19 maio, 2016 - Roderick Long -

O legado da Grécia Antiga para a liberdade: Um conto de duas cidades7 minutos de leitura

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por Roderick Long

[Este artigo foi publicado em 26 de agosto de 2015 para o libertarianism.org. É a quinta parte da série O legado da Grécia Antiga para a liberdade. Tradução, edição e revisão de Giácomo de Pellegrini]

Hesíodo pensava que cometer uma injustiça poderia trazer a ira dos deuses, mesmo na caótica e violenta “Era de Ferro”.

Homero, como sabemos, fez o contraste entre o modo de vida bélico e o modo de vida pacífico através de sua descrição, na Ilíada, das “duas cidades” retratada no escudo de Aquiles.1 Um contraste similar ocorre em “Os Trabalhos e os Dias” (Works and Days) de Hesíodo, mas como é típico da didática de Hesíodo, com um esboço moral mais explícito.

Por um lado, nos é mostrada uma malvada cidade cujos habitantes são “violentos e cruéis”, e onde a “Justiça é arrastada forçosamente” por “homens corruptos”, que “julgam seus casos através de decisões tortas” – sem dúvida, são como aqueles juízes que Hesíodo acusa como subornados para favorecer Perses em sua disputa judicial com ele. Por outro lado, Hesíodo apresenta uma cidade virtuosa, onde juízes “emitem decisões corretas ao seu próprio povo e aos estranhos”. Os destinos das cidades, do mesmo modo, são diferentes: aqueles da cidade justa se saíam bem: “a cidade floresce” sob o reinado da “Paz, que leva os meninos à masculinidade”; enquanto para aqueles da cidade injusta, Zeus “ordena a punição”, para que a Justiça “traga uma maldição sobre todos os desviantes”. Assim, a “Justiça acaba ganhando da violência […] no final”.2

É realmente um tema geral em Hesíodo o qual “o homem que faz o mal para outro homem faz o mal a si mesmo”3 – ou, em outras palavras, as virtudes e o vícios retornam sobre si mesmo apropriadamente como recompensas e punições.

Se qualquer homem pela força das suas mãos ganha uma grande fortuna […]

e rapidamente os deuses acabam com aquele homem […]

com todos estes Zeus em pessoa está com raiva, e no fim

ele fará com que paguem um preço amargo por suas injustas decisões.4

Em muitos casos, o mecanismo pelo qual as pessoas têm o que merecem é um nexo de causalidade puramente natural, como quando Hesíodo adverte Perses ao fato daqueles que entram em falência terão dificuldades para pedir emprestado em uma próxima vez.5 Muitas vezes é assim mesmo quando o mecanismo causal é descrito em termos sobrenaturais, como quando Hesíodo promete que o “trabalho duro” fará com que “a ilustre e galardoada Deméter” (deusa da colheita) “encha seu celeiro com a substância da vida”6, ou quando incentivos econômicos para competir na oferta de bens e serviços são personificados como uma manifestação da benigna anciã Éris.7

Outro exemplo é o poder do hábito – o simples fato de que numa “escalada rápida até o primeiro lugar” faz você se tornar “descontraído […] quando chega ao cume”, enquanto “se você escalar pouco a pouco, fazendo isso vezes suficientes, estes pequenos passos podem torná-lo grande” – o qual Hesíodo descreve como um “caminho para a virtude” criada por “imortais” e isto impacta sobre o caráter e reputação como o produto das abstrações personificadas “Oferecer” e “Reter”.8 Em todos estes casos, a maneira como as causas produzem os efeitos é clara e inteligível, mesmo sem as referências teológicas.

Mas também há muitos casos em que o mecanismo causal ligando virtude com recompensa e vício com punição parece ser puramente sobrenatural, com nenhuma incorporação correspondente em processos familiares e compreensíveis:

Frequentemente uma cidade inteira sofre o castigo por um homem mau

que comete crimes e planos imprudentes. Sobre as pessoas

o filho de Cronos (Zeus) através dos céus inflige grande sofrimento,

fome e peste a todos; pessoas morrem e a população diminui. […]

Vocês também barões, não poderiam compreender por si mesmos

como a Justiça funciona? Pelos imortais tão perto de nós, que se misturam

com os homens, e estão cientes que por decisões tortas

outros homens sofrem, e não se importam sobre o que os deuses pensam disso. […]

Cuidado, barões, com tais espíritos. Endireitem suas decisões

seus corruptos. Expulsem de suas mentes essa justiça deturpada.9

No entanto, a “fome e peste” não são a pena natural para um crime da forma que a pobreza é a pena natural por ociosidade; a “fome e peste” representam, em vez disso, uma retribuição puramente sobrenatural. Elas são uma retribuição deste mundo, não uma punição pós-morte em outra “vida”, e a previsão de Hesíodo a qual tais males cairá sobre os ímpios é empiricamente testável – e os resultados não são obviamente a seu favor.

