06 mar, 2015 - Roderick Long -

Mãos Invisíveis e Encantamento: A Mistificação do Poder do Estado55 minutos de leitura

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por Roderick Long

[Este artigo foi publicado para Center for a Stateless Society em julho de 2012. Tradução de Murilo Otávio Rodrigues Paes Leme. Revisão e edição de Giácomo de Pellegrini.]

Intercâmbio é o objetivo do Centro (C4SS – Centro por uma Sociedade sem Estado) em dois sentidos — somos a favor de uma sociedade baseada em cooperação pacífica voluntária e buscamos promover o entendimento por meio de diálogo permanente.

Intercâmbio proporciona oportunidades para troca de ideias acerca de questões importantes para os diversos públicos do Centro. Um ensaio importante, deliberadamente provocativo, será seguido de respostas de pessoas de dentro e de fora do C4SS. Contribuições e comentários de leitores são entusiasticamente estimulados.

O intercâmbio a seguir começou como Simpósio da Sociedade Molinari acerca de Ordem Espontânea programado para o encontro de dezembro de 2010 da Divisão Leste da Associação Filosófica Americana em Boston; quando o evento foi cancelado por causa da neve, o local foi mudado, por amável convite do Instituto Ludwig von Mises, para a Conferência de Acadêmicos Austríacos de março de 2011 em Auburn, Alabama.

* * *

Quando, na teoria social libertária, são invocados mecanismos de mão invisível ou ordem espontânea, eles são apresentados, costumeiramente, como uma alternativa benigna ao poder do Estado. No entanto, há motivos para acreditar que o próprio poder do Estado igualmente depende, para sua manutenção, de mecanismos de ordem espontânea.

De um lado, como já aprendemos de Hayek, há restrições informacionais à capacidade de organizar qualquer sistema complexo por meio de controle consciente apenas; e embora a dependência maior do Estado do racionalismo construtivista possa explicar sua ineficiência relativa, se essa dependência fosse total haveria motivo para esperar que o Estado fosse ainda mais ineficiente do que é.

Por outro lado, como já aprendemos de La Boétie e Hume, o poder do Estado não se mantém e não pode manter-se apenas pela força; como os governantes são tipicamente superados em número por aqueles a quem governam, os Estados de todo tipo — democráticos ou não — só podem manter sua reivindicação de autoridade na medida em que a maioria de seus súditos continue a agir de maneiras que reforcem essa reivindicação.1 Assim sendo, embora todos os Estados com efeito façam ameaça de violência contra seus súditos (isso é implicado por sua condição de monopolistas territoriais de uso e/ou autorização da força), a sobrevivência do Estado requer a indução de aquiescência por parte da população a ele subordinada por meios outros que não apenas tais ameaças.

Ora bem, como veremos, a distinção força/não força de modo nenhum se alinha claramente com a distinção entre ordens construídas e espontâneas; pois a dependência do Estado de meios não violentos de manter-se a si próprio não implica, per se, dependência de mecanismos de mão invisível. E na verdade os estratagemas do Estado para os quais aponta o próprio La Boétie — principalmente patronagem e propaganda ideológica — não são, obviamente, casos de ordem espontânea. Todavia, a dependência do Estado de meios não violentos torna mais saliente o papel dos mecanismos de mão invisível.

O caráter inadequado dos meios violentos para a manutenção do Estado poderia ser objeto de dúvida, obviamente. Afinal de contas, embora La Boétie displicentemente nos diga: “decida não mais servir, e você imediatamente estará emancipado”, esse conselho pareceria colidir com um problema de ação coletiva: se apenas uns poucos indivíduos suprimirem seu apoio enquanto a maioria de seus companheiros vassalos mantiverem sua conformidade, a força do Estado normalmente será bastante suficiente para colocar aqueles primeiros na linha. Assim, parece que o Estado poderia compelir todos pela força, simplesmente compelindo cada um. Embora esse modo de manutenção do Estado pudesse defensavelmente ser visto como mecanismo de mão invisível, dificilmente consistiria num mecanismo não violento. Entretanto a efetividade dos problemas de ação coletiva no tocante a inviabilizarem a desobediência em massa é provavelmente exagerada; quando a disposição do público é forte o bastante, as limitações à ação coletiva parecem evaporar-se, como por exemplo na resistência maciça ao regime Ceauşescu na Romênia em 1989. Quando a opressão não leva a resistência generalizada, pois, é que se torna necessário algum fator explanatório adicional.

Proponho-me fazer algumas sugestões acerca do papel dos mecanismos de mão invisível nos meios pelos quais o sistema de Estado se mantém — tanto o sistema de Estado em geral, quanto a forma específica de sistema de Estado que prevalece nas nações mais industrializadas.

Comecemos pela última. Considero as seguintes duas proposições como razoavelmente bem estabelecidas pela pesquisa econômica, histórica e sociológica de meio século passado ou em torno disso:2

1. A forma de sistema de Estado que prevalece, e historicamente tem prevalecido, na maior parte das nações industrializadas é o corporativismo, aqui entendido como parceria entre o governo hipertrofiado e as grandes empresas. (Quando o governo e as empresas privadas apresentam-se em tal relação de apoio mútuo, considero as empresas privadas como parte do sistema de Estado mesmo que não sejam literalmente parte do Estado.)

2. Na maior parte, políticas do governo e movimentos políticos bem-sucedidos, mesmo quando alardeados e amplamente interpretados como contrários às grandes empresas (por exemplo o Movimento Progressista, o Novo Pacto, a Lei Wagner, a Grande Sociedade, a atual administração Democrata, e a maior parte das políticas rotuladas de “regulamentação” ou “tributação”) ou como contrários ao governo hipertrofiado (por exemplo, a Revolução de Reagan, a Revolução de Thatcher, a Revolução Republicana de 1994, a mais recente administração Republicana, e a maioria das políticas rotuladas de “desregulamentação” ou “privatização”) servem para promover os interesses e o poder de ambos, do governo hipertrofiado e das grandes empresas, a expensas das pessoas comuns e são, geralmente, demonstravelmente selecionados por esse motivo.

Por exemplo, “regulamentação” pretensamente progressista tipicamente cria aros através dos quais grandes empresas estabelecidas podem pular com maior facilidade do que firmas menores ou mais novas (ou indivíduos ou cooperativas menos afluentes), consolidando assim a posição da elite corporativa — e permitindo que suas firmas se tornem ineficientemente grandes e hierárquicas — isolando-as da competição; analogamente, “desregulamentação” pretensamente de livre mercado envolve tipicamente a remoção de restrições legais a recebedores corporativos de privilégios e subsídios do governo, potencializando assim o efeito de tais privilégios e subsídios.

