21 fev, 2015 - Roderick Long -

O Caso Libertário Contra Direitos de Propriedade Intelectual24 minutos de leitura

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por Roderick Long

[Este artigo foi publicado no outono de 1995 na edição de Formulations da Free Nation Foundation. Tradução de Antonio Augusto Abello; Revisão e edição de Giácomo de Pellegrini.]

Seria interessante descobrir quanto uma visão seriamente crítica dos benefícios das leis de copyright pra sociedade […] teria chance de ser publicamente falada em uma sociedade onde os canais de expressão são tão largamente controlados por pessoas que têm um interesse pessoal na situação existente. Friedrich A. Hayek, 'Os Intelectuais e o Socialismo'

Uma disputa entre libertários

O status dos direitos de propriedade intelectual (copyrights, patentes e semelhantes) é um problema que divide libertários há muito tempo. Ídolos libertários como Herbert Spencer, Lysander Spooner e Ayn Rand foram fortes defensores dos direitos de propriedade intelecutal. Thomas Jefferson, por outro lado, era ambivalente à questão, enquanto libertários radicais como Benjamin Tucker no último século e Tom Palmer no presente rejeitaram completamente os direitos de propriedade intelectual.

Quando libertários do primeiro tipo se encontram diante de um direito de propriedade intelectual, eles veem mais um exemplo da justa reivindicação de um indivíduo pelo produto de seu trabalho. Quando libertários do segundo tipo se encontram diante de um direito de propriedade intelectual, eles veem mais um exemplo de injustos privilégios de monopólio garantidos pelo governo.

Eu costumava fazer parte do primeiro grupo. Hoje sou do segundo. Gostaria de explicar por que direitos de propriedade intelectual não são justificáveis, e como os fins legítimos buscados por eles podem ser assegurados de outras formas, voluntárias.

O Argumento Histórico

Direitos de propriedade intelectual têm um passado obscuro. Originalmente, tanto patentes como copyrights eram pura e simplesmente garantias de privilégio de monopólio. Uma casa de impressão poderia receber um “copyright” por mandato real, significando que ela era a única permitida a imprimir livros ou jornais em um certo distrito; não havia o pressuposto de que o copyright nascia com o autor. De maneira semelhante, aqueles com influência política o suficiente podiam receber uma “patente”, ou seja, um monopólio exclusivo sobre uma commodity, independente deles terem algo a ver com a invenção de fato. Direitos de propriedade intelectual tem sua origem em privilégio governamental e protecionismo governamental, não em um zelo pela proteção do direito do criador ao fruto do seu trabalho. Além disso, a abolição de patentes era uma das bandeiras dos Levellers do século 17 (discutivelmente os primeiros libertários).

Esse fato por ele mesmo não prova que exista algo errado com os direitos de propriedade intelectual como os conhecemos hoje. Um passado desagradável não é um argumento decisivo contra qualquer fenômeno; coisas úteis e valiosas podem ter origens suspeitas (Nietzsche observou uma vez que não existe nada tão maravilhoso que torne seu passado algo tão interessante assim). Mas o fato de que os direitos de propriedade intelectual se originam em opressão estatal deveria ao menos nos fazer parar e ter bastante cuidado antes de abraçá-los.

O Argumento Ético

Eticamente, direitos de propriedade de qualquer tipo devem ser justificados como extensões do direito dos indivíduos de controlar suas próprias vidas. Assim, qualquer pretenso direito de propriedade que entra em conflito com essa base moral – como o “direito” de possuir escravos – são invalidados. No meu julgamento, direitos de propriedade intelectual também não passam nesse teste. Fazer valer direitos de copyright e similares é impedir pessoas do uso pacífico de informações que elas possuem. Se você adquiriu a informação legitimamente (comprando um livro, por exemplo), então por quais motivos você pode ser impedido de usá-la, reproduzi-la, trocá-la? Não seria isso uma violação da liberdade de expressão e de imprensa?

