14 jul, 2015 - Roderick Long -

Minha Vida Libertária11 minutos de leitura

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por Roderick Long

[Esta pequena autobiografia foi publicada para LewRockwell.com em 2003. Tradução, revisão e edição de Giácomo de Pellegrini.]

Tive sorte o suficiente por ter passado metade da minha vida no movimento libertário, e sou muito grato por ter recebido tanto no caminho da amizade, compreensão, estímulo intelectual, apoio emocional e assistência material de seus membros ao longo dos anos.

Eu devo meu libertarianismo a duas mulheres: minha mãe e Ayn Rand.

Minha mãe, Jorie Blair Long, vem de uma família de pensadores independentes e individualistas, e eu absorvi esses valores no início. Com ela aprendi que pessoas devem confiar em seu próprio julgamento, procurar o seu próprio destino e não ditar os objetivos ou meter o nariz nos negócios dos outros.

As convicções políticas de minha mãe eram individualistas também – a família dela era toda da tradição “Velha Direita” e ferrenhos adversários de Roosevelt – mas esses valores foram inicialmente uma influência na esfera pessoal e não em nível político. De fato, como criança, eu era completamente apolítico. Eu lembro de estar chocado e incrédulo quando, na idade de onze anos mais ou menos, descobri que o governo federal considerava uma caixa de correio privada, construída ou comprada, como uma propriedade federal. (Meu primeiro episódio de indignação libertária!) Mas na maior parte do tempo era totalmente ignorante e indiferente à política e nem sabia quem era o Presidente; os líderes políticos que me interessaram foram Agamemnon, Rei Arthur e Aragorn, filho de Arathorn.

O resultado desta indiferença foi que apesar de ter princípios morais bastante severos, eu realmente não tinha qualquer tipo de princípios políticos. Recordo, por exemplo, redações para aula de estudos sociais do colégio em que eu sustentava que restrições morais não deveriam ser aplicadas numa guerra, e que o direito à greve é inversamente proporcional à sua utilidade social entre outras asneiras. Em minha defesa, posso dizer apenas que sustentei estes pontos de vista com nenhuma convicção particular: havia apenas pensado pouco sobre as perguntas, porque considerava estudos sociais um assunto insuportavelmente chato para se pensar. Eu gostei de ter lido livros como 1984, A Revolução dos Bichos e Admirável Mundo Novo, mas eu não tinha visto eles como um motivo para se questionar as instituições políticas do nosso país.

Embora nunca estive interessado em explorar a aplicação política de meus valores pessoais, a semente tinha sido semeada pela minha educação. A colheita veio em 1979, quando, na idade de 15, eu li um artigo na Starlog Magazine chamado, acho, “A ficção de Ayn Rand”. (Incrivelmente, este artigo agora virtualmente desconhecido foi ilustrado pelo artista famoso de fantasia Boris Vallejo). Suas descrições sobre “Anthem” e “A Revolta de Atlas” me intrigaram e como um leitor ávido de ficção científica decidi conhecê-las.

Para mim, como para tantas outras pessoas de 15 anos antes de mim, A Revolta de Atlas foi um ponto de mudança. A visão de Rand atingiu-me como um clarão de magnésio dissipando imprecisões turvas; ela me converteu não só ao libertarianismo, mas a filosofia como tal. Eu rapidamente comecei a ler todos os outros livros de Rand, tanto ficção quanto não-ficção (vários dos quais minha mãe acabou ficando), então depois comecei a ler os autores que Rand recomendava, os autores dos autores que ela tinha recomendado e assim por diante. Minha educação libertária tinha começado.

Entrei em Harvard no ano de 1981, certamente planejando estudar um pouco de filosofia, mas ainda entretido com pensamentos de me formar em francês, teatro ou escrita criativa, em vez de filosofia. No meu último ano de colegial, tinha feito um curso em Dartmouth sobre filosofia continental, no qual achei como uma forma para ser um intelectual emético; à luz cruel da visão de Rand do mundo acadêmico contemporâneo, eu tinha poucos motivos para esperar o melhor da filosofia analítica. Mas, após meu primeiro curso analítico em Harvard – que foi “Tipos de Teorias Éticas” de Roderick Firth – fiquei viciado. Logo percebi que nenhum outro assunto tinha alguma chance de me atrair e me graduei em filosofia. Embora eu era ainda um quase randiano, nunca deixei minha mente inteiramente em cativeiro de Rand (acho que eu teria durado em seu The Collective quase tanto tempo quanto Rothbard) e eu logo começaria a integrar as ideias que tinha ganho de Rand com as novas ideias que estava aprendendo da filosofia mainstream. Meus interesses acima de tudo foram ética, filosofia da ciência e filosofia grega – especialmente Aristóteles, que começou a deslocar Rand como minha principal musa filosófica.