Isto não quer dizer que a hostilidade visível entre governo hipertrofiado e grandes empresas seja inteiramente ilusória. Como entre a Igreja e a monarquia na Idade Média, cada lado gostaria de ser o parceiro dominante, e mesmo políticas que promovem o poder de ambos os parceiros raramente o fazem em grau idêntico ou em termos igualmente aceitáveis para ambos; portanto é de esperar que haja discussão enérgica bastante genuína, entre os dois lados, a propósito das pilhagens (bem como dentro de cada um dos lados, visto que nem o governo hipertrofiado nem as grandes empresas são monolíticos). O recente debate nos Estados Unidos acerca de se elevar os tributos incidentes sobre os 2% mais ricos da população é um caso ilustrativo: embora cada lado tenha divulgado sua própria posição como benéfica para as pessoas comuns (com os conservadores insistindo em que dinheiro deixado nas mãos dos milionários no final fluiria para as massas, e os democratas insistindo em que dinheiro transferido para o Estado Leviatã inchado finalmente fluiria para as massas), a questão essencialmente dizia respeito à distribuição de recursos (em sua maioria os desonestamente amealhados produtos de exploração predatória) entre duas alas da classe dominante. A percepção popular de que a esquerda é favorável a maior grau de intervenção do governo do que os conservadores não mais é defensável; as disputas entre eles, do modo como hoje existem, dizem respeito apenas aos beneficiários da intervenção, não à dimensão dela.

Embora as facções políticas da esquerda e da direita, na medida em que porventura obtenham influência majoritária, tendam a promover versões apenas ligeiramente diferentes das mesmas políticas corporativistas, elas dificilmente obteriam muito apoio popular se ficasse óbvio estarem agindo assim. Portanto as políticas corporativistas de esquerda, para terem sucesso, têm de ser apresentadas como protegendo das grandes empresas as pessoas comuns, enquanto as políticas corporativistas de direita precisam ser apresentadas como protegendo do governo hipertrofiado as pessoas comuns; por meio de uma estratégia que em outro lugar chamei de “policial da esquerda, policial da direita”, aqueles que não acham atraente uma face do establishment corporativista são levados a apoiar a outra face.

E é precisamente isso o que vemos. Tomemos por exemplo outro recente debate nos Estados Unidos, o a propósito dos serviços de saúde. Era do interesse de ambos os lados apresentar a escolha de política como uma escolha entre livre mercado desregulamentado e um  controle, pelo governo, da indústria de serviços de saúde, embora nada parecido com qualquer uma das duas opções estivesse em consideração, e ambos os lados, em realidade, favorecessem alguma variante da aliança Estado-Corporações controladora dos serviços de saúde. Isso não quer dizer que a disputa fosse irreal; embora a proposta de serviços de saúde dos democratas promovesse os interesses tanto do governo hipertrofiado quanto das grandes empresas (pois como poderia uma lei exigindo que todo mundo pague seguro não seria benéfica para a indústria de seguros?), ela modificava ligeiramente a quantidade de poder em favor da estatocracia e em desfavor da plutocracia, e portanto era inaceitável para os republicanos. (Notem que embora o seguro obrigatório individual constituísse afronta muito maior aos princípios de livre mercado do que a opção de saúde pública estatal, foi contra a saúde pública estatal, em vez de contra o seguro obrigatório individual, que os republicanos inicialmente dirigiram a maior parte de seus ataques. Seguramente não é coincidência o seguro obrigatório individual tenha sido uma obrigação que especificamente beneficia as grandes empresas, enquanto a saúde pública estatal teria na prática diluído tal benefício.)

Se os conservadores fossem defensores genuínos dos serviços de saúde de livre mercado, e se a esquerda fosse genuína partidária dos serviços de saúde para os menos aquinhoados, seria de esperar que os víssemos unidos para rejeitar aquelas leis que a) atuam para cartelizar a indústria médica (por exemplo, o monopólio de licenciamento concedido à Associação Médica Americana – A.M.A.), fazendo assim disparar artificialmente o custo dos serviços médicos; b) tornam o mercado de trabalho oligopolista, diminuindo assim, artificialmente, a capacidade das pessoas de pagar (e de negociar coletivamente) serviços médicos; c) deslocam os fundos dos serviços de saúde dos 25% consumido-por-despesas-gerais do setor voluntário para os 75% consumido-por-despesas-gerais do setor coercitivo, diminuindo assim a quantidade de serviços de saúde que alcança os recebedores necessitados; d) transferem o poder de tomar decisões médicas desses indivíduos para órgãos centralizados, aumentando assim o impacto e a abrangência de decisões fatalmente equivocadas e suprimindo os sinais competitivos que permitem a identificação de políticas melhores e piores; e) acabaram com os antigos sistemas de seguro mútuo (basicamente Organizações de Manutenção de Saúde – HMO administradas pelos pacientes em vez de pelas corporações) e deram poder às empresas de seguros a expensas dos pacientes; e f) suprimiram a inovação e a distribuição na indústria farmacêutica em nome da “propriedade intelectual”. Em vez disso, ambos os partidos apoiam firmemente a agenda corporativista.

Ademais, embora cada lado retrate o outro como insidioso e onipresente, para enfatizar a dimensão da perfídia do oponente, ao mesmo tempo cada lado precisa retratar o outro como relativamente novelesco, para evitar colocar o status quo em luz muito questionável. Dê uma olhada em qualquer canal de notícias aleatoriamente, por exemplo, e você ouvirá republicanos resmungando que Barack Obama está destruindo o livre mercado (como se existisse qualquer coisa remotamente parecida com livre mercado para Obama destruir) ou Nancy Pelosi advertindo que o gesto débil do Supremo Tribunal em favor da liberdade de expressão no caso Citizens United tornará os Estados Unidos uma “plutocracia” e uma “oligarquia” (como se os Estados Unidos tivessem alguma vez sido algo diferente). O terreno do debate político majoritário é um panorama fantasmagórico radicalmente desconexo da realidade subjacente.

As prequelas de Guerra nas Estrelas, desconsiderando suas deficiências sob outros aspectos, dramatizam a dinâmica corporativista bastante bem. Sua trama central diz respeito a uma guerra civil entre duas facções — uma, o governo central da galáxia, liderado pelo Chanceler Palpatine, e a outra uma coleção de interesses corporativos (a Federação do Comércio, a Guilda Comercial, o Clã Bancário) liderada pelo Conde Dooku. Contudo, embora os interesses de Palpatine e de Dooku de modo algum sejam harmônicos (cada um tenta esfaquear o outro pelas costas, e um por fim consegue), estão na verdade em conluio mútuo a maior parte do tempo, e a guerra civil é em grande parte um embuste por meio do qual cada parceiro busca enaltecer seu próprio lado, e desse modo a parceria como um todo, mediante retratar o outro parceiro como fonte de problemas (como quando Palpatine invoca a necessidade de defender a República contra a pseudorebelião de Dooku como desculpa para reivindicar expansão de poderes para si próprio).

Entanto, a parceria Palpatine-Dooku é uma conspiração; e, na medida em que a análise libertária do corporativismo se assemelha à trama das prequelas de Guerra nas Estrelas, ela poderia parecer-se com uma teoria da conspiração, que é seguramente o oposto de uma análise em termos de mecanismos de mão invisível. Ou mesmo que “conspiração” não seja exatamente a palavra correta (visto que conspiração implica em segredo, enquanto que grande parte do conluio entre as elites governamental e empresarial seja feito de modo bastante aberto, como por exemplo no caso de interesses corporativos fazendo publicamente lobby e campanha em favor das regulamentações pretensamente contrárias às grandes empresas da Era Progressista), ainda assim faz sentido indagar que papel poderia existir para a ordem espontânea na análise de classes libertária.

