09 maio, 2016 - Roderick Long -

O legado da Grécia Antiga para a liberdade: A escolha de Aquiles8 minutos de leitura

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Por Roderick T. Long

[Este artigo foi publicado em 27 de julho de 2015 para o libertarianism.org. É a primeira parte da série O legado da Grécia Antiga para a liberdade. Tradução e revisão de Gabriel Goes; Edição de Giácomo de Pellegrini]

Long começa uma série sobre a herança deixada pela Grécia Antiga ao libertarianismo com uma discussão sobre Aquiles e a atitude homérica frente à guerra e à glória.

A amplitude da contribuição da cultura grega antiga para o entendimento e o avanço da liberdade humana é muito debatida.

Para o historiador marxista C. L. R. James, “a liberdade de fazer e pensar como se deseja, não só na política mas na vida privada, era a própria essência de vida dos gregos”; ele atribui à democracia ateniense em particular um compromisso para com “o poder criativo da liberdade e a capacidade de governar do homem ordinário”1. De um quadrante político bastante diverso, a filósofa arquicapitalista Ayn Rand é similarmente entusiasmada; ela chamou a civilização grega de “o primeiro passo humano na história documentada” e argumentou que “um grau comparativo de liberdade política suplantou o poder do misticismo e, pela primeira vez, o homem foi livre para encarar um universo desobstruído”2.

Por outro lado, Benjamin Constant e Frédéric Bastiat, dois dos baluartes do liberalismo do século XIX, tinham uma impressão bem pior acerca do tema. Em seu ensaio de 1819, “The Liberty of the Ancients Compared With That of the Moderns”, Constant contrastou a concepção moderna de liberdade, qual seja, “prazer pacífico e independência privada”, àquela antiga, que identificou como “participação no poder coletivo” – uma versão de liberdade infelizmente compatível demais com “a completa sujeição do indivíduo à autoridade da comunidade”. Enquanto ele concedia que Atenas era exceção parcial a essa regra, já que permitia “uma liberdade individual infinitamente superior à de Roma ou Esparta” – fato que ele atribuía a Atenas ser “de todas as repúblicas gregas a mais engajada no comércio” –, Constant, no entanto, insistia que “o indivíduo era muito mais subserviente à supremacia do corpo social em Atenas do que é em qualquer Estado livre da Europa hoje”.

Bastiat, por sua vez, em “Academic Degrees and Socialism” expressou seu desalento em relação à dominância das “ideias greco-romanas” na educação universitária. Os antigos, que glorificavam a guerra, viviam de trabalho escravo e denegriam a produção e o comércio – expressando a “opinião prevalente na antiguidade de que a indústria é ignóbil” –, eram o pior modelo possível para a política moderna; dessa forma, concluiu Bastiat, era loucura enviar a juventude da nação, “com intenção de prepará-la para o trabalho, a paz e a liberdade”, para “sorver e ficar imbuído e saturado dos sentimentos e opiniões de uma nação de salteadores e escravos”.

Cada lado nessa disputa tem um ponto, pela simples razão de que o legado da Grécia clássica para a liberdade é misto e complexo. Contudo, um exame de Homero e Hesíodo, os dois mais celebrados fundadores da tradição poética grega, sugere que ao menos algumas correntes importantes do pensamento grego não estavam unicamente dedicadas a exaltar a glória militar sobre a paz e a indústria.

Comecemos por Homero – ou “Homero”, o nome padrão para o suposto autor da Ilíada e da Odisseia, poemas épicos que dramatizam os eventos principais da Guerra de Troia e do que veio a seguir. Acadêmicos modernos veem essas obras como uma compilação da tradição oral mais antiga, que começou a adquirir a forma atual por volta do século VIII a.C. – se o produto final foi montado por poucas ou muitas mãos continua obscuro. Por consequência, é difícil dizer quão longe pode-se ir na expectativa de uma voz autoral una no corpus homérico. Dito isso, dentro da perspectiva homérica, é possível identificar uma tendência constante de ceticismo em relação ao valor da glória marcial.

A oposição mais vívida de “Homero” entre as buscas pela guerra e pela paz se encontra na descrição das “duas cidades” no escudo que o deus Hefesto forja para a figura central da Ilíada, o guerreiro grego Aquiles:

Nele o deus entalhou, em toda sua beleza, duas cidades

de homens mortais. E havia casamentos um uma delas, e festivais […]

Os jovens seguiam nas rodas de dança, e entre eles

as flautas e liras perpetuavam seu clamor […]

Mas em volta da outra cidade estavam duas forças de homens armados

fulgurando em equipamento de guerra. 3

A cidade pacífica é cenário não só de celebração, mas também de trabalho produtivo: “um campo macio, o orgulho da terra lavrada, ampla e três vezes arada, com muitos cultivadores, que dirigiam seus arados sobre o solo, em turnos”, com pausas ocasionais para “um jarro de vinho doce como o mel”. Na cidade da guerra, em contraste, soldados emboscam “dois pastores […] que tocavam felizes suas gaitas”, massacram-nos e confiscam seus “rebanhos de ovelhas reluzentes”. Depois, esses soldados são atacados por outros, com resultados sangrentos:

[E] eles se lançavam uns contra os outros com lanças de ponta de bronze

e o Ódio lá estava com a Confusão entre eles, e Morte, a destruidora;

ela segurava um homem vivo com uma lesão fresca, e outro

ainda não machucado, e arrastava um morto pelos pés através da carnificina.

