09 set, 2015 - Roderick Long -

Montaigne sobre ganhos e perdas4 minutos de leitura

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por Roderick Long

[Este artigo foi publicado para Austro Athenian Empire em maio de 2008. Tradução, revisão e edição de Giácomo de Pellegrini]

Montaigne considerou que o lucro de uma pessoa sempre envolve perda de outra pessoa, e por este apotegma, ganhou uma certa hostilidade de libertários; ver Mises, por exemplo, aqui e aqui. Mas acho que o significado do que disse Montaigne tem sido incompreendido. Quando a citação é retirada do contexto, é fácil supor, em primeiro lugar, que Montaigne está atacando o lucro e segundo, que ele está dizendo que em qualquer parte de um intercâmbio um ganha e o outro perde – assim, a pessoa que lucra, o faz causando a perda de outra pessoa.

Mas quando lida no contexto, o ponto de Montaigne acaba sendo bastante diferente. Aqui está o que Montaigne realmente disse:

Dêmades, o ateniense, condenou um de sua cidade, cujo comércio era vender utilidades para cerimônias fúnebres, sobre o pretexto de que ele exigiu um lucro irrazoável e que esse lucro não poderia ser acumulado com a morte de um grande número de pessoas. Um julgamento que parece mal fundamentado, pois nenhum lucro pode ser obtido sem ser às custas de outrem, e que pela mesma regra ele deve condenar todo e qualquer ganho. O comerciante só prospera pelo deboche da juventude, o lavrador pelo apreço aos grãos, o arquiteto pela ruína de edifícios, advogados e oficiais de justiça por ternos e contendas dos homens: até mesmo a honra e o escritório dos teólogos são derivados de nossa morte e vícios. Um médico não tem nenhum prazer na saúde, nem mesmo de seus amigos, diz um grego antigo escritor de quadrinhos, nem um soldado na paz do seu país, e assim todo o resto.

Em primeiro lugar, então, Montaigne evidentemente não está atacando o lucro, uma vez que ele considera a posição de Dêmades como “mal fundamentada”, pois se ela fosse correta, teríamos que condenar todo tipo de lucro – uma implicação que Montaigne obviamente considera inaceitável. Em segundo lugar, é evidente, a partir dos exemplos de Montaigne, que a perda na qual ele pensou estar relacionada com o lucro não é uma perda que resulta da troca, mas uma que a precede. Seu ponto é que X não seria capaz de ter um lucro de Y se Y já não estivesse sofrendo de algum tipo de necessidade ou falta, na qual X, em seguida, é capaz de aliviar. Não é que Y perde pela troca que se seguiu, mas sim por causa da infelicidade pré-existente de Y que a troca é necessitada.

Montaigne, reconhecidamente, acha esta situação moralmente problemática – não, no entanto, porque ele acha que Y não venha a se beneficiar da troca, mas sim porque a dependência do lucro de X da necessidade de Y, dá a X um interesse em esperar por e valorar a aflição de Y uma consequência moralmente desagradável. E talvez, Montaigne esteja aberto a críticas aqui, por não observar que há um limite para a extensão do sofrimento no qual X pode prudentemente desejar a Y, afinal, por exemplo, X não vai querer que Y seja tão pobre ao ponto de ser incapaz de poder pagar os serviços de X. Mas em qualquer caso, Montaigne não está cometendo um erro econômico elementar que tantas vezes é imputado a ele.

Rousseau, ao discutir essa observação de Montaigne, retira a seguinte moral:

Disto se pode dizer que a sociedade é então formada de tal forma que cada homem ganha servindo aos demais. Isso seria tudo muito bom, caso não se ganhasse ainda mais para se ferir os demais. Não há nenhum lucro legítimo tão grande, que não pode ser ultrapassado grandemente pelo que pode ser feito de forma ilegítima; nós sempre podemos ganhar mais ferindo nossos vizinhos do que lhes fazendo bem.

Mas esta triste conclusão, parece-me que vai muito além de qualquer coisa que Montaigne tenha dito na passagem em questão.

Adendo:

Acontece que Rothbard toma esse caminho também, em uma peça intitulada “O Cético como Absolutista: Michel de Montaigne“. (Mesmo assumindo que ele não seja o ghost-write do “Discurso da Servidão Voluntária“, como alguém poderia interpretar Montaigne como um absolutista está além de mim!) O que é tão frustrante sobre a peça é que Rothbard cita o suficiente da passagem de Montaigne para deixar óbvia que é equivocada a interpretação de anticomércio – e mesmo assim passa a dar a interpretação de anticomércio! Eu amo alguns trabalhos de Rothbard, mas suas interpretações bizarras de seus antecessores (Plotino, Smith, Hayek, etc.) me deixa louco às vezes.

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