Não obstante, embora o papel do conluio consciente na manutenção do corporativismo esteja bem documentado, há (além das bases hayekianas previamente mencionadas) um par de motivos para esperar-se que estejam em ação também mecanismos de mão invisível. Primeiro, um sistema de opressão será mais estável na medida em que seja possível — se não com completa sinceridade, pelo menos via plausível autoengano — aos opressores verem suas ações como moralmente justificadas, o que mais facilmente será o caso se as justificativas oficiais para suas políticas não forem de molde a parecer obviamente falsas para os perpetradores. Não pretendo afirmar, obviamente, que os detentores do poder sejam normalmente inocentes; pelo contrário, as habilidades necessárias, primeiro para ascensão a posições de poder em hierarquias corporativas ou governamentais, e em seguida para exercer as funções de tais cargos uma vez neles, tendem a requerer certa flexibilidade de consciência. Tal flexibilidade, contudo, requer autoengano exceto da parte dos mais consumados vilões; pois, pelo menos percentagem substancial das pessoas no poder precisa aceitar sua própria retórica contrária às grandes empresas ou ao governo hipertrofiado pelo valor de face, o que será mais facilmente conseguido na medida em que a coordenação entre os interesses do governo hipertrofiado e os das grandes empresas seja efetuada por mecanismos de ordem espontânea mais do que por meio de conspiração consciente.

Segundo, precisamos dar conta não apenas da cooperação entre as partes dominantes mas também da cooperação por parte dos governados — o que requer, nota La Boétie, a doutrinação ideológica da população. A combinação de controle corporativo da mídia e controle governamental do sistema de educação pode conseguir grande parte disso mas, repetindo, o sistema dificilmente poderia ter sucesso se exigisse que a maioria dos jornalistas e educadores fosse colaboradora consciente numa conspiração — especialmente uma conspiração da qual a maioria dos jornalistas e educadores deriva benefício relativamente pequeno. Aqui também precisamos dos mecanismos de mão invisível pegando o bastão.

Portanto, em suma, precisamos explicar como as pessoas no poder, de um lado, e jornalistas e educadores, de outro, podem ser levados a promover os interesses de uma parceria entre governo hipertrofiado e grandes empresas sem necessariamente se verem fazendo tal — e também como conseguem fazê-lo impunemente.

Comecemos com o fato de, nas palavras de Jefferson, “a tendência natural das coisas é a liberdade ceder terreno e o governo ganhar terreno.” Para ver como a mera necessidade do governo de ser percebido como “fazendo alguma coisa” acerca de problemas pode levar a expansão indefinida do poder do governo, consideremos o efeito em cadeia visível na recente política de segurança das linhas aéreas:

Um sujeito metido a terrorista faz uma tentativa fracassada de detonar explosivos em seus sapatos, e milhões de passageiros de linhas aéreas são obrigados a doravante tirar seus sapatos em pontos de controle de segurança.

Um grupo de sujeitos metidos a terroristas concebe um plano fracassado para contrabandear explosivos a bordo em vidros de xampu, e milhões de passageiros são obrigados a restringirem-se a pequeninos vidros de xampu em embalagens transparentes.

Outra pessoa metida a terrorista faz uma tentativa fracassada de detonar explosivos em suas roupas de baixo, e milhões de passageiros de linhas aéreas são obrigados a, doravante, ter seus órgãos genitais atingidos por radiação ou apalpados.

Sempre que a atenção do Estado se desloca para a ameaça mais recente, a reação à ameaça anterior permanece vigente; o sistema tem um mecanismo de escalada, mas não tem nenhum mecanismo de desescalada — visto que os custos das políticas do governo são socializados e não internalizados (em outras palavras, porque não se pode declinar da compra dos serviços oferecidos pelo governo). Portanto, os políticos e os burocratas não precisam ter qualquer plano geral para expandir o poder do governo de alto a baixo (embora, obviamente, possam tê-lo); em vez disso, mesmo na ausência de tal plano a estrutura de incentivo inerente ao sistema de Estado leva agentes políticos a tomar decisão individual após decisão individual, tendo como efeito cumulativo tal expansão.

E o que dizer da tendência do Estado de legislar e regulamentar no interesse da elite corporativa? Nesse caso, igualmente, nenhum plano consciente é necessário (embora obviamente possa havê-lo — como sugere a “porta giratória” entre governo e indústria); mesmo que imaginássemos que o governo baixasse sua legislação e sua regulamentação aleatoriamente, sem viés em favor das grandes empresas, o resultado seria muito parecido com o que acontece hoje. Imagine que metade das regulamentações do governo fosse contrária aos interesses dos ricos e a outra metade contrária aos interesses dos pobres; qual seria o resultado? Os ricos são um grupo concentrado detentor de recursos para contratar advogados e lobistas (ou com condições de fazerem contribuições de campanha) para combaterem tais leis; os pobres não têm como. Então, quando tais (para efeito de argumentação) leis aleatoriamente selecionadas atingem o filtro da desigualdade econômica, as leis que prejudicam os ricos enfrentam pressão por revogação ou cumprimento indulgente, enquanto as leis que prejudicam os pobres não; pois, regulamentações “adequadas” são selecionadas e regulamentações “inadequadas” são descartadas.

Ademais, os agentes do governo são desproporcionalmente receptivos a suborno porque os fundos que despendem em favor dos que os subornam não pertencem a eles próprios; se você quiser motivar-me a direcionar um milhão de dólares de meu próprio dinheiro para seu projeto favorito, precisará oferecer-me mais de um milhão, mas se quiser motivar-me a direcionar um milhão de dólares do dinheiro de outra pessoa para seu projeto favorito, bastará dar-me alguns milhares de dólares. Portanto, o poder de tributação e a condição de monopólio territorial potencializam o poder dos ricos (aumentando assim a capacidade deles de subornar, aumentando assim o poder deles ainda mais, num círculo de autorreforço).

O que dizer da propensão da elite corporativa para, antes de tudo, fazer lobby por privilégios e subsídios? Aqui, também, precisamos não assumir nenhuma aderência a qualquer programa geral corporativista; imagine, pelo contrário, que todo agente corporativo importante é sincero e ardoroso proponente da competição livre em geral, mas apenas deseja umas poucas exceções em favor de sua empresa — porque seus próprios projetos sempre parecem excepcionalmente importantes e merecedores de proteção. O resultado seria o mesmo de conluio intencional para promover as políticas corporativistas. (Ademais, tais políticas são autorreforçadoras, visto que aumentam os privilégios da elite corporativa e assim tornam o lobby ainda mais eficaz — outro efeito em cadeia.)

