08 abr, 2015 - Roderick Long -

Libertarianismo de Esquerda: Seu Passado, Seu Presente, Sua Perspectiva8 minutos de leitura

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por Roderick Long

[Este é um resumo/proposta aceito para um paper que foi apresentado no workshop da MANCEPT 2014 sobre “O atual estado da filosofia libertária”, em 8-10 de setembro de 2014, em Manchester UK – oportuno desde que o libertarianismo de esquerda do C4SS tem sido descrito como um Manchesterism consistente. Tradução, revisão e edição de Giácomo de Pellegrini.]

Na última década, uma forma de pensamento, geralmente chamada de “libertarianismo de esquerda” tornou-se cada vez mais proeminente e debatido em círculos libertários, certamente atraindo uma vigorosa crítica.1 Esta forma de libertarianismo de esquerda não deve ser confundida com a posição de mesmo nome associado a Peter Vallentyne, Hillel Steiner e Michael Otsuka, na qual combina autopropriedade (a parte libertária) com algum tipo de propriedade comum dos recursos naturais (a parte de “esquerda”). Dentro do amplo movimento libertário, “libertarianismo de esquerda” normalmente se refere não à posição Vallentyne-Steiner-Otsuka, mas a uma combinação de movimentos com a) um componente radical – na maioria dos casos na verdade anarquista – comprometido com mercados livres, propriedade privada e laissez-faire; b) um componente com orientação para a análise de classe e uma rejeição dos locais de trabalhos hierárquicos, da dominância corporativa e da desigualdade econômica bruta como males análogos e largamente sustentados pelo estatismo (especialmente pelas regulamentações que permitem as corporações favorecidas colherem os benefícios das economias de escala enquanto socializam os custos de deseconomias de escala), a favor da organização horizontal e autogestão do trabalhador; e c) um componente com preocupação ao combate às formas de privilégio social, como o patriarcado e misoginia, a supremacia branca, a heteronormatividade e homofobia, o sexismo e o capacitismo, sendo tudo isso, novamente, como males análogos ao estatismo e com relações sólidas de apoio mútuo com ele. Oposição ao militarismo, ao nacionalismo e suporte ao ambientalismo e as fronteiras abertas também fazem parte da mistura.

Este movimento leva seu rótulo de libertarianismo de esquerda não a partir do uso comparativamente recente por Vallentyne et al. mas da “esquerda libertária” que emergiu da aproximação muito breve entre libertarianismo de livre mercado e a Nova Esquerda (New Left) que ocorreu na década de 1960 e 1970 através do trabalho de autores como Roy Childs, Karl Hess, Murray Rothbard, Carl Oglesby e Samuel Konkin. Mas enquanto suas raízes se encontram no libertarianismo de esquerda da década de 1960 e 70, o libertarianismo de esquerda atualmente tem tomado uma forma distinta através das contribuições de escritores como Kevin A. Carson2, Gary Chartier3, e Charles W. Johnson4, e é representado por organizações como a Alliance of the Libertarian Left, a Center for a Stateless Society, e também por sites como Rad Geek People’s Daily e Invisible Molotov.

Hoje os libertários de esquerda retiram ideias de sociais-anarquistas de um lado e dos anarcocapitalistas de outro (embora cada uma destas duas fontes de inspiração tende a descartar o libertarianismo de esquerda como uma frente para o outro). Mas os libertários de esquerda estão mais próximos das posições pró livre-mercado, anticapitalista e antiprivilégio dos anarquistas individualistas do século XIX como Stephen Pearl Andrews, Voltairine de Cleyre, William B. Greene, Ezra Heywood, Thomas Hodgskin, Lysander Spooner, Benjamin Tucker e Josiah Warren. (Muitos desses pensadores, apesar de sua devoção aos mercados livres, consideravam-se “socialistas”, devido à sua oposição ao privilégio capitalista. Andrews, Greene, Spooner e Warren foram membros do ramo americano da Primeira Internacional antes dos marxistas apagarem qualquer vestígio individualista da organização.) Uma inspiração adicional vem de Chris Matthew Sciabarra5, cujo trabalho traça afinidades entre o trio improvável de Karl Marx, Friedrich Hayek e Ayn Rand e sublinha a importância das sistemáticas conexões dialéticas entre fenômenos políticos, econômicos e culturais – embora tanto o esquerdismo de Sciabarra quanto seu libertarianismo tendem a mais moderação do que as versões defendidas pelos libertários de esquerda.

Libertarianismo de esquerda não deve ser confundido com o Libertarianismo Bleeding-Heart (BHL). Na medida que o BHL representa uma fusão dos compromissos de livre-mercado com as preocupações de justiça social da esquerda, o libertarianismo de esquerda pode ser definido como um subconjunto do BHL; mas libertários de esquerda tendem a ser mais radicais, tanto em seu esquerdismo quanto em seu libertarianismo, do que a maioria das pessoas que se identificam automaticamente como proponentes do BHL. (Dos quinze principais contribuidores para o mais proeminente blog BHL, apenas dois são libertários de esquerda, no sentido aqui discutido.) A maioria dos proponentes do BHL parecem ver seus compromissos libertários e seus compromissos de esquerda, até certa medida, como um moderando o outro; libertários de esquerda, por outro lado, tendem a ver os seus compromissos libertários e esquerdistas como um reforçando o outro.

