30 jun, 2016 - Roderick Long -

O legado da Grécia Antiga para a liberdade: A comédia da política9 minutos de leitura

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Por Roderick Long

[Este artigo foi publicado em 11 de fevereiro de 2016 para o libertarianism.org. É a décima sexta parte da série O legado da Grécia Antiga para a liberdade. Tradução e revisão de Gabriel Goes; Edição de Giácomo de Pellegrini]

Ridicularizar políticos? Uma tradição pelo menos tão antiga quanto a Grécia à época de Aristófanes, como suas comédias demonstram.

O drama ateniense, como vimos, muitas vezes levantava questões políticas. Isso era verdadeiro tanto para a tragédia quanto para a comédia; mas especialmente para a comédia, que satirizava personalidades e eventos contemporâneos da cidade, enquanto o principal tema da tragédia estava, em grande parte, confinado a histórias retiradas de mitos e lendas gregos, passados em um tempo vago e obscuro. Das mais de trinta tragédias gregas sobreviventes, apenas uma – Os Persas, de Ésquilo – lida com eventos há pouco ocorridos, enquanto todas as comédias remanescentes têm um pano de fundo contemporâneo.

Isso não quer dizer que as tragédias nunca comentassem sobre eventos atuais; vimos, por exemplo, como As Troianas e Helena, de Eurípides, tratavam da Guerra do Peloponeso.2 Contudo, a comédia grega se debruçava mais diretamente sobre as questões cotidianas, sem a necessidade de fantasiá-las com ornamentos homéricos. Embora deuses e heróis épicos às vezes aparecessem nas comédias, faziam-no em um ambiente moderno e intervinham nas controvérsias políticas e sociais correntes em Atenas.

O mais celebrado dramaturgo cômico grego, e o único de quem sobrevivem peças completas, é Aristófanes (~446-386 a.C.)3. Apesar de ele beber de muitas fontes para seu humor – variando de debates literários sobre os méritos comparativos de diferentes tragediógrafos até questões menos elevadas, como velhos padrões sexuais e outras funções corporais –, seu foco estava quase sempre na sátira política. Aparentemente, ele tinha uma animosidade particular com o político Cléon, que achacava sem piedade peça após peça, de forma mais proeminente em Os Cavaleiros (em que o político desonesto Paflagônio serve, obviamente, de espelho para Cléon) e em As Vespas (em que o protagonista Bdelicleon, ou “odiador de Cléon”, triunfa sobre o confuso Filocleon, “amante de Cléon”).

Aristófanes é muitas vezes descrito como um conservador no campo social. O termo talvez seja de estranha aplicação a um autor que ironizava os deuses gregos, deleitava-se com piadas obscenas, escarnecia do militarismo e flertava com o feminismo. Porém, ele de fato demonstrava um certo esnobismo classista – nunca se cansava, por exemplo, de lembrar a plateia do passado de Cléon como curtidor de couro. O autor também mirava em inovadores intelectuais como Sócrates (em As Nuvens) e Eurípides (em As Tesmoforiantes e, sobretudo, em As Rãs), cujas ideias, ele considerava, minavam os valores tradicionais.4

O final de As Nnuvens, com seu chamado para que o “Pensatório” de Sócrates fosse queimado com o filósofo ainda lá dentro, pode ser relevado como exagero cômico; mas, à luz do eventual destino do mestre de Platão, as falas soam perturbadoras, e o próprio Sócrates parece ter considerado a peça um fator contribuinte para seu julgamento e sua execução.5

É dúbio, no entanto, se Aristófanes teria aprovado a acusação contra Sócrates. Em sua peça Um deus chamado dinheiro [Ploutos, no original], ele apresenta um retrato negativo dos autointitulados guardiães da moral pública, que levantam denúncias contra aqueles de quem não gostam, em vez de praticar uma política de tolerância, de “viva e deixe viver”:

– [C]omo vives se não tens ganha-pão? […]

– Ofereço meus serviços.

– Que serviços, seu paspalho? Queres dizer te meter no que não é da tua conta?

– Não é da minha conta, bobalhão, quando faço tudo em meu poder para beneficiar o Estado?

– Então ser um xereta impertinente beneficia o Estado?

– Não, mas promover a lei e a ordem e avançar contra qualquer transgressor sim.

– Pensei que o Estado apontava juízes para tomar conta disso.

– Sim, mas quem processa?

– Quem assim quiser.

– Esse sou eu, com certeza. E é o motivo pelo qual os assuntos do Estado são os meus assuntos.

– E o motivo pelo qual o Estado tem um protetor tão ruim.
Venha cá, não preferirias deixar as coisas quietas e viver em tranquilidade?

– Essa é uma vida de ovelha, tediosa com complacência.6

Os cidadãos que processaram Sócrates parecem ter sido precisamente o tipo de xeretas que Aristófanes condena nesse trecho – porém, para deixar claro, Aristófanes pode ser culpado por contribuir com uma atmosfera social que fez a condenação de Sócrates mais provável, tendo ele a aprovado pessoalmente ou não.