Pode ser objetado que a pessoa que cria a informação merece direito de propriedade sobre ela. Mas informação não é algo concreto que um indivíduo pode controlar; é um universalNT, que existe na mente e nas propriedades de outras pessoas, e sobre essas o criador não tem soberania legítima. Você não pode possuir informação sem possuir outras pessoas.

Suponha que eu tenha escrito um poema que você leu e memorizou. Ao memorizá-lo, você na verdade criou uma duplicata em “software” do poema que está armazenado no seu cérebro. Claramente eu não posso ter direitos sobre essa cópia enquanto você continua sendo um indivíduo livre e autônomo. Essa cópia na sua cabeça é sua e de ninguém mais

Mas agora suponha que você transcreva meu poema para fazer uma cópia física do software guardado no seu cérebro. Os materiais que você usa – caneta e tinta – são sua propriedade. A informação-modelo que você usou – a memória guardada do poema – também é sua propriedade. Então como a cópia física produzida desses materiais pode ser qualquer coisa senão sua propriedade para publicar, vender, adaptar ou usar da maneira como você acha melhor?

Um item de propriedade intelectual é um universal. A não ser que acreditemos nas Formas Platônicas, universais não existem em si mesmos, mas somente na medida em que são instanciados em suas diversas reproduções particulares. Baseado nisto, não vejo como alguém pode ter propriedade sobre o texto de A Revolta de Atlas, a não ser que isso signifique ter propriedade sobre todas as cópias de A Revolta de Atlas. Mas a cópia na minha prateleira não pertence à Ayn Rand. Ela pertence a mim. Eu a comprei. Eu a paguei. (Rand presumivelmente recebeu royalties da venda, e eu tenho certeza que não foi vendido sem a permissão dela!)

O argumento moral contra patentes é ainda mais claro. Uma patente é, de fato, uma reivindicação de posse sobre uma lei da natureza. E se Newton tivesse reivindicado o cálculo, ou a lei da gravidade? Teríamos que pagar uma taxa a seu patrimônio toda vez que usássemos algum dos princípios que ele descobriu?

[…] O monopólio de patentes […] consiste em proteger inventores […] de competição por um período longo o suficiente para extorquir das pessoas uma recompensa enormemente excedente à medida do trabalho dos seus serviços – em outras palavras, em dar a certas pessoas o direito de propriedade, por alguns anos, de leis e fatos da natureza, e o poder de tributar dos outros o uso dessa riqueza natural que deveria ser aberta a todos.Benjamin Tucker, Instead of a Book, By a Man Too Busy to Write One: A Fragmentary Exposition of Philosophical Anarchism (New York: Tucker, 1893), p. 13.

Defensores de patentes afirmam que leis de patentes protegem somente a propriedade de invenções, mas não de descobertas. (Da mesma forma, defensores do copyright defendem que ele protege somente implementações de ideias, não as ideias por elas mesmas). Mas essa distinção é artificial. Leis da natureza existem em diferentes níveis de generalidade e especificidade; se o fato de que o cobre conduz eletricidade é uma lei da natureza, então o fato de que uma certa quantidade de cobre arranjada em uma certa configuração com outros materiais fazendo assim uma bateria funcional não deixa de ser também uma lei da natureza. E assim por diante.

Suponha que você está preso no fundo de um desfiladeiro. Tigres dentes-de-sabre famintos se aproximam. Sua única esperança é construir rapidamente um instrumento de levitação que eu inventei recentemente. Você sabe como ele funciona porque viu uma palestra pública que eu dei sobre o assunto. E é fácil construí-lo bem rapidamente usando os materiais que você vê espalhados ao redor do desfiladeiro.

Mas tem um problema. Eu patenteei meu instrumento de levitação. Eu o possuo – não somente o modelo individual que eu construí, mas o universal. Assim, você não pode construir seus meios de escape sem usar minha propriedade. E eu, como o velho malvado e pão-duro que sou, recuso-me a te dar minha permissão. E então os tigres jantam bem.