O manto sobre seus ombros era de vermelho intenso

com o sangue dos homens.

Todos se aproximavam ainda vivos e lutavam entre si

e arrastavam para longe os cadáveres dos que caíram.4

De fato, a cidade pacífica não é idílica; nos é dito que, no mercado, “uma briga surgira, e dois homens disputavam acerca do preço da vida de outro, que morrera”. No entanto, os envolvidos, segundo a descrição, apelam ao arbítrio legal, em vez da violência, para resolver seu desentendimento; eles “procuraram um juiz para ter uma decisão” e “mostraram suas versões em turnos”, enquanto “dois talentos de ouro” foram prometidos para “aquele que o juiz considerar que exprimiu a opinião mais reta”. Tal arbítrio é representado como a alternativa civilizada ao método guerreiro de solução de problemas.

A oposição entre guerra e paz no escudo de Aquiles é simbólica da escolha que a ele mesmo é oferecida por sua mãe profética: decidir entre uma vida curta e violenta de glória eterna e uma vida longa e pacífica de parco renome. Estranhamente, gerações de leitores, tanto antigas quanto modernas, deixaram o texto com a impressão de que ele escolhe a vida curta e gloriosa, quando na verdade faz precisamente o oposto. Aquiles explica sua escolha nas seguintes palavras:

Porque não valiosas como minha vida são todas as posses que fabulam terem sido ganhas para Ílion, a cidadela de fortes fundações. […]

[T]ripés ornamentais podem ser ganhos, e as cabeças morenas de cavalos,

mas a vida de um homem jamais volta, e não pode ser levantada

ou capturada por força, uma vez que tenha cruzado a barreira dos dentes.

Minha mãe Tétis, deusa dos pés de prata, diz-me

que carrego duas sortes de destino até o dia da minha morte.

Ou,

se ficar aqui e lutar ao lado da cidade dos troianos,

meu retorno para casa se esvai, mas minha glória será infinda;

ou, se retornar para a amada terra dos meus pais,

a excelência da minha glória se esvai, mas haverá uma longa vida

para mim, e meu fim na morte não virá rapidamente.

E esse seria meu conselho para outros: velejar de volta para casa […]5

Embora Aquiles de fato retorne para a batalha, ele o faz para vingar a morte de seu amigo Pátroclo, e não porque passou a preferir a glória militar à longevidade pacífica. Deveras, mesmo enquanto se prepara para sua vingança sangrenta, ele ainda expressa o desejo “de que o conflito desapareça do meio de deuses e mortais, e o rancor, que traz a raiva aos homens”6. Ainda não é o programa libertário completo, mas já é certamente seu núcleo.

No épico que faz companhia à Ilíada, a Odisseia, Aquiles uma vez mais é retratado como alguém que repudia o ethos de morte e glória. Quando Odisseu, em sua jornada, visita a terra dos mortos e, ao encontrar o espectro do falecido Aquiles, parabeniza-o por sua “grande autoridade sobre os mortos”, Aquiles responde com veemência:

Eu preferiria dirigir o arado como servo de outro

homem, um sem terras a ele destinadas e nada do que viver,

do que reinar sobre todos os que se foram. 7

As acusações de covardia e frouxidão, geralmente lançadas sobre aqueles que preferem vida longa a vitórias militares, também não podem ser aplicadas, de forma plausível, a Aquiles, muitas vezes reconhecido como o mais bravo e excelente dos guerreiros gregos. Ao colocar tais sentimentos antimilitaristas na boca de um personagem como Aquiles, “Homero” propõe um desafio significativo para aqueles que preferem a arte da guerra à arte da paz.

1. C. L. R. James, Every Cook Can Govern: A Study of Democracy in Ancient Greece: Its Meaning for Today (Michigan: Facing Reality, 1956).
2. Ayn Rand, For the New Intellectual (New York, New American Library, 1963), p. 22.
3. Iliad 18. 490-510; Richmond Lattimore translation (Chicago: University of Chicago Press, 1951). [tradução livre]
4. Iliad 18. 524-546 [tradução livre]
5. Iliad 9. 400-418 [tradução livre]
6. Iliad 18. 107-108 [tradução livre]
7. Odyssey 11. 485-491; Richmond Lattimore translation (New York: Harper & Row, 1967). [tradução livre]

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