Minha educação libertária também continuava; na biblioteca estava caçando obras de John Locke, Adam Smith, os Pais Fundadores, Frederic Bastiat, Herbert Spencer, Ludwig von Mises, Henry Hazlitt, Isabel Paterson, Rose Wilder Lane, Murray Rothbard, Robert Heinlein, Tibor Machan, Milton Friedman, David Friedman, George Reisman e Robert Nozick. (Nenhuma de Hayek, por algum motivo – minha introdução à teoria da ordem espontânea só aconteceu através das ciências físicas com cursos sobre “Espaço, Tempo e Movimento” e “Oportunidade, Necessidade e Ordem” do professor de astrofísica David Layzer.) Eu também aprendi muita coisa escrevendo para os jornais libertários e conservadores dos estudantes de Harvard, bem como para o periódico objetivista ERGO que ficava no MIT. Quase tudo que sei sobre direito constitucional foi através de meu colega de quarto libertário/conservador Mark DePasquale. (Eu nunca fiz um curso de Nozick; seu curso “Best Things in Life“, com foco em amor, sexo, e – eu não estou inventando isto – sorvete, soou muito sensível para mim. O pior livro de Nozick, “The Examined Life“, foi um produto desse curso, então eu provavelmente escolhi sabiamente.)

Foi através de um anúncio na Harvard Libertarian que descobri o Institute for Humane Studies. Em 1986, meu primeiro ano de graduação em Cornell, assisti minha primeira conferência IHS. A lista dos professores, para mim, foi um fantástico banquete de doces para o cérebro: Randy Barnett, Walter Grinder, Israel Kirzner, Don Lavoie, Leonard Liggio, Ralph Raico e George Smith. (Lembro de Ralph me perguntando: “Você é um randroide?” Para isso, respondi “Não penso sobre mim como um randroide” – que, como ele salientou de forma bastante razoável, não havia respondido sua pergunta. Então, novamente, se um randroide ou não-randroide admite que é um randroide, certamente segue-se que a questão de Ralph era uma espécie de violação da gramática conceitual). O IHS tem sido uma enorme influência na minha vida; agradeço em particular ao apoio leal de Walter Grinder, diretor acadêmico do Instituto no momento.

Ao longo dos próximos anos, minha contínua associação com o IHS teve vários resultados benéficos (além da ajuda financeira bem-vinda!): introduziu as ideias de Friedrich Hayek em minha evolução intelectual; conectando-me a uma rede inestimável de acadêmicos e instituições libertárias; e isso me radicalizou politicamente. (Sim, o IHS era radical naqueles dias). Em 1987, graças a uma combinação da influência do IHS, do excelente livro “Endless Enemies” de Jonathan Kwitny, dos debates grotescos das primárias do GOP (Bush-Dole-Kemp-Haig-DuPont-Robertson, ugh!) e minha atração crescente para a esquerda cultural, eu finalmente abandonava os hábitos ruins de estilo randiano como a política externa beligerante e o partido republicano. Entrei para o Partido Libertário no dia de ação de Graças de 1987.

Em 1991, durante meu primeiro ano de ensino na UNC Chapel Hill – e perante a loucura em torno da Guerra do Golfo – também comecei a rejeitar a necessidade do Estado. Eu tinha inicialmente resistido ao anarquismo, estava convencido por Isabel Paterson e sua obra “God of the Machine” de que a liberdade poderia ser assegurada apenas através de uma estrutura constitucional; após anos lutando com essa ideia, vejo-me agora como um anarquista de mercado. Eu tinha me tornado o que poderia ser chamado de “rothbardiano de esquerda”. (Quão grande foi essa mudança eu não sei. Quando contei da minha conversão ao anarquismo, minha namorada e minha mãe responderam: “Oh? Eu pensei que você já era um anarquista.”)