Isso destaca o problema moral da noção de propriedade intelectual. Ao ter uma patente do meu instrumento de levitação, eu estou dizendo que não te é permitido usar seu próprio conhecimento para alcançar seus fins. Que direito eu tenho pra isso?

Outro problema com patentes é que, para as leis da natureza, mesmo as mais específicas, há uma boa probabilidade que duas pessoas, trabalhando independentemente na mesma linha de pesquisa, acabem chegando à mesma invenção (descoberta) independentemente. Mesmo assim a lei de patentes vai arbitrariamente garantir direitos exclusivos ao inventor que chegar primeiro no escritório de patentes; o segundo inventor, mesmo tendo desenvolvido a ideia por si só, vai ser proibido de comercializar sua invenção.

Ayn Rand tenta rebater essa objeção:

Algumas pessoas citam como objeção às leis de patente o fato que dois inventores podem trabalhar independentemente por anos na mesma invenção, mas um deles ganha do outro por uma hora ou um dia e adquire um monopólio exclusivo, enquanto o trabalho do outro é totalmente desperdiçado. Esse tipo de objeção é baseado no erro de equacionar o potencial com o atual. O fato de que um homem poderia ser o primeiro não muda o fato de que ele não foi. Uma vez que o problema é de direitos comerciais, o perdedor num caso desses deve aceitar o fato de que ao tentar comercializar com outrem ele deve encarar a possibilidade de um competidor vencer a corrida, o que é verdade para todos os tipos de competição.Ayn Rand, Capitalismo: O Ideal Desconhecido p. 133

Mas essa resposta não é suficiente. Rand sugere que a competição pra chegar ao escritório de patentes é igual a qualquer outro tipo de competição comercial. Por exemplo, suponha que eu e você estamos competindo pelo mesmo emprego, e você acaba sendo contratado porque você chegou ao empregador antes que eu. Nesse caso, o fato de que eu poderia chegar primeiro não me dá uma reivindicação legítima ao emprego. Mas isso acontece porque eu não tenho nenhum direito ao emprego pra começo de história. E uma vez que você consegue o emprego, sua reivindicação legítima a ele depende somente do fato de que o empregador escolheu contratar você.

No caso das patentes, no entanto, a história é supostamente diferente. A base da reivindicação de um inventor a uma patente de X é supostamente o fato que ele inventou X (Se não, porque não oferecer direitos de patente sobre X pra qualquer pessoa que tropeçar no escritório, mesmo se eles nem ouviram falar de X?). O registro de uma invenção no escritório de patentes teoricamente registra o direito, não o cria. Disso resulta que a pessoa que chega depois no escritório tem tanto direito como a pessoa que chega primeiro – e isso com certeza é um reductio ad absurdum da noção de patentes.

O Argumento Econômico

O argumento econômico para direitos de propriedade se baseia na escassez. No entanto, informação não é, tecnicamente falando, um recurso escasso. Se A usa um recurso material, isso diminui a quantidade de recursos que B poderia utilizar, então precisamos de um mecanismo legal para determinar quem usa o quê e quando. Mas informação não funciona assim; quando A adquire informação, isso não diminui a informação disponível para B, então direitos de propriedade não são necessários.

Alguns diriam que estes direitos são necessários para dar a artistas e inventores o incentivo financeiro para criar. Mas a maior parte dos grandes inovadores na história operaram sem o benefício de leis de copyright. Na verdade, leis de copyright suficientemente rigorosas teriam feito suas conquistas impossíveis: grandes escritores de peças como Eurípides e Shakespeare nunca escreveram enredos originais nas suas vidas; suas maiores obras são todas adaptações e melhoras de histórias escritas por outros. Boa parte dos grandes compositores, como Bach, Tchaikovsky e Ives incorporaram em seu trabalho as composições de outras pessoas. Apropriações como estas tem sido a um bom tempo uma parte integral da legítima liberdade artística.