Obviamente sabemos — pois é de domínio público — que muitas pessoas da elite corporativa são a favor, e historicamente foram a favor, de uma agenda corporativista sistemática. Defendo é que esse fator não é estritamente necessário (e provavalmente não está fazendo todo o trabalho); mesmo na ausência de um compromisso intencional com o corporativismo, a estrutura de incentivo do sistema de Estado tem natural tendência de produzir políticas corporativistas.

E quanto à tendência da mídia majoritária de apoiar o sistema corporativista? Os jornalistas da mídia majoritária insistem em que, a despeito da propriedade empresarial de seus veículos de comunicação, sofrerem pequena ou nenhuma pressão de censura indireta de suas notícias. Embora em certos casos essa afirmação soe bastante risível, não tenho dúvida de ser verdadeira grande parte do tempo. O processo de seleção é mais sutil do que isso. Para serem bem-sucedidos, os jornalistas têm de noticiar coisas importantes; e visto qualquer coisa que os poderosos dizem ser importante, o jornalista bem-sucedido precisará ter acesso a porta-vozes do governo e das corporações. Ninguém que sistematicamente questione os comunicados à imprensa da classe dominante gozará do acesso indispensável para tornar-se jornalista importante. Portanto, raramente haverá qualquer necessidade de pressionar jornalistas da grande mídia para que se perfilem na linha do establishment; os jornalistas não inclinados a perfilar-se em tal linha não subirão muito na carreira do jornalismo. (Verdade, um jornalista majoritário poderá, às vezes, não ser censurado nem punido por questionar esta ou aquela política governamental ou corporativa; afinal, a classe dominante não é monolítica, e portanto aquilo que ofende a uma de suas facções poderá gratificar outra. Entretanto, jornalistas com propensão para questionar não algum abuso específico, e sim o sistema enquanto tal, são efetivamente podados.)

A concepção prevalecente de objetividade jornalística também tende a colocar a mídia a serviço do establishment. Como exemplo: estudo recente mostrou que a mídia dos Estados Unidos referia-se sistematicamente ao waterboarding [derramamento de água nas vias respiratórias do torturado tendo como efeito, simultaneamente, sensação de afogamento e ânsia de vômito] como forma de tortura até ser anunciado que o waterboarding era política oficial do governo dos Estados Unidos, a partir de quando tais referências cessaram. Significaria isso que os jornalistas estavam conscientemente exaltando as virtudes dos abusos em direitos civis perpetrados pelos Estados Unidos? Não acho (bem, exceto a Fox News). O que acontece é que, logo que pessoas que os jornalistas consideram importantes começam a defender o waterboarding, torna-se oficialmente controvertido se o waterboarding é forma de tortura e, pois, continuar a referir-se a ele como tal violaria o ideal de objetividade tal como o concebem os jornalistas. Naturalmente a ideia deles de quem deve ser considerado importante simplesmente rastreia os postos de comando do sistema corporativista, e portanto essa decantada “objetividade” na prática funciona como viés pró-establishment da pior espécie. Contudo, a insistência em identificar a objetividade jornalística com recusa a tomar partido numa controvérsia entre pessoas importantes é vigorosamente promovida pelo próprio governo. (Notem a recente avidez das autoridades do governo para explicarem que a agenda política de Julian Assange faz dele um “não jornalista.”)

Quanto aos educadores: na escola primária, os livros escolares tendem a ser selecionados por comissões com conexões políticas. Embora alguns possam pender mais para os Guelfos e outros mais para os Gibelinos, um texto que questione ambos improvavelmente será aceito. As coisas ficam melhores em nível de faculdade e universidade, onde — graças à duramente conquistada e sempre ameaçada liberdade acadêmica — os interesses governamentais e corporativos têm maior dificuldade para determinar o programa. Mesmo assim, porém, a influência de comissões governamentais de credenciamento e de ricos curadores dificilmente é mínima.

Tais explicações, contudo, só nos levam até certo ponto. Há uma mistificação ideológica em ação aqui que vai além do que pode ser explicado só pela pressão institucional de seleção. Como já vimos, versões de direita e de esquerda de políticas corporativistas, embora diferindo apenas minimamente no tocante aos interesses daqueles fora da classe dominante, são alardeadas como contrárias ao governo hipertrofiado e às grandes empresas, respectivamente, e para os que não se agradam de um lado é oferecido o outro como antídoto. A pergunta óbvia, contudo, é: como são os governados levados a irem na conversa? Como os conservadores continuam a manter sua reputação como adversários do governo hipertrofiado por mais maciçamente que o Estado inche sob sua liderança? Como a esquerda continua a manter sua reputação de adversários das grandes empresas por mais subsídios, socorros financeiros e privilégios de monopólio que concedam a seus compadres corporativos? Ou, numa pergunta conexa, como a esquerda continua a manter sua reputação de facção contrária à guerra não importa quantos civis eles bombardeiem até reduzi-los a frangalhos? Por que tão poucas pessoas notam a discrepância entre a retórica e a conduta real, de ambos os lados?

O discurso político contemporâneo em geral tem uma qualidade surreal, de Alice no País das Maravilhas. Conservadores rotulam Obama de marxista por ele perseguir políticas praticamente indistinguíveis das de seu predecessor republicano. Ele, ademais, recebe um Prêmio Nobel da Paz de um lado, e acusações de ser simpatizante dos islamistas do outro, ao mesmo tempo em que se submerge até seus cotovelos metafóricos no sangue de crianças paquistanesas. Sarah Palin pede o assassínio de Julian Assange enquanto continua a posicionar-se como defensora da liberdade individual contra ameaças do governo hipertrofiado. A redistribuição de riqueza pelo governo é atacada ou defendida como se tal redistribuição fosse invariavelmente de cima para baixo, a despeito do fato de a vasta maioria de tal redistribuição ser manifestamente de baixo para cima. Ronald Reagan, que compeliu a aceitação do até então maior aumento de impostos da história, é louvado pela direita e vilipendiado pela esquerda como inimigo de altos impostos. John F. Kennedy, cujas principais realizações políticas foram cortes de impostos e jogos nucleares com a União Soviética, cujo principal legado foi a Guerra do Vietnã, e que teve de ser arrastado esperneando e berrando para fazer algo em favor dos direitos civis, torna-se um ícone de esquerda. Os libertários advertem, a plenos pulmões, que as políticas do governo estão criando uma bolha habitacional — só para lhes dizerem, quando a bolha explode, tanto que a bolha era imprevisível quanto que os libertários é que têm a culpa por causá-la. Se isso fosse filme de ficção científica, teríamos de assumir que todas essas pessoas estavam sob algum tipo de controle mental. Qual é a explicação para todo esse comportamento grotesco?

Mais cedo descrevi o terreno do debate político majoritário como “panorama fantasmagórico radicalmente desconexo da realidade subjacente.” No entanto esse panorama fantasmagórico étransparente; a realidade subjacente é, ou deveria ser, perfeitamente visível através dele. Embora espionar conversas secretas ou garimpar documentos secretos possa trazer importantes detalhes à luz, isso não é, em realidade, necessário; o funcionamento básico do sistema corporatista está, em sua maior parte, à vista. Nada crucial está oculto. O que preserva a ilusão não é um encobrimento e sim um hábito da mente.

