26 mar, 2015 - Roderick Long -

Marx e Spencer: Luta mortal entre celebridades4 minutos de leitura

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por Roderick Long

[Esta consideração foi publicada na praxeology.net em abril de 2004. Tradução de Uriel Alexis Farizeli Fiori. Revisão e edição de Giácomo de Pellegrini.]

Recentemente eu topei com um artigo chamado Cooperation Urges de Glen Gibbons. Começa assim:

No Cemitério Highgate de Londres, mais ou menos a meio caminho entre os túmulos de Karl Marx e George Eliot, está uma lápide coberta de mato com o nome Herbert Spencer inscrita nela. As circunstâncias em geral negligenciadas do terreno ecoam o esforço falho de Spencer em aplicar à sociedade humana alguns dos princípios que Charles Darwin esposava para a biologia evolutiva – conceitos tais como a sobrevivência do mais apto e a seleção natural. Consequentemente, o filósofo social inglês do século XIX nunca ganhou o tipo de reconhecimento duradouro concedido a seus vizinhos eternos.

Contra os argumentos de que o progresso humano refletia os benefícios da cooperação e da comunidade, os seguidores de Spencer enalteciam os benefícios de indivíduos e empresas individuais vencendo os menos eficazes entre si, assegurando o lugar dos fortes e extirpando os fracos.

Mas às vezes o mundo não é exatamente tão darwiniano quanto é feito para ser, especialmente nos assuntos humanos. Às vezes as qualidades e os recursos são complementares e sua combinação criteriosa, sinérgica.

E aí o resto do artigo continua a enaltecer os benefícios da cooperação.

A essa altura, eu deveria estar acostumado com tais deturpações de Herbert Spencer – e o artigo de Gibbons nem sequer chega perto de ser um dos mais egrégios nesse sentido. (Vide meu artigo Herbert Spencer: A Difamação Continua assim como Difamando Herbert Spencer? Uma reposta a Edwin Black.) Mas ver Spencer, um dos maiores defensores da história da “cooperação sinérgica” sendo descrito como um oponente de tal cooperação, e o ver ser comparado desfavoravelmente nesse sentido com Marx, de todas as pessoas, é verdadeiramente surreal.

Para Marx, a sociedade é caracterizada por conflitos de interesse inerentes entre classes econômicas, conflitos que, em última análise, só podem ser resolvidos através de revoluções violentas e expropriação; não é coincidência que o principal legado de regimes marxistas tenha sido morte em massa. Para Spencer, em contrapartida, tais ideias pertencem ao modelo equivocado “militar” de sociedade, contra o qual Spencer defendia o modelo “industrial” de cooperação pacífica e benefício mútuo. Quando Spencer fala de “sobrevivência do mais apto” (uma frase que Darwin emprestou de Spencer, e não vice-versa), ele quer dizer que modos cooperativos de interação, sendo “mais aptos”, estão destinados, no longo prazo, a substituir modos conflituosos de interação, e ele considerava o processo social como uma questão de aumentar a fusão entre os interesses das pessoas.

Ele explicou sua opinião repetidas vezes em livros tais como Social Statics, The Principles of Sociology e The Principles of Ethics, mas ele poderia igualmente ter jogado seus livros no oceano, até onde as discussões modernas de Spencer vão; todo mundo está tão certo do que ele disse, do que como um “Darwinista Social” ele deve ter dito, mas ninguém parece ter o trabalho de efetivamente lê-lo.

É enganador, em todo caso, pensar sobre Spencer como aplicando teorias darwinianas à sociedade; o Social Statics de Spencer saiu em 1851, pré-datando o Origin of Species de Darwin em oito anos! Como Friedrich Hayek observa em Law, Legislation, and Liberty:

Foi na discussão de formações tais como a linguagem e a moral, a lei e o dinheiro, que, no século XVIII, os conceitos gêmeos da evolução e da formação espontânea de uma ordem foram pelo menos formuladas claramente, e forneceram as ferramentas intelectuais que Darwin e seus contemporâneos foram capazes de aplicar à evolução biológica. […] Um teórico social do século XIX que precisasse de Darwin para ensiná-lo a ideia de evolução não valia seu sal.

E longe de ser um “esforço falho”, o trabalho de Spencer oferece contribuições bem mais valiosas para o entendimento da sociedade humana do que a obra de pensadores essencialmente reacionários como Marx.

De acordo com Gibbons, o túmulo modesto de Spencer está “coberto de mato” e “negligenciado” em comparação a seu bombástico vizinho Marx porque Spencer “nunca ganhou o tipo de reconhecimento duradouro” de que Marx goza. Seria mais preciso dizer que Spencer ganhou tal reconhecimento, mas ele não o recebeu. Conforme a sociedade contemporânea oscila cada vez mais de volta para o modo “militar” de dirigisme em casa e belicista no exterior, uma reavaliação cuidadosa deste filósofo muito difamado e raramente estudado é há muito devida. (Uma das metas do Molinari Institute é, eventualmente, tornar todos os trabalhos de Spencer disponíveis online.)

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