É acreditável que autores não serão motivados a escrever a não ser que tenham proteção de copyright? Não muito. Considere as centenas de milhares de artigos mandados à internet por seus autores todo dia e disponível para qualquer um no mundo de graça.

É acreditável que publicadores não vão querer publicar trabalhos sem copyright, com o medo de que um publicador rival entre no jogo e quebre seu monopólio? Não muito. Quase todas as obras escritas antes de 1900 estão em domínio público e, mesmo assim, estas obras ainda são publicadas, e ainda vendem.

É acreditável que autores num mundo sem copyrights serão privados de remuneração por seu trabalho? Novamente, não muito. No século 19, autores britânicos não tinham nenhuma proteção da lei americana mas, mesmo assim, recebiam seus royalties dos publicadores americanos.

Em sua autobiografia, Herbert Spencer conta uma história que supostamente ilustra a necessidade de direitos de propriedade intelectual. Spencer havia inventado um novo tipo de cama de hospital. Por motivos filantrópicos, ele decidiu dar de presente à humanidade sua invenção ao invés de reivindicar uma patente sobre ela. Para seu desalento, seu plano generoso saiu pela culatra: nenhuma companhia queria manufaturar a cama porque, sem o monopólio garantido, era muito arriscado investir dinheiro em um produto que poderia ser superado pela concorrência. Isso não mostra a necessidade de leis de patentes?

Eu não acho. Para começar, o caso de Spencer parece exagerado. Afinal, companhias estão constantemente produzindo itens (camas, cadeiras, etc) para quais ninguém tem uma patente exclusiva. Mas ignoremos isso; sem evasivas vamos aceitar a história de Spencer. O que ela prova?

Vamos lembrar que as companhias que rejeitaram a cama de Spencer em favor de outras estavam escolhendo entre produzir uma commodity sobre qual deteriam um monopólio ou produzir uma commodity sobre qual não deteriam um monopólio. Frente a esta escolha, elas foram à comunidade de patentes como a opção menos arriscada (especialmente considerando o fato de que elas teriam que competir com outras companhias que da mesma forma teriam monopólios). Então a existência de leis de patente, como qualquer outra forma de legislação protecionista, deu à comunidade de patentes uma vantagem competitiva injusta sobre sua rival sem patentes. A situação descrita por Spencer, então, é simplesmente uma consequência das próprias leis de patentes! Numa sociedade sem leis de patente, a cama filantrópica de Spencer não teria nenhuma desvantagem em comparação com outros produtos.

O Argumento Empírico

Mesmo nunca sendo justificadas, as leis de copyright provavelmente não causaram muito dano à sociedade até agora. Mas na Era da Computação, elas estão se tornando cada vez mais custosas ao progresso humano.

Considere, por exemplo, o Projeto Gutenberg, um maravilhoso esforço voluntário sem fins lucrativos para transferir a maior quantidade de livros ao formato eletrônico e os tornar disponíveis de graça na internet. (Para maior informação sobre o Projeto Gutenberg, contate o diretor do projeto, Michael S. Hart, em hart@vmd.cso.uiuc.edu). Infelizmente, a maioria dos livros trabalhados até hoje são de antes do século 20 – para evitar as complicações de direito autoral. Portanto, leis de copyright hoje em dia estão trabalhando para restringir a disponibilidade de informação, não promovê-la. (E o Congresso, ao comando das indústrias de gravação e publicação tem agido para estender a proteção de copyright para durar mais de um século depois da morte do autor, assim assegurando que só uma pequena fração da informação existente seja disponível publicamente.)