Wittgenstein famosamente destacou que, quando pessoas normalmente sensatas dizem coisas malucas, obviamente falsas — tal como apenas parte de mim existe neste instante, ou não podemos perceber diretamente mesas e cadeiras — é porque elas estão sendo prisioneiras de uma imagem. Isso é tão verdade em política quanto em metafísica ou epistemologia. A seguinte passagem de A Estrutura das Revoluções Científicas, de Thomas Kuhn, é útil neste ponto:

Bruner e Postman pediram a sujeitos de experimento que identificassem em exposição curta e controlada uma série de cartas de baralho. Muitas das cartas eram normais, mas algumas foram tornadas anômalas, por exemplo, um seis de espadas vermelho e um quatro de copas preto. […] No caso das cartas normais essas identificações foram usualmente corretas, mas as cartas anômalas foram quase sempre identificadas, sem aparente hesitação ou perplexidade, como normais. O quatro de copas preto poderia, por exemplo, ser identificado como o quatro ou de espadas ou de copas. Sem qualquer percepção de problema, a carta era imediatamente encaixada numa das categorias conceituais preparadas por experiência prévia. […] Com aumento adicional de exposição às cartas anômalas, os sujeitos começaram a hesitar e a mostrar consciência da anomalia. Expostas, por exemplo, ao seis de espadas vermelho, algumas pessoas diziam: Esse é o seis de espadas, mas há algo errado nele — o preto tem borda vermelha. […] Alguns sujeitos […] nunca foram capazes de efetuar o ajuste necessário de suas categorias.3

Em outras palavras, uma mente acostumada a funcionar dentro de certo arcabouço conceitual terá dificuldade para reconhecer desvios em relação às categorias desse arcabouço; se a expectativa é a de que os conservadores se opõem ao governo hipertrofiado e a esquerda às grandes empresas, isso será o que a pessoa verá. E mesmo se detectada evidência em contrário, será desqualificada como inessencial.

Considere outra passagem de Kuhn:

Desde a antiguidade remota a maioria das pessoas viu um ou outro objeto pesado balançando de um lado para o outro numa corda ou corrente até finalmente ficar imóvel. Para os aristotélicos, que acreditavam os objetos pesados serem movidos por sua própria natureza de uma posição mais alta até chegarem a um estado de repouso natural mais abaixo, o corpo em balanço estava simplesmente caindo com dificuldade. Limitado pela corrente, ele só conseguia atingir o estado de repouso em seu ponto baixo depois de tortuoso movimento e tempo considerável. Galileu, por outro lado, olhando para o corpo em balanço, viu um pêndulo, um corpo que quase conseguia repetir o mesmo movimento outra e outra vez ad infinitum. […] Quando Aristóteles e Galileu olhavam para pedras em balanço, o primeiro via uma queda dificultada, o segundo via um pêndulo […].4

Aristóteles e Galileu observaram, ambos, os mesmos dois fatos — que a pedra continua a balançar durante certo tempo, e que finalmente ela fica pendurada diretamente no ponto mais baixo. Para Galileu, contudo, o balanço era a coisa essencial, e sua cessação era meramente acidental, um fenômeno de fricção; enquanto para Aristóteles o processo rumo a um estado de repouso era a coisa essencial, e as perturbações laterais no caminho eram o acidente. Do mesmo modo, para as pessoas que funcionam dentro do arcabouço conceitual que vê a oposição conservadora ao governo hipertrofiado e a oposição da esquerda às grandes empresas como o essencial, e os desvios dessa normalidade como acidentais, evidência de apoio conservador ao governo hipertrofiado e apoio da esquerda às grandes empresas, não importa quão extenso, será desprezado como inessencial — algo a ser notado ocasionalmente, e comentado como “irônico” ou “anômalo” (ou desculpado como medida de emergência, como se fosse algo excepcional) antes de ser esquecido.

Há um popular e divertido desenho animado na internet, “O Aplaudidor do Livre Mercado5, que retrata as grandes empresas como pró-mercado em momentos favoráveis e pró-intervenção em momentos desfavoráveis. Tal modo de retratar é o equivalente de ver um seis de espadas vermelho como seis de espadas preto com borda vermelha; representa consciência apenas parcial da narrativa ilusória do conflito empresas/governo. Pois a verdade revelada pela análise econômica e histórica é que as grandes empresas são pró-intervenção nos momentos favoráveis e nos desfavoráveis — que elas devem sua posição privilegiada a contínua e sistemática violência do Estado.

A ofuscação que estou descrevendo pode ser bem-sucedida até no tocante àqueles que se poderia esperar serem menos susceptíveis a ele. Considere como, a partir da direita não-majoritária, pessoa professadamente partidária do livre mercado como Ayn Rand pode chamar as grandes empresas de “minoria perseguida,” ou como, a partir da esquerda não-majoritária, um anarquista professor como Noam Chomsky pode insistir na necessidade de curto prazo do Estado como baluarte contra o poder corporativo, embora Rand e Chomsky tenham cada um documentado por meio de sua própria pesquisa a dependência do poderio das empresas do privilégio concedido pelo Estado.6 É como se com uma parte de suas mentes eles estejam apontando com horror para a concessão, pelo governo, de privilégios para as empresas, ao mesmo tempo em que em outra parte de suas mentes o mito da oposição entre grandes empresas e governo hipertrofiado esteja-se reafirmando, levando-os a desprezar tal favoritismo como fenômeno insignificante de fricção e portanto permitindo que ou o poder das empresas (para Rand) ou o poder do Estado (para Chomsky) assuma aspecto relativamente benigno que a própria obra deles contradiz.

Contudo, ao explicarmos a invisibilidade do corporativismo mediante apelo a um arcabouço conceitual ilusório, estamos apenas adiando a pergunta: qual é a origem desse arcabouço conceitual? Vê-lo como surgindo unicamente da inculcação consciente de falsa consciência ideológica por parte de jornalistas e educadores seria atribuir às profissões do jornalismo e da educação majoritários como um todo a lucidez diabólica de um Fu Manchu. Na verdade, radicais de diversas cores políticas frequentemente tenderam a achar essa uma hipótese tentadora. Ela, porém, não se sustenta; não há no mundo Fu Manchus bastantes para fazê-la funcionar.7 O mecanismo para manutenção da mistificação ideológica corporativista não pode depender unicamente do racionalismo construtivista.

