27 jan, 2015 - Roderick Long -

Escape desses Genes6 minutos de leitura

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por Roderick Long

[Este artigo foi publicado para praxeology.net em setembro de 2002. Tradução de Uriel Alexis Farizeli Fiori. Revisão e edição de Giácomo de Pellegrini.]

Teorias sociobiológicas alegando diferenças geneticamente baseadas em, por exemplo, aversão a risco entre homens e mulheres, ou preferência temporal entre negros e brancos, têm ganhado uma ampla audiência, e têm mesmo sido dado crédito por alguns adeptos da praxeologia, a ciência a priori da ação humana. Mas me parece que são precisamente considerações praxeológicas que tornam tais teoria indefensáveis.

Em Ação Humana, a principal declaração da praxeologia no último século, Ludwig von Mises demoliu as pretensões do “polilogismo”, a doutrina de que as leis fundamentais do pensamento diferem de um grupo biológico, cultural ou socioeconômico para outro. Várias décadas mais cedo, o lógico Gottlob Frege havia demolido com igual efetividade a falácia relacionada do “psicologismo”, a doutrina de que as leis do pensamento dependem de fatos empíricos sobre a psicologia humana. (Veja, Anti-Psychologism in Economics: Wittgenstein and Mises, artigo sobre praxeologia para uma defesa dos argumentos de Mises e Frege.)

Mises concluiu:

Nenhum dos fatos fornecidos pela etnologia ou pela história contradizem a afirmação de que a estrutura lógica da mente é uniforme em todos os homens de todas as raças, idades e países. (…) O conteúdo dos pensamentos do homem primitivo difere do conteúdo de nossos pensamentos, mas a estrutura formal e lógica é comum a ambos.

Mas defensores da sociobiologia podem bem alegar que eles estão afirmando uma fundação biológica apenas para o conteúdo do pensamento, não para sua forma, e portanto não estão entrando em conflito com os argumentos de Frege­-Mises. Isso tira eles do gancho?

Algumas teses sociobiológicas – embora na minha opinião sejam terrivelmente implausíveis – podem ser consistentes com a praxeologia. Mas eu não vejo como a alegação de que o grau de aversão ao risco ou de preferência temporal é geneticamente determinado pode resistir ao escrutínio praxeológico.

A aversão ao risco e a preferência temporal afetam as preferências do indivíduo no sentido praxeológico­,­ isto é, não apenas aqueles desejos ou impulsos que ele sucede de ter, mas as ordenações de valor que são manifestas em suas ações. Então, se o grau de aversão ao risco ou de preferência temporal de um indivíduo é inato, isto significa que ele já está estabelecido, não apenas que ele terá certos desejos, mas que ele fará certos tipos de escolhas.

Contudo, isto nega o livre arbítrio. Se já está estabelecido pelos meus genes o quão avesso ao risco, ou quão preferente temporal (se isso é uma palavra) eu vou ser em minhas escolhas futuras, como eu posso me considerar como tendo livre arbítrio?

Infelizmente para a sociobiologia, a negação do livre arbítrio é praxeologicamente incoerente. O ato da escolha logicamente pressupõe uma suposição da parte do escolhedor que as opções entre as quais ele está escolhendo estão ambas abertas. Mas isto equivale à suposição de que não está estabelecido, por seus genes ou pelo que for, qual opção ela vai escolher. Consequentemente, o livre arbítrio tem um status axiomático; estamos automaticamente comprometidos em afirmar sua verdade a cada escolha que fazemos (mesmo a escolha de negar, ou de tentar negar, o próprio axioma). Se segue que não podemos coerentemente supor que já está estabelecido qual o grau de aversão ao risco ou de preferência temporal que será manifesto em nossas ações futuras. (Está estabelecido a priori que nossa taxa de preferência temporal será positiva -­­ Mises provou isso -­­ mas não qual precisamente será essa taxa.) Quer eu possa ou não controlar minhas preferências psicológicas (isto é, quais desejos eu possuo), eu ainda posso controlar minhas preferências praxeológicas (isto é, sobre quais desejos eu escolho agir).