Comecei a desenvolver uma filosofia moral e política que sintetizou o que considero serem as principais ideias dos filósofos gregos, escolásticos medievais, Rand, Hayek, Rothbard, filosofia analítica mainstream e a esquerda cultural. (Evidentemente, um guisado improvável para o gosto de qualquer um, mas para meu próprio.)

Através da rede do IHS tive contato com Fred Miller e sua Social Philosophy and Policy Center. Fred me convidou para passar o ano letivo de 1991-92 em licença da Chapel Hill para terminar minha tese de doutorado sobre Aristóteles e indeterminismo; isto me permitiu receber meu Ph.D. em Cornell naquela primavera. Enquanto em Bowling Green me sentei no seminário de pós-graduação de Fred em teoria dos direitos, o que provocou novos rumos no meu pensamento. (Todos os participantes do seminário tentaram por si próprios construir argumentos dedutivos com etapas numeradas derivando direitos libertários do auto-interesse randiano. O meu tinha a distinção de ser o mais longo e estranho). Nos anos subsequentes, Fred ajudou enormemente na minha carreira, generosamente guiando muitos convites de conferência e outras oportunidades no meu caminho.

No seminário de Fred eu tinha defendido o “florescimento” sobre a interpretação de “sobrevivência” do interesse próprio. David Kelley foi outra figura que ajudou um pouco a precipitar minha mudança, ele havia liderado o êxodo das pessoas sãs e agradáveis fora do movimento randiano, convidou-me para seu Institute for Objectivist Studies, de forma que dei várias palestras criticando a ética e epistemologia randiana do meu próprio ponto de vista pós-randiano; estas palestras tornaram-se o meu livro “Reason and Value: Aristotle versus Rand“.

Foi durante meus anos em Chapel Hill que conheci Richard Hammer, um engenheiro de Carolina do Norte, que me enviou seu manifesto “Toward a Free Nation“. Inspirado e frustrado com a história das tentativas para se fundar um novo país libertário, Rich tinha se convencido de que tais projetos não conseguiram, não por falta de potenciais habitantes ou recursos, mas devido à ausência de descrições críveis para instituições relevantes. Impressionado com a sua abordagem equilibrada a qual muitas vezes era um projeto imaturo, envolvi-me com a Free Nation Foundation de Rich, um pequeno think tank dedicado a concepção constitucional libertária. Escrever para FNF e discutir questões com os outros membros me ajudaram a elaborar uma teoria política anarcocapitalista mais plenamente desenvolvida.

Em 1997 tive minha posse negada em Chapel Hill. Embora certamente não pareceu assim na época, esta foi uma das melhores coisas que já me aconteceu – em 1998 vim para Auburn, o departamento de filosofia mais legal do mundo. Aqui logo me encontrei como parte de duas famílias diferentes de racionalistas. Por um lado, havia meus novos colegas, de quem eu iria aprender mais do que tinha aprendido com qualquer filósofo desde a minha graduação. Por outro lado, havia o Ludwig von Mises Institute que tem como sede Auburn, na vanguarda do libertarianismo, em cujos programas Lew Rockwell generosamente me convidou para participar.

Estas duas novas influências estavam prestes a convergir de forma crucial. Através de Kelly Dean Jolley, uma de minhas colegas de departamento, fiquei interessado na abordagem filosófica de Ludwig Wittgenstein (que eu tinha anteriormente descartada como uma variante obscurantista do positivismo); através de Guido Hülsmann e outros no Instituto Mises, interessei-me na praxeologia, tentativa de Mises para estabelecer uma lei econômica apriorística ao invés de uma com base empírica. Logo comecei a ver como estes dois projetos se interligariam de maneiras interessantes entre si e junto com meu interesse permanente em psicologia moral e ética aristotélica. Esta conexão de três vias é atualmente a peça central da minha investigação filosófica e serve como o tema unificador da minha página, praxeology.net.

Então esta é minha história: um randiano aos 15, um membro do LP aos 23, um anarcocapitalista aos 27 e um praxeologista aos 36. (E apesar de todos os itens acima, professor efetivo aos 38!) O que o futuro reserva, não posso dizer (kaleidic, você sabe), mas é uma aposta segura dizer que independente no que estarei trabalhando, terá algo a ver com a ciência da liberdade.

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