Como, então, consegue o embuste ser perpetrado, se os embusteiros estiverem em grande parte não cônscios de o perpetrarem? A esta altura é de valia distinguir entre regulamentação primária e secundária. Por regulamentação primária denoto o padrão básico de violência do Estado essencial para criar e sustentar o sistema corporativista como um todo; denomino regulamentação secundária uma camada adicional, opcional, de intervenção por sobre aquela primeira. A regulamentação secundária frequentemente tem o efeito de redirecionar os benefícios da regulamentação primária; por exemplo, uma regulamentação primária pode conceder a empresa nominalmente privada privilégios especiais (como quando fundos de garantia de depósitos permitem a bancos socializar seus riscos de investimento; ou leis de zoneamento, taxas de licenciamento, e exigências de capitalização segregarem competidores menos afluentes fora do mercado; ou rodovias financiadas por impostos e outros subsídios ao transporte dão às superlojas vantagem competitiva em relação a produtores locais), e em seguida uma regulamentação secundária pode ser introduzida para colocar restrição aos poderes assim concedidos à elite corporativa. Tais restrições secundárias são alardeadas como de interesse das pessoas comuns; por vezes o são e por vezes não, dependendo das circunstâncias, mas funcionam precipuamente para deslocar um pouco de poder da ala plutocrática para a estatocrática da classe dominante.

Quando a esquerda e conservadores embatem-se a propósito de regulamentação, é quase sempre a regulamentação secundária que está em questão; e é a tendência relativa dos conservadores (embora de modo nenhum sem exceções) de oporem-se a regulamentação secundária que lhes rende a reputação de contrários à regulamentação. A regulamentação primária é em grande parte invisível por ser parte das condições ordinárias do plano de fundo; ela é tão imperceptível quanto o ar. Assim, nenhum projeto consciente é necessário para disfarçar a natureza e os efeitos da regulamentação primária.

Como, por exemplo, George W. Bush não é expulso do pódio de tanta chacota ao proclamar solenemente que a recente crise financeira compeliu-o a pôr de lado seus princípios de livre mercado — como se, retórica à parte, ele jamais tivesse mostrado qualquer evidência de ter tais princípios, e como se distribuir recursos do governo a compadres corporativos fosse alguma espécie de desvio da rotina? Como Alan Greenspan não é igualmente expulso do pódio de tanta chacota ao dizer que a mesma crise financeira abalou sua fé nos princípios de livre mercado — quando ele passou a carreira inteira dirigindo intervenção agressiva na economia, e quando a crise financeira em questão foi provocada por um sistema bancário oligopolista por ele superintendido, e por uma bolha habitacional que suas próprias políticas de manipulação das taxas de juros desempenharam papel direto em criar?8 A resposta é que, na cultura e no discurso político contemporâneo as expressões “livre mercado,” “laissez faire”, e “capitalismo” significam apenas — tanto para seus opositores quanto para seus putativos defensores — preferência em recorrer a regulamentação primária largamente não restringida por regulamentação secundária. Esse discurso não oferece nenhum meio de dirigir a atenção para uma posição que se oponha à própria regulamentação primária. Assim, a súbita adesão de Bush e de Greenspan à regulamentação secundária só pode aparecer — para a pessoa média, e possivelmente até para Bush e Greenspan eles próprios (quem sabe?) — como distanciamento das políticas de livre mercado a favor das quais eles eram anteriormente.

A invisibilidade da regulamentação primária analogamente permite à dinâmica “policial da esquerda, policial da direita” manter-se sem a necessidade de decepção consciente da parte de qualquer pessoa. (Repetindo, não estou negando a existência de tal decepção; nego apenas que ela seja necessária ou suficiente em si.) Aqueles a quem não agrada a ideia de regulamentação do governo e acham a ideia de uma ordem social voluntária ética ou pragmaticamente superior serão tangidos para a posição de “livre mercado” — mas quando essa posição for tornada indistinguível de apoio a regulamentação primária relativamente não restringida por regulamentação secundária, essa será a causa na qual eles inadvertidamente se alistarão, e assim terminarão como soldados rasos da ala direita ou plutocrática da classe dominante. Por outro lado, aqueles que repudiam a realidade do privilégio corporativo e o sofrimento e a desigualdade que ele acarreta identificarão o “livre mercado” como o principal culpado, e assim terminarão como soldados rasos da ala esquerda ou estatocrática da classe dominante. Portanto a dissidência em relação a qualquer aspecto do sistema é canalizada para apoio ao sistema como um todo, e opções políticas fora do sistema são tornadas tanto invisíveis quanto indizíveis.

Até agora discuti os meios pelos quais uma forma particular de sistema de Estado — o sistema corporativista no qual vivemos — mantém-se. Há porém perguntas mais amplas acerca de como qualquer forma de sistema de Estado consegue manter-se. Quais são as tarefas que a ideologia estatista tem de desempenhar?

Para começar, as autoridades do Estado reivindicam direitos que negam a seus súditos, e potencializam essa reivindicação por meio de violência e ameaça de violência. (Qualquer organização a respeito da qual isso não for verdade não deterá a condição de monopólio essencial à condição de Estado.) Como tal conduta é prima facie incompatível com os padrões ordinários de moralidade — particularmente em culturas que rejeitam doutrinas de desigualdade inerente entre governantes e governados (como o direito divino dos reis) — a violência do Estado terá de ser tornada invisível, para disfarçar a afronta à igualdade humana que ela representa. Não é de surpreender, pois, que os estatistas tão frequentemente tratem “os éditos governamentais como se eles fossem encantamentos, passando diretamente do decreto ao resultado, sem a inconveniência dos meios.”9

Disfarçar os decretos do Estado e sua implementação violenta com o traje do encantamento e, assim, ignorar o desagradável trajeto do decreto até chegar ao resultado atende a dois propósitos. Primeiro, como já vimos, isso disfarça a imoralidade do estatismo. Segundo, porém, também disfarça a ineficiência do estatismo. Há, nas culturas estatistas, uma tendência de pensar, primeiro, que promulgar uma política governamental decretando que X acontecerá, automaticamente conta como fazer algo em favor de X e, segundo, que não promulgar uma política governamental decretando que X acontecerá, automaticamente conta como não fazer algo em favor de X. Essa postura mental, que obviamente tende a promover soluções estatistas em detrimento de soluções voluntárias para problemas sociais, é reforçada pela concepção encantada da ação do Estado.

No entanto, embora, por um lado, a violência do Estado precise ser tornada invisível para disfarçar sua imoralidade e sua ineficiência, por outro lado sua eficácia depende precisamente de os súditos do Estado estarem totalmente conscientes do apelo à violência que escora os éditos do Estado. Como podem essas duas exigências ser conciliadas? Como escrevi em outro lugar:

O estatismo só pode manter sua plausibilidade mediante implicitamente projetar uma espécie de grotesca paródia da doutrina católica da transubstanciação: do mesmo modo que pão e vinho precisam ser transformados em sua essência no corpo e sangue de Cristo a fim de desempenharem seu necessário papel espiritual, enquanto ao mesmo tempo precisam conservar seus acidentes externos de pão e vinho para desempenharem seu indispensável papel prático, assim também a violência do Estado, para ser justificada, tem de ser transubstanciada em sua essência em encantamento pacífico, embora ao mesmo tempo, para ser eficaz, precisa conservar os acidentes externos de violência. (Essa sacralização da violência do Estado explica como proponentes do controle de armas, por exemplo, podem ver a si próprios como opositores da violência, quando ao mesmo tempo estão ameaçando cidadãos pacíficos com violência maciça e sistemática.)10

Ademais, até o próprio uso da violência pelo Estado tem sua eficácia exagerada pelo modelo encantado; há a tendência de ser leniente com a ilegalidade inocente com base na assunção de que se o Estado decretar que tal ilegalidade deva ser punida isso significará que tal atividade realmente será punida — embora a maior parte da ilegalidade, inocente ou não, escape inteiramente da punição do Estado.