Isto é especialmente contraditório em Hesíodo porque sua visão para a justiça em geral parece ser pragmática ao invés de idealista. Violência, por exemplo, é rejeitada como uma estratégia excessivamente arriscada, uma vez que é “mau para um homem fraco”, e “nem um nobre pode carregar levemente o fardo dela”.10 Além disso, Hesíodo está bem ciente de que o injusto muitas vezes parece florescer, e ele admite que “é difícil para um homem ser justo, se o homem injusto se dá bem”; então, ele diz, “eu não seria justo entre os homens nem teria porque meu filho ser” se não tivéssemos a crença de que “Zeus vê tudo” e “não deixaria que acabasse dessa forma”.11

O otimismo de Hesíodo de que tudo acabará oportunamente bem, de que a “Justiça vence a violência […] no final”, é difícil de conciliar com sua convicção de que ele vive em uma Era de Ferro, onde o caos social reina e só vai piorar:

Com mão forte, um homem deverá procurar a cidade de outro.

Não haverá nenhum favor para o homem que mantém seu juramento […]

ao contrário, homens deverão dar seu louvor à violência […]

O homem vil estará melhor com sua multidão lá fora […]

E lá não haverá defesa contra o mal.12

Como pode Hesíodo prometer de que a boa vontade prevalecerá sobre o mal ao mesmo tempo que profetiza que o mal, lá fora, ganhará cada vez mais espaço sobre o bem? Se a vontade de Hesíodo para ser “justo entre os homens” ou que “o [seu] filho também seja” depende, como ele afirma, de uma ligação divinamente garantida entre a justiça e a virtude – e se, como ele também parece admitir, esta ligação agora não é confiável e se tornará pior conforme a Era de Ferro se deteriora – então o que faz Hesíodo se manter no caminho da virtude? E como a cidade justa de Hesíodo pode estar melhor que a sua cidade injusta?

Para ser claro, Hesíodo nos assegura que a justiça divina eventualmente trará um fim à Era de Ferro: “Zeus destruirá esta geração dos mortais também”.13 Mas isto não dá a Hesíodo razão alguma para esperar qualquer alívio em sua vida; daí vem seu desejo de “morrer antes [da Era de Ferro], ou nascer depois”.14 (para citar o título de um conto de Tolstoi: “Deus vê a verdade, mas espera.”) Além disso, se é mesmo verdade que “uma cidade inteira sofrerá castigo por causa de um homem mau”, então que benefício um indivíduo ganha por manter uma conduta justa se ele vai ser penalizado pela injustiça dos outros? A fragilidade potencial desse tipo de defesa pragmática de Justiça que encontramos em Hesíodo é aquela que Platão depois vai criticar e procurar melhorar, com sua obra “A República”.

1. Homero, Ilíada 18. 490-606.
2. Hesíodo, Works and Days 217-239; Richmond Lattimore, trans., Hesíodo: The Works and Days; Theogony; The Shield of Herakles (Ann Arbor: University of Chicago Press, 1959). Uma terceira comparação entre cidades violentas e cidades pacíficas, inspirada pesadamente na descrição de Homero do escudo de Aquiles, é encontrada no supostamente Escudo de Hesíodo de Héracles; mas a maioria dos estudiosos modernos considera esta obra como uma composição tardia e não como um trabalho de Hesíodo.
3. Works and Days 265.
4. Works and Days 320-334.
5. Works and Days 349-356.
6. Works and Days 299-306.
7. Works and Days 11-26.
8. Works and Days 289-292, 356-361.
9. Works and Days 240-264.
10. Works and Days 213-215.
11. Works and Days 267-273.
12. Works and Days 189-201.
13. Works and Days 180.
14. Works and Days 175-177.

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