Ainda mais importante, as comunicações eletrônicas modernas estão começando a tornar as leis de copyright simplesmente inaplicáveis; ou ao menos inaplicáveis sem a ajuda de algo como a tomada da internet pelo governo – e uma ameaça ao futuro da humanidade tão aterradora que claramente seria uma cura bem pior que a doença. Leis de copyright, num mundo onde qualquer indivíduo pode fazer instantaneamente milhares de cópias de um documento e mandá-las para todo o planeta, são tão obsoletas quanto leis contra voyeurs e pervertidos em um mundo onde todos têm visão de raio-x.

Primeira história de Tolkien

Aqui uma história que ilustra um pouco da irritação desnecessária que leis de propriedade intelectual podem causar:

Alguns anos atrás, o animador de filmes avant-garde Ralph Bakshi decidiu fazer uma adaptação da clássica trilogia de fantasia de J. R. R. Tolkien, O Senhor dos Anéis. Ou melhor, decidiu dividir a trilogia em dois filmes, uma vez que a obra é realmente longa demais para caber facilmente em um único filme.

Então Bakshi começou com O Senhor dos Anéis (Parte Um). Esse filme cobria o primeiro volume da trilogia e parte do segundo. O segundo filme cobriria o resto do segundo volume e o terceiro inteiro. Para fazer o primeiro filme, então, Bakshi precisava comprar os direitos para os dois primeiros volumes, e isso é o que ele (ou presumivelmente seu estúdio) fez.

Mas Bakshi nunca chegou a fazer o segundo filme (provavelmente porque o primeiro filme acabou tendo menos sucesso financeiro do que ele havia antecipado). Entra na história Rankin-Bass, outro estúdio. Rankin-Bass havia feito uma versão animada para TV de uma novela mais antiga de Tolkien, O Hobbit, e estava interessada em fazer o mesmo para a segunda parte de Senhor dos Anéis, abandonada por Bakshi.

Mas havia um problema. O estúdio de Bakshi tinha os direitos dos dois primeiros volumes da trilogia. Somente os direitos para o terceiro volume estavam disponíveis. Então a sequência da Rankin-Bass (lançada como O Retorno do Rei) terminou, por necessidade, cobrindo somente o terceiro volume. Os eventos do segundo volume que Bakshi não tinha filmado estavam simplesmente perdidos (Nem mesmo flashbacks a estes eventos eram permitidos – embora flashbacks para O Hobbit podiam, uma vez que Rankin-Bass tinha os direitos a isso).

Catálogos de vídeos agora vendem O Hobbit, O Senhor dos Anéis e O Retorno do Rei como um pacote único. Mas espectadores não familiarizados com os livros vão ficar um pouco confusos. No filme de Bakshi o maligno mago Saruman é uma força ameaçadora a ser reconhecida; na sequência da Rankin-Bass, ele não é nem mencionado. Da mesma forma, no final do filme de Bakshi, Frodo, Sam e Gollum estão viajando juntos; no começo da sequência da Rankin-Bass nós os encontramos separados, sem explicação. As respostas estão na parte não filmada do segundo volume, que lida com a derrota de Saruman, a traição de Frodo por Gollum, a batalha de Sam com Shelob e a captura de Frodo pelos Orcs. Eventos não pouco importantes esses. Mas graças as leis de propriedade intelectual, o espectador é proibido de saber sobre eles.

Isso é uma catástrofe? Suponho que não. A unidade estética e continuidade de um trabalho artístico foi mutilada, nos termos dos requisitos da lei. Mas isso é só um filme animado pra TV. E daí?

“E daí” mesmo, talvez. Mas minha história serve para jogar dúvidas sobre a ideia que copyright é um bastião da expressão artística. Quando um trabalho de arte envolve retrabalhar material criado por outros (como a maioria da arte envolve, historicamente), leis de copyright podem colocá-la numa camisa de força.

Alternativas à propriedade intelectual: algumas formulações

Eu talvez tenha dado a impressão, até agora, que direitos de propriedade intelectual não tenham nenhuma utilidade. Essa não é minha posição. Penso que alguns dos fins para os quais copyrights e patentes foram oferecidas como meios são perfeitamente legítimos. Acredito, no entanto, que esses fins seriam melhor servidos por outros meios.

