10 jun, 2015 - Roderick Long -

Friedrich Nietzsche, Paleoconservador?6 minutos de leitura

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por Roderick Long

[Este artigo foi publicado para praxeology.net em novembro de 2003. Tradução, revisão e edição de Giácomo de Pellegrini.]

Em um artigo entitulado “The War of Perverted Religion” publicado no site de Lew Rockwell*, Bob Wallace oferece uma caracterização da filosofia de Nietzsche com a qual me sinto impelido a questionar. De acordo com Wallace, Nietzsche pensou que a “morte de Deus” – na qual Matthew Arnold chamou de “melancolia, longa, retirando o rugido” da fé – viria a ser um mal catastrófico para a humanidade. A perda da crença religiosa entre as elites culturais, graças a “250 anos de uma ciência que tinha atacado agressivamente a religião”, iria inaugurar uma nova era do racionalismo na qual a fé na ciência substituiria a fé em Deus. Mas os seres humanos ainda se sentiriam culpados e sem um Deus para perdoá-los por essa culpa, eles transformariam essa culpa em ódio a si e aos outros, levando-os ao conflito bárbaro – “guerras como nunca aconteceram na terra”. Então para Wallace, Nietzsche foi um profeta que previu que a ascensão do secularismo no século XIX levaria à ditadura e ao assassinato em massa do século XX. Quase poderíamos pensar a partir desse retrato de Wallace que Nietzsche era um defensor da fé religiosa.

Acredito que este resumo inverte a causa e o efeito na análise social de Nietzsche. Da forma que Wallace lê Nietzsche, o racionalismo científico leva ao ateísmo, que leva a maior culpa, que leva ao ódio a si e aos outros. Mas como Nietzsche diz em “A Genealogia da Moral” e em outros lugares, seria mais correto dizer que o ódio a si e aos outros leva a culpa, que leva à crença religiosa, que leva ao racionalismo científico, que leva ao ateísmo, que leva ao alívio da culpa.

De acordo com Nietzsche, a moralidade no sentido cristão surge entre as populações que são subjugadas e oprimidas. Incapaz de se vingarem realmente de seus opressores, oprimidos contentam-se com uma vingança imaginária; o ódio se acumula dentro deles quando eles constroem uma imagem de seus opressores, e depois se acumula contra todos aqueles que são fortes, livres e felizes, como pecadores e merecedores de castigo divino. Nascem as noções de culpa, o livre-arbítrio, céu e inferno. Da ideia de um Deus vingativo e moralista nasceu a doença psicológica dos oprimidos.

Uma vez que a realidade é interpretada em termos religiosos, a verdade se torna identificada com Deus. Crentes religiosos valorizam a Verdade porque a Verdade é divina. O racionalismo científico – a busca obstinada da Verdade não importando o quão impopulares são suas conclusões – assim nasce da piedade cristã. O racionalismo científico, então, volta-se a sua origem e refuta as ideias de Deus e do livre-arbítrio; as noções de pecado, culpa e ressentimento começam a diminuir. Minando suas fundações religiosas, o racionalismo científico também mina a si próprio; se a Verdade não é divina, a dedicação para isso não precisa ser tão intransigente.

Para Nietzsche, então, a morte de Deus inaugura não uma idade de racionalismo científico e elevada culpa e ressentimento, mas uma idade em que o ressentimento, culpa e racionalismo científico começam a murchar.

Na opinião de Nietzsche, no entanto, a era pós-culpa poderia tomar qualquer uma das duas formas. Poderia levar à mentalidade heroica, como “afirmação da vida”, mentalidade que Nietzsche identifica como o “além do homem”; ou, ao invés, poderia levar para o “último homem” – ou seja, ao niilismo, estagnação, e o tipo de sociedade de massa que Nietzsche identifica indiferentemente como socialismo e libertarianismo. O veredito da História ainda não chegou. Mas ele espera que a opção “além do homem” pode ser iminente e por este motivo que ele comemorou a morte de Deus como um evento glorioso, embora também perigoso. De fato, Nietzsche prevê uma era de individualismo excitante, perigosa, saudável ou do coletivismo democrático chato, seguro, doente. Nenhuma das opções corresponde muito de perto os regimes totalitários assassinos em massa do século passado. Nietzsche previu a vinda de “guerras como nunca aconteceram na terra”, mas sua previsão não era que elas seriam as mais sangrentas da História, apenas que seriam as mais importantes. Por comparação, todas as batalhas anteriores foram lutadas com um custo muito baixo. O ponto de Nietzsche aproxima-se em espírito à citação de Rand: “Uma batalha política é meramente uma escaramuça lutada com mosquetes; uma batalha filosófica é uma guerra nuclear”. Assim, está longe de ser evidente que Nietzsche tenha previsto as guerras genocidas do século XX; na verdade, não está claro que Nietzsche falava de guerras num sentido militar. Já o horror niilista que ele temia e poderia vir no futuro pode servir tanto ao assassinato em massa quanto ao contentamento bovino do “último homem”. Eu não sustento qualquer interpretação contra ou a favor disso. Acredito que as ideias de Nietzsche, como aquelas da maioria dos grandes filósofos, são uma mistura de insights e incorreções profundamente entrelaçadas. Mas eu acredito que é um erro retratar Nietzsche como se ele fosse um conservador cultural, alarmado com os efeitos insidiosos do secularismo. Afinal, Nietzsche termina seu “O Anticristo” com a proclamação:

Condeno o Cristianismo, lanço contra a Igreja Cristã a mais terrível de todas as acusações que qualquer acusador já proferiu. Ela é para mim a maior de todas as corrupções concebíveis; seu desejo é perpetrar a última corrupção que seria possível. A Igreja Cristã não deixou nada intocado pela sua corrupção; transformou todo valor em um não-valor, toda a verdade em mentira, cada integridade em uma vileza da alma. […] Eu chamo o Cristianismo de uma grande maldição, uma grande e mais íntima corrupção, um grande instinto de vingança, para o qual nenhum meio é venenoso, furtivo, subterrâneo, baixo suficiente – eu chamo isto de uma mancha imortal da humanidade […] E o tempo é contado a partir dos dias nefastos com que esta calamidade começou – após o primeiro dia do Cristianismo! Por que não preferir após seu último dia? – Depois de hoje?

Estas são palavras duras de um pensador que considera a morte do Cristianismo como uma terrível calamidade para a humanidade. Wallace também escreve que ele “nunca foi considerado [Nietzsche] um filósofo no sentido tradicional da palavra”, já que ele “nunca escreveu sobre universais ou epistemologia ou qualquer um dos outros tópicos que geralmente os filósofos falam”. Na verdade, Nietzsche teve um pouco a dizer sobre questões metafísicas e epistemológicas, embora em sua própria maneira inimitável: ver, por exemplo, seu discurso em “Verdade e Mentira no sentido extra-moral”, “Dos preconceitos dos Filósofos” na obra “Além do Bem e do Mal”, e “Razão em Filosofia” na obra “Crepúsculo dos Ídolos”. E o brilhante mini-ensaio de Nietzsche “Como o mundo verdadeiro se tornou uma fábula”, também na obra “Crepúsculo dos Ídolos”, que demonstra incisivamente o caráter autorrefutável do antirrealismo metafísico.

* O artigo foi retirado do site de Lew Rockwell, o link disponibilizado aqui é uma cópia do artigo disponível em outro blog.

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