O sociobiólogo poderia responder que o que está estabelecido pelos genes de um indivíduo não são quaisquer ações em particular, mas apenas uma tendência geral. Mas tal resposta seria ambígua entre duas possibilidades:

Possibilidade Um: Suponha que eu tenha uma tendência inata a escolher X sobre Y. Agora, isso poderia significar que embora eu não vá sempre escolher X sobre Y, eu vou fazê­-lo em, digamos, 75% das instâncias futuras. Mas isso também parece incompatível com o axioma do livre arbítrio; se já está estabelecido que eu vou escolher X sobre Y 75% do tempo, então eu não sou realmente livre para planejar minha conduta futura. Como Ayn Rand observou em A Revolta de Atlas:

Um livre arbítrio selado com uma tendência é como um jogo com um dado viciado. Força o homem a lutar através de todo o esforço de jogar, a assumir a responsabilidade e a pagar pelo jogo, mas a decisão está pesada em favor de uma tendência que ele não teve qualquer poder de escapar. Se a tendência é de sua escolha, ele não pode possuí-­la ao nascer; se não é de sua escolha, seu arbítrio não é livre.

Possibilidade Dois: Agora, como o Aristotélico do século XVII Pietro Pomponazzi apontou, certamente há um sentido de “tendência” que é perfeitamente compatível com o livre arbítrio: poderia se dizer “seu presente padrão de atividade é tal que, se continuar, você se comportará de tal e tal maneira”. Isso não apresenta qualquer obstáculo ao livre arbítrio porque depende da pessoa se o padrão de atividade de fato vai continuar. E tal tendência pode muito bem ser inata no sentido de que é uma tendência com a qual a pessoa começa. Mas ela não pode ser inata no sentido mais forte de ser uma tendência que a pessoa carrega consigo por toda sua vida; pois uma vez que a pessoa muda seu padrão de atividade, então não é mais verdadeiro sobre ela que “seu presente padrão de atividade é tal que (…)” -­­ e portanto ela não mais tem a tendência.

A hélice dupla não é um par de algemas. Nossos genes não determinam nosso destino. Nós o fazemos.

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15 abr, 2014 - Sem categoria -

Escape desses Genes5 minutos de leitura

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Teorias sociobiológicas alegando diferenças geneticamente baseadas em, por exemplo, aversão a risco entre homens e mulheres, ou preferência temporal entre negros e brancos, têm ganhado uma ampla audiência, e têm mesmo sido dadas crédito por alguns adeptos da praxeologia, a ciência a priori da ação humana. Mas me parece que são precisamente considerações praxeológicas que tornam tais teoria indefensáveis.

Em Ação Humana, a principal declaração da praxeologia no último século, Ludwig von Mises demoliu as pretensões do “polilogismo”, a doutrina de que as leis fundamentais do pensamento diferem de um grupo biológico, cultural ou socioeconômico para outro. Várias décadas mais cedo, o lógico Gottlob Frege havia demolido com igual efetividade a falácia relacionada do “psicologismo”, a doutrina de que as leis do pensamento dependem de fatos empíricos sobre a psicologia humana. (Veja meu manuscrito não publicado sobre praxeologia para uma defesa dos argumentos de Mises e Frege.)

Mises concluiu:

Nenhum dos fatos fornecidos pela etnologia ou pela história contradizem a afirmação de que a estrutura lógica da mente é uniforme em todos os homens de todas as raças, idades e países. (…) O conteúdo dos pensamentos do homem primitivo diferem do conteúdo de nossos pensamentos, mas a estrutura formal e lógica é comum a ambos.

Mas defensores da sociobiologia pode bem alegar que eles estão afirmando uma fundação biológica apenas para o conteúdo do pensamento, não para sua forma, e portanto não estão entrando em conflito com os argumentos de Frege­-Mises. Isso tira eles do gancho?

Algumas teses sociobiológicas ­­ embora na minha opinião não sejam terrivelmente plausíveis ­­ podem ser consistentes com a praxeologia. Mas eu não vejo como a alegação de que o grau de aversão a risco ou de preferência temporal é geneticamente determinado pode resistir ao escrutínio praxeológico.