Suponha que eu pirateie seu trabalho, ponha meu nome nele e o venda como meu. Ou suponha que eu revise seu trabalho sem sua permissão e o venda como seu. Será que não fiz nada de errado?

Ao contrário, eu definitivamente cometi uma violação de direitos. Não os seus, no entanto, mas de meus consumidores. Ao vender o trabalho de alguém como se fosse de outra pessoa, eu estou fraudando aqueles que compraram o trabalho, assim como estaria se eu vendesse bifes de soja como bifes de carne ou vice-versa. Tudo que você precisa fazer é comprar uma cópia (de modo que você possa dizer que é meu consumidor) e entrar com uma ação coletiva contra mim.

Existem outras formas legais disponíveis para os criadores de produtos intelectuais. Por exemplo, vários desenvolvedores de software podem e colocam proteção contra cópia nos seus programas, ou requisitam que compradores assinem contratos concordando a não revender o software. Da mesma forma, emissoras de TV por satélite paga embaralham seu sinal, e então vendem desembaralhadores.

Nenhuma dessas técnicas é a prova de falhas, claro. Um pirata suficientemente engenhoso pode usualmente descobrir como ultrapassar proteções contra cópia ou desembaralhar um sinal. E contratos de venda condicionais não põe nenhuma restrição em usuários que conseguem o software de outra maneira. Mesmo assim, ao dificultar a pirataria de seus produtos intelectuais, as companhias realmente conseguem diminuir a quantidade total de pirataria, e eles de fato continuam no mercado e conseguem lucros.

Mas e se eu for adiante e vender seu trabalho sem sua permissão, e sem oferecer nenhuma parte dos lucros? Não tem nada errado com isso? Não podemos fazer nada sobre isso?

No caso descrito, eu não acho que o que eu fiz é injusto. Ou seja, não é a violação do direito de ninguém. Mas é de mau gosto. Violar os direitos de alguém não é a única forma de fazer algo errado; justiça não é a única virtude.

Mas justiça é a única virtude que pode ser legitimamente imposta. Se eu lucro pirateando o seu trabalho, você tem uma reclamação moral legítima contra mim, mas essa reclamação não é por um direito. Então, não há como legitimamente usar coerção para assegurar seu cumprimento. Mas isso não significa que isso não pode ser assegurado por outro métodos, voluntários.

Uma boa parte da proteção aos criadores de produtos intelectuais pode ser conseguida só por acordo voluntário. Considere o fenômeno do shareware, onde criadores de software fornecem seu produto de graça para qualquer um, mas pedindo aos usuários que acharam o programa útil que paguem uma taxa nominal ao autor. Presumivelmente, somente uma pequena porcentagem dos usuários de shareware acabam pagando; mesmo assim, essa porcentagem deve ser larga o suficiente para manter o fenômeno do shareware acontecendo.

Existem maneiras mais organizadas e efetivas de assegurar o acordo voluntário, no entanto. Penso na estratégia do boicote àqueles que deixam de respeitar as reivindicações legítimas dos produtores. Pesquisas conduzidas pelo acadêmico libertário Tom Palmer mostram vários exemplos do sucesso desses boicotes organizados. Nos anos 30, por exemplo, a Guild of Fashion Originators conseguiu proteger estilos de vestidos das práticas de pirataria de outros designers sem qualquer ajuda do poder coercitivo do governo.

Um boicote voluntário é na verdade uma forma muito mais segura de proteger as reivindicações dos produtores intelectuais do que o governo porque, do mesmo jeito que para achar um equilíbrio pragmático entre o poder econômico dos produtores e o poder econômico dos consumidores, é mais provável que um esforço privado encontre um equilíbrio análogo entre as reivindicações morais legítimas dos dois grupos – a dos produtores por remuneração e a dos consumidores por informação facilmente acessível – do que um monopólio governamental livre dos incentivos de mercado.