Por exemplo, muitos BHLs moderam seu libertarianismo quando endossam a aprovação de uma lei de rendimento mínimo garantido, já os libertários de esquerda tendem a considerar tal lei como ferramenta na qual a classe dominante impõe disciplina sobre os mais pobres.6 Da mesma forma, muitos BHLs moderam seu esquerdismo, defendendo sweatshops (fábricas de suor) como uma opção “menos ruim” para pobres trabalhadores; libertários de esquerda concordam com BHLs que a proibição das sweatshops prejudica os trabalhadores, mas ao invés de elogiá-las, eles são a favor do esforço para minar as estruturas sociais e políticas que sistematicamente privam trabalhadores empobrecidos de melhores opções do que essas fábricas. Libertários de esquerda tendem a ver as instituições econômicas existentes como muito mais deformadas, no sentido da desigualdade e privilégio, pela intervenção do Estado do que a maioria dos proponentes do BHL. Ao mesmo tempo, libertários de esquerda tendem a olhar com maior entusiasmo o movimento trabalhista e os sindicatos. A maioria dos BHLs também apoiam as reformas nas instituições através do processo político, no entanto, libertários de esquerda tendem a dar menos ênfase ao lobby da política eleitoral, dando mais ênfase em favor das organizações de base. Pode-se dizer que, se o objetivo dominante do BHL é uma fusão de Hayek com Rawls, o objetivo dominante dos libertários de esquerda é uma fusão de Murray Rothbard com David Graeber.

Um conceito frequentemente associado ao libertarianismo de esquerda é o do “thick libertarianism7 – a ideia de que existem certos compromissos de valor que, embora não logicamente decorrentes de princípios libertários, são, no entanto, atados ou conceitualmente ou causalmente com esses princípios de forma a torná-los partes de uma defesa libertária razoável. Por exemplo, alguns desses compromissos adicionais podem ser partes de, ou implícitos, a uma defesa mais razoável do libertarianismo, ou podem ser necessários a fim de escolher entre formas alternativas de aplicação de princípios libertários, ou uma forma de fazer uma ordem social libertária realizável ou sustentável. Para a maioria dos defensores do thick libertarianism, isso não significa que aqueles que rejeitam tais compromissos não sejam libertários; mas isso significa que o libertarianismo não estaria totalmente concretizado.

Thick libertarianism não é intercambiável com o libertarianismo de esquerda, através daqueles que veem o libertarianismo como exigindo para a sua implementação, digamos, uma ordem social de deferência às classes superiores (Sim, há tais libertários!) iria ser thick, mas não de esquerda. Mas a maioria dos libertários de esquerda veem tais valores de “esquerda” como o feminismo, o antirracismo, e o radicalismo trabalhista tão densamente atados com o princípio libertário, tanto por motivos conceituais quanto causais.

Neste artigo vou traçar as origens do libertarianismo de esquerda, descrever seu lugar dentro do movimento e defender sua abordagem como superior (por motivos de consistência), tanto para as versões não-esquerda do libertarianismo quanto para versões não-libertárias de esquerdismo.

Revelação: Eu próprio sou um participante do movimento que estou descrevendo. Eu sou um co-fundador da Alliance of the Libertarian Left, um parceiro sênior no Center for a Stateless Society e um dos acima mencionados entre os dois libertários de esquerda que contribuem para o blog Bleeding Heart Libertarian. Então, deduza pontos para objetividade, mas adicione ainda mais pontos para familiarmente informado sobre o assunto!

[Notas]

1 Para alguns exemplos de crítica ao libertarianismo de esquerda dentro do amplo movimento libertário – alguns civis e pensativos, outros apaixonadamente hostis – consulte:
http://mises.org/journals/jls/20_1/20_1_5.pdf
http://mises.org/journals/jls/22_1/22_1_8.pdf
http://www.lewrockwell.com/2014/05/dan-sanchez/the-perils-of-thick-thinking
http://therightstuff.biz/2013/09/09/exercises-in-degeneration-the-c4ss-experience
http://www.christophercantwell.com/2014/03/18/left-libertarians-worse-racists

2 Studies in Mutualist Political Economy, 2nd ed. (BookSurge, 2007); Organization Theory: A Libertarian Perspective (BookSurge, 2008); The Homebrew Industrial Revolution: A Low-Overhead Manifesto (BookSurge, 2010).

3 The Conscience of an Anarchist: Why It’s Time to Say Good-Bye to the State and Build a Free Society (Cobden Press, 2011); Anarchy and Legal Order: Law and Politics for a Stateless Society (Cambridge, 2012); Radicalizing Rawls: Global Justice and the Foundations of International Law (Palgrave Macmillan, 2014); ed., com Charles W. Johnson, Markets Not Capitalism: Individualist Anarchism Against Bosses, Inequality, Corporate Power, and Structural Poverty (Minor Compositions, 2011).

4 Liberty, Equality, Solidarity: Toward a Dialectical Anarchism, Roderick T. Long e Tibor R. Machan, eds., Anarchism/Minarchism: Is a Government Part of a Free Country? (Ashgate, 2008), pp 155-288; cf. este co-editado volume Markets Not Capitalism na nota anterior.

5 Marx, Hayek, and Utopia (State University of New York Press, 1995); Total Freedom: Toward a Dialectical Libertarianism (Penn State University Press, 2000); Ayn Rand: The Russian Radical, 2nd ed. (Penn State University Press, 2013).

6 Veja, por exemplo, The UBI: Another Tool for Disciplining the Poor.

7  Veja o clássico: Libertarianism through Thick and Thin.

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