Como, porém — por que meios — é essa mistificação ideológica conseguida, se desejamos evitar explicações que apelem unicamente para a doutrinação intencional? Como pode algo bastante simples e direto — algumas pessoas restringindo as opções de vida de outras pessoas mediante ameaçarem-nas sistematicamente de violência — assumir essa aura de encantamento e transubstanciação?

Aqui, suspeito de o principal culpado ser simplesmente o desejo humano comum de evitar enfrentar o conflito entre o que a pessoa acha ser pragmaticamente necessário e o que acha ser moralmente correto. A maior parte das pessoas, a maior parte do tempo, lida com as demais pessoas com base em princípios libertários; na vida cotidiana geralmente não assaltamos nossos vizinhos, não impomos nossas ideias ou moralidade pessoal a eles, não dizemos a eles onde permitiremos que eles façam compras ou o que permitiremos que eles leiam, nem de qualquer outro modo os recrutamos para nossos projetos. O Estado, porém, como monopólio territorial com poder de tributação, necessariamente viola essa moralidade libertária cotidiana. Por outro lado, se acreditarmos que o Estado é necessário, relutaremos em aceitar a aplicação direta de nossa moralidade às ações de nossos governantes. O desejo de justificar a coerção que a moralidade cotidiana ordinariamente condena — de convencer a nós próprios de que este furto não é realmente furto, de que este assassinato não é realmente assassinato — está na raiz de ampla variedade de mitos políticos: mitos de inferioridade racial e de gênero, mitos de corpo social místico, mitos de legitimação democrática, mitos de punição por ofensas imaginadas, e mitos de “contratos sociais” sem na verdade ter havido o consentimento de ninguém. (O “contrato social” tem com efeito o mesmo caráter transubstancial que os encantamentos do Estado têm; ele visa a veicular todos os efeitos espirituais do consentimento real sem a inconveniência de ter-se de obter tal consentimento na realidade física.)

Se porém a justificativa encantada/transubstancial da violência do Estado assenta-se na necessidade de conciliar a necessidade putativa do Estado com a moralidade que o condenaria, isso apenas posterga ainda mais a pergunta: de onde nasce essa crença na necessidade do Estado? Todo serviço para o qual o estado pretensamente seria necessário já foi historicamente prestado por meios não violentos e voluntários; na verdade, mesmo quando os serviços são oficialmente prestados pelo Estado, o papel do Estado é geralmente de parasita, em vez de substituto, da prestação normal não violenta.11 Assim sendo, o que — à parte a doutrinação intencional, que estamos pondo de lado — cria a ilusão da necessidade do Estado?

Creio que parte da resposta vem de Hayek: a ilusão do racionalismo construtivista.12 A ordem é uma das deixas pelas quais reconhecemos a presença de intenção e, pois, somos facilmente levados à assunção de que onde quer que encontremos ordem necessariamente haverá propósito consciente. (Essa é a mesma dinâmica que impele o criacionismo.) O problema das mãos invisíveis é que elas são, ora, invisíveis.

Outra parte da resposta é nossas próprias longas infâncias. Organismos mais inteligentes têm maior capacidade de aprender, e portanto relação aprendizado-instinto mais elevada (visto que ter um padrão de comportamento embutido de nascença interfere na capacidade de adquirir outro). Portanto os organismos mais inteligentes têm menos instintos, e portanto precisam de mais tempo para aprender, e portanto requerem infâncias mais prolongadas — isto é, período mais longo de desamparo durante o qual precisam de proteção e treinamento proporcionados por seus pais. O resultado é que os organismos mais inteligentes necessariamente começam a vida com maior dependência de autoridade paternalista e portanto são especialmente susceptíveis de nostalgia dela.

Uma terceira parte da resposta é a distinção de Bastiat entre o “o que se vê” e o “o que não se vê”. Pois que grande parte da argumentação em favor de uma ordem social voluntária está baseada no que o Estado proíbe mais do que no que ele causa, muito daquilo para o que apelam libertários e anarquistas ficará, no centro da argumentação, invisível.

Finalmente há um tentador equívoco analisado por Wittgenstein. Repetindo, como já escrevi em outro lugar:

O opositor da anarquia […] incorre no mesmo erro que Wittgenstein diagnostica em seu paradoxo da observância de regras: o erro de supor a possibilidade, e/ou a necessidade, de uma regra autoaplicável. Do mesmo modo que alguém pode inicialmente ser lançado em vertigem intelectual por não conseguir localizar algum item mental que por si só garanta seu próprio significado independentemente de como seja aplicado por esse alguém na prática, o opositor da anarquia é lançado em vertigem diante do pensamento de um sistema legal destituído de qualquer componente que, por si próprio, garanta ordem social independentemente de como seja aplicado por agentes humanos. Do mesmo modo que é tentador pensar que minha compreensão de uma regra é algo independente de minhas ações, algo que me faz comportar-me de determinada maneira, é igualmente tentador pensar que um sistema legal social seja algo externo a essa sociedade que a torna ordeira.13

A ilusão metafísica […] é o hábito de pensar acerca das restrições constitucionais (controle mútuo dos poderes, separação dos poderes, etc.) como se essas estruturas existissem em si próprias, como limitações externas sobre a sociedade como um todo. Em realidade, porém, essas estruturas só existem na medida em que são continuamente mantidas em existência por agentes humanos agindo de certas maneiras sistemáticas. Uma Constituição não é qualquer robô impessoal, miraculosamente capaz de impor-se por si próprio. É um padrão de comportamento em andamento, e só persiste na medida em que agentes humanos continuem a conformar-se a esse padrão em suas ações.14

Venho oferecendo algumas sugestões acerca dos mecanismos de ordem espontânea pelos quais sistemas de Estado em geral e os corporativistas em particular mantêm-se a si próprios. Será que essas explanações proporcionam qualquer base para estratégias de resistência?