Algo mais formal pode ser facilmente imaginado. Na Baixa Idade Média, um sistema de corte voluntária foi criado por mercadores frustrados com as insuficiências das leis comerciais providas pelo governo. Esse sistema, conhecido como Lex Mercatoria aplicava suas decisões somente por meios de boicotes, e mesmo assim foi muito efetivo. Suponha que produtores de produtos intelectuais – autores, artistas, inventores, designers de software, etc – construíssem um sistema de corte análogo para proteger copyrights e direitos de patente – ou melhor, copyclaims e reivindicações de patentes (uma vez que as reivindicações morais, mesmo que legítimas na maior parte do tempo, não são direitos no sentido libertário). Indivíduos e organizações acusados de pirataria teriam uma chance de pleitear seu caso numa corte voluntária, mas se fossem condenados seriam requisitados a parar e desistir, compensando as vítimas da sua pirataria, sob a pena de boicote.

E se esse sistema fosse longe demais, e começasse a restringir o livre fluxo de informação das mesmas indesejáveis maneiras que, eu argumentei, leis de propriedade intelectual fazem?

Isso é com certeza uma possibilidade. Mas eu acho que o perigo é muito maior na aplicação coercitiva do que na aplicação voluntária. Como Rich Hammer gosta de assinalar: o ostracismo pega seu poder da realidade, e seu poder é limitado pela realidade. Quando um boicote aumenta em escopo, o número e intensidade dos desejos frustrados daqueles que estão sendo privados de algo que eles querem pelo boicote vai crescer. Enquanto isso acontece, existirá também um aumento correspondente no número de pessoas que julga que os benefícios de atender esses desejos (e cobrar uma robusta taxa para fazer isso) compensa mais do que os custos de violar o boicote. Uma defesa dos copyclaims muito restritiva e enérgica vai naufragar no alicerce das preferências dos consumidores; uma muito frouxa vai naufragar no alicerce das preferências dos produtores.

Segunda história de Tolkien

Vou fechar com uma segunda história sobre Tolkien e sua famosa trilogia. A primeira edição de O Senhor dos Anéis a ser publicada nos Estados Unidos era uma edição pirateada da Ace Books. Por razões que me fogem agora, Tolkien não poderia ter entrado com uma ação legal contra Ace. Mas quando Ballantine veio com sua própria edição de O Senhor dos Anéis americana, oficial e aprovada pelo autor, Tolkien começou uma campanha contra a edição da Ace. A edição da Ballantine foi lançada com um aviso de Tolkien num quadrado verde na contracapa dizendo que essa era a única versão autorizada, e insistindo a qualquer leitor que tivesse respeito a autores vivos que não comprasse qualquer outra. Ainda mais, toda vez que ele respondia a uma carta de um fã americano, Tolkien anexava uma nota de rodapé explicando a situação e pedindo que o remetente espalhasse a notícia entre seus fãs que a versão da Ace deveria ser boicotada.

Mesmo a edição da Ace sendo mais barata que a da Ballantine, ela rapidamente perdeu leitores e saiu de linha. O boicote teve sucesso.

Pode ser objetado que os seguidores de Tolkien tendem a ser mais fanáticos que a média, e portanto não se deveria esperar que uma estratégia de boicote garantisse toda essa lealdade sempre. Realmente é verdade. Mas por outro lado, o boicote de Tolkien era completamente desorganizado; simplesmente consistia em um até então obscuro professor britânico de linguagem e literatura medieval rabiscando respostas a fãs à mão. Imagine quão efetivo um boicote organizado poderia ser!

NT da mesma forma que a ideia de cadeira existe individualmente em cada cadeira, a informação existe individualmente nos vários lugares que é reproduzida (n. do tradutor)

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