora

Um homem de meios, se caluniado,

Não terá melhor condição do que o fraco;

E se o homem pequeno estiver certo, ganhará

Contra o grande. Esse é o chamado da liberdade:

“Que homem possui bom conselho para dar à cidade,

E quer torná-lo conhecido?” Quem o responde

Obtém glória; quem reluta se cala.

Para a cidade, o que pode ser mais belo do que isso? […]

Mas quando há um rei, ele considera isso odioso,

E pensa que se quaisquer dos nobres

Forem sábios, deve temer por seu poder despótico

E os mata. Como pode uma cidade tornar-se forte

Se alguém retira, decepa novos empreendimentos

Como espigas de milho no campo? Que uso há

Em construir uma fortuna, se o trabalho promove

O bem-estar do déspota, e não o de sua família?2

Claro, tudo isso é bizarramente anacrônico – tão anacrônico quanto, digamos, colocar o Rei Lear para defender as glórias do Serviço Nacional de Saúde britânico (National Health Service). Teseu é, na tradição, o rei de Atenas, em uma era em muito pretérita à democracia na cidade; o mestre que o arauto buscava, então, provavelmente teria sido o próprio Teseu.3 Contudo, Eurípides está mais interessado em contrastar os sistemas políticos da monarquia e da democracia do que em ser fiel aos detalhes da lenda de Teseu.

Uma das mais conhecidas ideias políticas na tragédia grega encontra-se na peça Antígona, de Sófocles, na qual a protagonista que dá nome à obra, acusada de infringir a lei ao realizar ritos funerários para seu irmão, um rebelde assassinado, a despeito da proibição do governante Creonte em fazê-lo, apela a uma lei moral mais elevada que supere a legislação estatal:

– Estavas ciente da ordem para não fazer isto?

– Sim, claro que sim. A palavra estava dada.

– E mesmo assim ousou evadir-se dessas leis?

– Para mim, não foi Zeus quem deu essa ordem.

Nem aquela Justiça que vive dentre os deuses lá embaixo

marcou tais leis para que vigorassem entre a humanidade.

Nem eu considerei que suas ordens fossem tão fortes

que você, um mortal, pudesse suplantar

as leis infalíveis, não escritas, dos deuses.

Não são de agora, nem de ontem; elas sempre vivem,

e ninguém sabe sua origem no tempo.4

A ideia de uma lei mais elevada será explorada em mais detalhes por pensadores como Sócrates e os estoicos.

Sófocles também trata do conflito entre justiça e mera autoridade humana em uma de suas outras peças, Filoctetes. Na lenda grega, Filoctetes era um membro da expedição grega a Troia que foi injustamente abandonado numa ilha depois de sofrer um ferimento que inflamou e cujo odor, combinado com seus gritos de dor, seus companheiros consideraram incômodo demais para tolerar. Quando, mais tarde, os gregos percebem que necessitam do arco mágico de Filoctetes para derrotar os troianos, Odisseu veleja de volta à ilha para recuperá-lo. Ao reconhecer que o homem rejeitado, naturalmente ressentido do tratamento que lhe fora dado por seus antigos companheiros, não abrirá mão do arco por vontade própria, o astuto Odisseu, de acordo com Sófocles, instrui o jovem Neoptólemo, filho do falecido Aquiles, a obter o objeto por meio de um truque. O rapaz, não sem relutância, concorda com o plano, e de fato é bem-sucedido em ludibriar Filoctetes e conseguir o arco. Mas então – num episódio que pode ter sido uma inovação da parte de Sófocles – ele sofre de lapsos de consciência e decide devolver a arma a Filoctetes, em desafio à determinação de Odisseu:

– Vou para desfazer o mal que causei. […]

Errei quando obedeci a você e aos gregos.

– O que te fizemos fazer que foi injusto?

– Pratiquei truques e artimanhas com sucesso. […]

– Não podes querer dizer que vais devolvê-lo.

– Exatamente. Para minha vergonha, injustamente o obtive. […]

– Não tens medo dos gregos se o fizeres?

– Não tenho medo de nada que possam fazer,

quando ajo com justiça; nem me curvarei à força bruta.5

Assim como Antígona apresenta em uma luz favorável o desafio de uma mulher à superioridade dupla de Creonte como seu rei e seu tio, também Filoctetes retrata a desobediência de um soldado à ordem direta de um oficial em comando em tempos de guerra. Em ambas as peças, a autoridade de um superior humano é sobrepujada pela autoridade mais elevada da lei moral.

1. Euripides, Suppliant Women 404-408; tradução de Frank William Jones, in David Grene and Richmond Latimore, eds., Euripides IV (University of Chicago Press, 1958), p. 73.

2. Suppliant Women 428-451; tradução de Jones, p. 74.

3. Na obra de Sófocles Édipo em Colono, escrita quase duas décadas depois de As Suplicantes, de Eurípides, um homem que busca refúgio e chega a Colono, no subúrbio de Atenas, pergunta se ela é “[g]overnada por um rei? Ou reinam as pessoas?” e recebe a resposta cronologicamente apropriada de que “A terra é governada por Atenas, pelo rei ateniense”, qual seja, Teseu, novamente (Sophocles, Oedipus at Colonus 66-67; tradução de Robert Fitzgerald, in David Grene, ed., Sophocles I (University of Chicago Press, 1954), p. 82.). Isso pode ser uma “correção” deliberada da parte de Sófocles da passagem da peça de Eurípides – assim como Eurípides, em sua versão da história de Electra (Electra 513-537) goza de Ésquilo, porque esse fez com que a personagem, de forma implausível, reconhecesse a pegada e uma mecha de cabelo de seu irmão Orestes, há muito perdido, por eles serem parecidos com os dela (Libation Bearers 167-230).

4. Sophocles, Antigone 447-456; tradução de Elizabeth Wyckoff, in David Grene, ed.,Sophocles I (University of Chicago Press, 1954), pp. 173-174.

5. Sophocles, Philoctetes 1224-1252; tradução de David Grene, in Richmond Lattimore and David Grene, eds., Sophocles II (University of Chicago Press, 1957), pp. 242-244.

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