Creio que sim. O anarquismo é a única filosofia política que não requer, para sua implementação, a captura do aparato do Estado por meios quer eleitorais quer revolucionários — pois a intenção é subtrair apoio popular ao Estado, e não colocar novo pessoal encarregado dele. Faz mais sentido usar meios voluntaristas para combater o Estado do que usar meios governamentais para combater o Estado; afinal de contas, o intercâmbio voluntário é a área da ordem espontânea benigna, que não há porque não ficar do nosso lado. Nas palavras de Paul Goodman: “Uma sociedade livre não pode ser a substituição de uma ordem antiga por uma ‘nova ordem;’ ela é a extensão de esferas de ação livre até que constituam a maior parte da vida social.”15 Ou como expressa Gustav Landauer: “O Estado é um relacionamento entre os seres humanos, uma forma pela qual as pessoas se relacionam umas com as outras; e o destruímos ao entrarmos em outros relacionamentos, ao nos comportarmos diferentemente uns em relação aos outros.”16 Portanto, a primeira tarefa do libertário tem de ser a contraeconomia (isto é, grosseiramente, criar instituições alternativas para desalojar o Estado) em vez de política eleitoral.17

Ademais, visto que os padrões de atividade hoje existentes são sustentados por modelos conceituais que tornam informações cruciais invisíveis, a segunda tarefa do libertário tem de ser a educação, e especificamente educação que chame a atenção para o invisível. Lembre-se dos sujeitos de experimento descritos por Kuhn, os quais submetidos a exposição curta classificaram cartas anômalas como normais, e em exposições ligeiramente mais longas reconheceram a presença da anomalia mas não conseguiram entendê-la (identificando espadas vermelhas como espadas pretas com bordas vermelhas, por exemplo). Felizmente essa não foi a história toda. Embora alguns dos sujeitos na verdade “nunca foram capazes de fazer o ajuste necessário de suas categorias,” esse resultado não foi típico. Em vez disso:

Aumento adicional da exposição resultou em ainda maior hesitação e confusão até que finalmente, e por vezes muito subitamente, a maioria dos sujeitos efetuou a identificação correta sem hesitação. Ademais, depois de fazer isso com duas ou três das cartas anômalas, houve pouca dificuldade adicional com as outras.18

Portanto, aquilo que é tornado invisível por um modelo conceitual dominante pode tornar-se visível se for chamada a atenção para ele com frequência suficiente.

Como é que os libertários se têm saído no tocante a essas duas tarefas? Eu diria que a abordagem aqui recomendada representa uma posição minoritária dentro do movimento, embora crescente. No tocante à primeira tarefa, excessivo número de libertários continua a focalizar mais fortemente a política eleitoral do que ação direta e a construção de instituições alternativas. Com relação à segunda tarefa, demasiado número de libertários continua a aferrar-se ao minarquismo em vez de ao anarquismo, ajudando assim a reforçar o sistema de Estado em geral; além disso, demasiados libertários continuam a, analogamente, aferrar-se a um quadro oposicional do relacionamento entre grandes empresas e governo hipertrofiado, ajudando assim a reforçar o sistema de Estado corporativista em geral. Toda vez que um libertário de livre mercado entra em modo randiano, entoando loas ao Walmart ou à Microsoft — para nomear dois especialmente odiosos beneficiários de privilégio estatal — o efeito é expandir o sistema corporativista via sua ala plutocrática. (Analogamente, toda vez que um anarquista social entra em modo chomskyano e defende o Estado como baluarte contra o poder corporativo e um ganancioso “livre mercado,” o efeito é expandir o sistema corporativista por meio de sua ala estatocrática. Na verdade, nós os da esquerda libertária19 tendemos a ser categorizados por nossos vizinhos ideológicos de modo muito parecido com aquele que os sujeitos de Bruner e Postman categorizaram as cartas anômalas, forçando o não familiar a caber em caixas mais familiares; assim somos frequentemente denunciados pelos libertários de direita como socialistas contrários ao mercado, e pelos anarquistas sociais como apologistas dos chefes capitalistas.)

Tais fracassos dos libertários, porém, são em verdade boa notícia. Pois significam que há mais motivo para otimismo do que inicialmente parecia haver. As coisas não acontecem como se viéssemos usando nossas armas mais poderosas contra o estatismo e mesmo assim estivéssemos levando pontapés no traseiro. Pelo contrário, nossas armas mais poderosas têm permanecido, em sua maioria, no arsenal.

[Notas]

1 La Boétie [1576] 2003, Hume [1758] 1985; cf. Pierre Bourdieu: “Toda dominação simbólica pressupõe, da parte daqueles que se submetem a ela, uma forma de cumplicidade que não é nem submissão passiva a constrangimento externo nem adesão livre a valores” (Bourdieu 1991, pp. 50-51; citado em Butler 1997, pp. 134-5).

2 Ver, por exemplo: Beito 2000; Bernstein 1968; Brecher 1977; Buhle 1999; Carney 2006; Carson 2001, 2004, 2007, 2008, 2009, 2010a, 2010b; Chartier 2011; Chartier and Johnson 2011; Childs 1971; Domhoff 1970, 1990; Ekirch 1967; Grinder and Hagel 1977; Herman and Chomsky 1988; Higgs 1987, 2006; Horowitz 1967, 1969; Hughes 1977; Johnson 2007b; Kolko 1963, 1965, 1969, 1988; Martin 1975; Oglesby and Schaull 1967; Richman 2010; Rothbard 1972, 2007; Rothbard and Radosh 1972; Ruwart 2003; Sciabarra 2003; Shaffer 1996; Sklar 1988; Stromberg 2001; Weaver 1988; e Weinstein 1968; bem como o material no website da Aliança da Esquerda Libertária (all-left.net) e do Centro por uma Sociedade sem Estado (c4ss.org). A análise do presente ensaio assenta-se fortemente nessa pesquisa. Aqueles que estejam procurando um ponto de partida para se aprofundarem no tema poderão começar por Chartier e Johnson 2011, e Parte 2 (capítulos 4-8) de Carson 2007.

3 Kuhn [1962] 1996, pp. 62-63.

4 Ibid., pp. 118-121.

5 Fiore 2008.

6 Cf. Long 1998, 2008b.

7 E até Fu Manchu, se alguém ler nas entrelinhas das histórias originais, dá a impressão de compreensivelmente tentar proteger a Ásia do imperialismo ocidental.

8 Cf. Long 2008c.

9 Long 2001.

10 Ibid.

11 “Uma sociedade anarquista, uma sociedade que se organiza sem autoridade, está sempre em existência, como uma semente debaixo da neve, sepultada sob o peso do Estado e de sua burocracia, do capitalismo e seu lixo, do privilégio e suas injustiças, do nacionalismo e suas lealdades suicidas, das diferenças religiosas e seu separatismo supersticioso. […] Longe de ser visão especulativa de uma sociedade futura, [o anarquismo] é descrição de um modo de organização humana, enraizada na experiência da vida diária, que funciona lado a lado com, e a despeito das, tendências autoritárias dominantes de nossa sociedade.” (Ward [1973] 1992, p. 14; cf. Beito 2000; Bell 1992; Benson 1990; Stringham 2007; Wooldridge 1970.)

12 Hayek 1948, 1973, 1979.

13 Long 2006, pp. 44-45; cf. Long 2010.

14 Long 2008a, p. 140.

15 Citado em Ward [1973] 1992, p. 14.

16 “Estadistas Fracos, Povo Fraco,” Der Sozialist, 1910; citado em Graham 2005, p. 165.

17 Konkin 1980.

18 Kuhn, op. cit., p. 63.

19 Refiro-me ao espectro de posições relacionado originalmente com o Movimento da Esquerda Libertária de Konkin e mais recentemente com seu sucessor influenciado por Konkin e Carson, a Aliança da Esquerda Libertária, bem como ao Centro por uma Sociedade sem Estado, e não à posição diferente, neogeorgista, defendida sob esse rótulo por Peter Vallentyne e outros.

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