A aversão a risco e a preferência temporal afetam as preferências do indivíduo no sentido praxeológico­­ isto é, não apenas aqueles desejos ou impulsos que ele sucede de ter, mas as ordenações de valor que são manifestas em suas ações. Então, se o grau de aversão a risco ou de preferência temporal de um indivíduo é inato, isto significa que ele já está estabelecido, não apenas que ele terá certos desejos, mas que ele fará certos tipos de escolhas.

Contudo, isto nega o livre arbítrio. Se já está estabelecido pelos meus genes o quão avesso a risco, ou quão preferente temporal (se isso é uma palavra) eu vou ser em minhas escolhas futuras, como eu posso me considerar como tendo livre arbítrio?

Infelizmente para a sociobiologia, a negação do livre arbítrio é praxeologicamente incoerente. O ato da escolha logicamente pressupõe uma suposição da parte da escolhedora que as opções entre as quais ela está escolhendo estão ambas abertas. Mas isto equivale à suposição de que não já está estabelecido, por seus genes ou pelo que for, qual opção ela vai escolher. Consequentemente, o livre arbítrio tem um status axiomático; estamos automaticamente comprometidos em afirmar sua verdade a cada escolha que fazemos (mesmo a escolha de negar, ou de tentar negar, o próprio axioma). Se segue que não podemos coerentemente supor que já está estabelecido qual o grau de aversão a risco ou de preferência temporal que será manifesto em nossas ações futuras. (Está estabelecido a priori que nossa taxa de preferência temporal será positiva -­­ Mises provou isso -­­ mas não qual precisamente será essa taxa.) Quer eu possa ou não controlar minhas preferências psicológicas (isto é, quais desejos eu possuo), eu ainda posso controlar minhas preferências praxeológicas (isto é, sobre quais desejos eu escolho agir).

O sociobiólogo poderia responder que o que está estabelecido pelos genes de um indivíduo não são quaisquer ações em particular, mas apenas uma tendência geral. Mas tal resposta seria ambígua entre duas possibilidades:

Possibilidade Um: Suponha que eu tenha uma tendência inata a escolher X sobre Y. Agora, isso poderia significar que embora eu não vá sempre escolher X sobre Y, eu vou fazê­-lo em, digamos, 75% das instâncias futuras. Mas isso também parece incompatível com o axioma do livre arbítrio; se já está estabelecido que eu vou escolher X sobre Y 75% do tempo, então eu não sou realmente livre para planejar mina conduta futura. Como Ayn Rand observou em A Revolta de Atlas:

Um livre arbítrio selado com uma tendência é como um jogo com um dado viciado. Força o homem a lutar através de todo o esforço de jogar, a assumir a responsabilidade e a pagar pelo jogo, mas a decisão está pesada em favor de uma tendência que ele não teve qualquer poder de escapar. Se a tendência é de sua escolha, ele não pode possuí-­la ao nascer; se não é de sua escolha, seu arbítrio não é livre.

Possibilidade Dois: Agora, como o Aristotélico do século XVII Pietro Pomponazzi apontou, certamente há um sentido de “tendência” que é perfeitamente compatível como o livre arbítrio: poderia se dizer “seu presente padrão de atividade é tal que, se continuar, você se comportará de tal e tal maneira”. Isso não apresenta qualquer obstáculo ao livre arbítrio porque depende da pessoa se o padrão de atividade de fato vai continuar. E tal tendência pode muito bem ser inata no sentido de que é uma tendência com a qual a pessoa começa. Mas ela não pode ser inata no sentido mais forte de ser uma tendência que a pessoa carrega consigo por toda sua vida; pois uma vez que a pessoa muda seu padrão de atividade, então não mais é verdadeiro sobre ela que “seu presente padrão de atividade é tal que (…)” -­­ e portanto ela não mais tem a tendência.

A hélice dupla não é um par de algemas. Nossos genas não determinam nosso destino. Nós o fazemos.

 

// Tradução de Uriel Alexis Farizeli Fiori e revisão de Adriel Santana | Artigo original aqui.

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