No entanto, a despeito da cumplicidade parcial de Aristófanes com as forças reacionárias, suas obras contêm muito que um libertário possa celebrar. Ele é hostil a políticos em geral, não só Cléon:

Apenas observe os políticos em todas as cidades:

quando são pobres, comportam-se bem,

mas depois que tosaram o erário e enriqueceram,

mudam de tom,

e passam a minar a democracia e se virar contra o povo.7

Ele também se mostra cético quanto às promessas extravagantes que os políticos fazem em nome de suas propostas:

Há pouco tempo, não juramos todos

que a taxa de dois e meio por cento proposta por Heurípides

forneceria ao Estado quinhentos talentos? E imediatamente

não se tornou Heurípides nosso queridinho,

até que olhamos mais atentamente

e vimos que tudo não passava de uma maldita fantasia,

impossível de se realizar?8

Além disso, ele também expressa sua exasperação para com a microgestão burocrática; em As Aves, quando um mensageiro oficial de Atenas chega à recém-fundada utopia celestial de Cucolândia-nas-Nuvens [ou Nefelococigia] para anunciar que “[o]s nuvemcucolandenses deverão utilizar / os mesmos pesos, medidas e regulamentos / de que fazem uso os olofixianos”, a ele é dito que “[r]emova-se daqui, tu e teus malditos decretos”.9

Ao contrário da visão amplamente difundida de que os jurados, irrestritos pelas instruções de juízes ou por regras de evidência, eram os verdadeiros mestres de Atenas, Aristófanes faz com que seu protagonista, Bdelicleon, em As Vespas, argumente que os jurados, longe de serem mestres, são na verdade escravos da elite política ateniense:

– Contem mais ou menos nos seus dedos […]

quanto chega a nós

de arrecadação das cidades aliadas.

Então façam uma lista separada de quanto recebemos em taxas,

direitos de mineração, direitos portuários, importações, encargos dos tribunais,

mercados, aluguéis e multas.

A renda bruta de tudo isso

chega a quase dois mil talentos.

Agora calculem quanto gastamos com juízes todos os anos –

todos os seis mil deles – juízes a perder de vista! –

e chegarão o valor de – qual o balanço? –

meros cento e cinquenta talentos.

– Então nossos salários

não dão conta de um décimo da arrecadação? […]

Para onde vai o resto então? […]

– Vai para aquela horda dos

“Não desapontarei o povo de Atenas”,

e dos “Lutarei pela hoi polloi [a maioria]”.

Esse é o cartel que escolheram para lhes governar […]

E esses são os bordões que empregam.10

Entretanto, talvez o aspecto mais libertário da obra de Aristófanes seja a crítica da guerra – como veremos no próximo texto.

1. Os persas, de Ésquilo, produzida em 472 a.C., lida com a vitória grega contra a frota persa invasora em Salamina, apenas oito anos mais cedo. De duas das tragédias perdidas de Frínico são também se entende que dramatizaram eventos das Guerras Médicas; uma delas evidentemente retrata uma derrota grega e, em consequência, foi banida dos palcos (sim, Atenas possuía liberdade quase total de expressão; mas lembrem-se que o drama ateniense era financiado publicamente).

2. Veja a parte 14 desta série

3. Também chegou a nós uma peça quase completa, O misantropo, do comediante Menandro (~342-290 a.C.); porém, a comédia grega da época de Menandro – frequentemente chamada de “nova comédia” em contraste com a “velha comédia” de Aristófanes – tinha se afastado um pouco dos temas políticos, talvez, em parte, porque Atenas não era mais uma democracia autogovernada, e a cultura de crítica pública não encontrava encorajamento. Autores cômicos romanos como Plauto e Terêncio seguiam, sobretudo – e com prudência –, o modelo de Menandro, e não o de Aristófanes.

4. Em seu livro de 1872, O nascimento da tragédia no espírito da música, seções 10-14, Friedrich Nietzsche defende a crítica a Eurípides feita por Aristófanes em As Rãs.

5. Plato, Apology 19b-c.

6. Aristophanes, Ploutos 906-924; in Aristophanes, The Complete Plays: The New Translations, trad. Paul Roche (New York: New American Library, 2005), pp. 704-05. Há pouquíssimas traduções precisas de Aristófanes; tradutores mais antigos censuravam as obscenidades, enquanto os modernos não resistem à tendência de modernizar as piadas por meio da introdução de anacronismos. Roche não censura (e até mesmo inclui obscenidades que não estão no original!), mas não é exceção no que se refere à tendência dos anacronismos; contudo, ele ao menos não é um dos que mais pecam nesse sentido, e suas traduções têm a vantagem de estarem todas disponíveis num único volume. Daí minha escolha para as citações de Aristófanes.

A caracterização que o xereta faz de uma política de “viva e deixe viver” como “uma vida de ovelha, tediosa com complacência” lembra a descrição de Pirro feita por Plutarco: “Quando Pirro se retirou, então, para Epiro e deixou a Macedônia, teve uma bela ocasião a ele concedida pela fortuna de se regozijar na quietude e governar o próprio reino em paz. Porém, ele foi persuadido de que não incomodar outros e por eles não ser incomodado é uma vida insuportavelmente lânguida e tediosa”. Plutarch, Life of Pyrrhus 13.1; in John and William Langhorne, trans., Plutarch’s Lives, Translated From the Original Greek, vol. 3 (Worcester, MA: Isaiah Thomas Jr., 1804), p. 14.

7. Ploutos 567-570; tradução de Roche, op. cit., p. 692.

8. Aristophanes, Assemblywomen 823-828; tradução de Roche, op. cit., p. 647.

9. Aristophanes, Birds 1040-1044; tradução de Roche, op. cit., pp. 385-386.

10. Aristophanes, Wasps 650-668; tradução de Roche, op. cit., pp. 232-233.

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