08 abr, 2016 - Roderick Long -

Eles o previram: a crítica libertária ao fascismo no século XIX26 minutos de leitura

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por Roderick Long

[Este artigo foi publicado para LewRockwell.com em novembro de 2005. Tradução e revisão de Gabriel Goes; Edição de Giácomo de Pellegrini]

Falar em uma crítica libertária ao fascismo no século XIX pode parecer anacrônico, já que o fascismo é comumente entendido como um fenômeno do século XX. No entanto, ele não surgiu do nada, e libertários do século XIX observaram sua construção.

O fascismo se diferencia dos seus primos próximos, comunismo e conservadorismo aristocrático, de muitas formas relevantes. Começaremos com a diferença para o comunismo. Primeiramente, enquanto o comunismo busca substituir a propriedade privada por aquela estatal, o fascismo almeja incorporar ou cooptar a propriedade privada para dentro do aparato estatal através de parcerias público-privadas.

Por causa disso, o fascismo tende a ser mais tentador do que o comunismo para as elites abastadas, que podem vê-lo como uma maneira de isolar seu poder econômico da competição por meio de cartelização forçada e outros estratagemas corporativistas. Em segundo lugar, enquanto a ideologia comunista tende a ser cosmopolita e internacionalista, a ideologia fascista tende, de forma chauvinista, a ser nacionalista, demarcando uma subordinação particularista ao país, à cultura ou à etnicidade; junto com isso caminham uma suspeita em relação ao racionalismo, uma preferência por autarquia econômica e uma visão da vida como embate inevitável, porém glorioso. O fascismo também tende a cultivar um estilo retórico de “homem do povo” folclórico ou völkisch, “pragmatismo sobre princípios”, “coração sobre mente”, “não dê atenção a esses intelectuais pedantes”.

Esses contrastes com o comunismo não devem ser superestimados, é claro. Governos comunistas não podem se dar ao luxo de suprimir por completo a propriedade privada, já que isso leva rapidamente ao colapso econômico. Além disso, não importando quão internacionalistas e cosmopolitas os regimes comunistas possam ser na teoria, na prática eles tendem a ser tão nacionalistas quanto seus primos fascistas; enquanto, por outro lado, regimes fascistas estão, às vezes, perfeitamente dispostos a falar da boca para fora sobre o universalismo liberal. Tudo o mais constante, há uma diferença em ênfase e estratégia entre fascismo e comunismo aqui. Quando colocado contra instituições existentes que ameaçam o poder do Estado – sejam elas empresas, igrejas, família, tradição – o impulso comunista é, na maioria das vezes, de aboli-las, enquanto o impulso fascista é, normalmente, de absorvê-las.

As estruturas de poder externas ao Estado são potenciais rivais ao próprio poder do Estado e, por isso, os Estados sempre têm alguma razão para buscar sua abolição; o comunismo eleva essa tendência ao máximo. Porém, estruturas de poder externas ao Estado são também potenciais aliadas do Estado, particularmente se elas servem para encorajar hábitos de subordinação e arregimentação no povo. Dessa forma, há sempre uma chance de parceria mutuamente benéfica; e aqui se encontra a estratégia fascista.

As formas pelas quais o fascismo se difere do comunismo podem parecer alinhá-lo mais proximamente com o conservadorismo aristocrático tradicional do ancien régime, que é, da mesma forma, particularista, corporativista, mercantilista, nacionalista, militarista, patriarcal e antirracionalista. No entanto, o fascismo se diferencia do antigo conservadorismo ao abarcar um ideal de progresso industrial comandado por gerentes tecnocratas, assim como ao adotar um posicionamento populista de encampar o “pequeno homem” contra as elites – lembre-se da retórica völkisch (se as tendências tecnocratas do fascismo parecem conflitantes com aquelas antirracionalistas, bem, nas palavras do protofascista Moeller van den Bruck, “temos de ser fortes o bastante para viver em contradições”).

Algumas das diferenças entre o fascismo e o antigo conservadorismo podem se dever aos avanços conquistados por seus inimigos comuns, os liberais. O progresso do liberalismo e da indústria teve o efeito de transportar a riqueza, ao menos em parte, da aristocracia tradicional para atores individuais, assim criando novos grupos privados de interesse com habilidade de operar como empreendedores políticos; daí, talvez, a tendência à emergência de uma classe plutocrática nominalmente fora do aparato tradicional do Estado. De forma igual, o progresso da democracia significava que a plutocracia poderia triunfar somente sob disfarce populista; por isso o paradoxo de movimentos elitistas marchando sob a bandeira do antielitismo – um exemplo primordial na história dos EUA é o de leis antitruste e outras legislações supostamente contra grandes empresas tendo seu lobby feito, de maneira vigorosa, pelas próprias grandes empresas (cf. Murray Rothbard, War Collectivism in World War I; Paul Weaver, The Suicidal Corporation: How Big Business Fails America; Gabriel Kolko, Railroads and Regulation, 1877—1916 e Triumph of Conservatism: A Reinterpretation of American History, 1900—1916; Butler Shaffer, In Restraint of Trade: The Business Campaign Against Competition, 1918—1938; Roy Childs, Big Business and the Rise of American Statism; Joseph Stromberg, Political Economy of Liberal Corporatism e The Role of State Monopoly Capitalism in the American Empire; Walter Grinder & John Hagel, Toward a Theory of State Capitalism: Ultimate Decision-Making and Class Structure; etc.). Surge daí a estranha fusão fascista de privilégio e retórica völkisch; poder-se-ia chamá-lo de um movimento que pensa como Halliburton e fala como George W. Bush.

A parceria entre o aparato oficial do Estado e os beneficiários nominalmente privados do poder estatal foi um tema familiar para libertários do século XIX como Frédéric Bastiat e Gustave de Molinari, que estenderam e radicalizaram a crítica de Adam Smith ao protecionismo mercantilista como uma forma de beneficiar interesses empresariais concentrados em detrimento do público em geral. Nas palavras de Molinari, as empresas “pediam ao governo para salvaguardar seus monopólios pelos mesmos métodos que o governo empregava para proteger o seu monopólio” (“A Evolução do Protecionismo”). Sociólogos liberais como Charles Comte e Charles Dunoyer desenvolveram uma teoria inteiramente pré-marxiana do conflito de classes, de acordo com a qual a chave para a posição da classe dominante não é, contra Marx, acesso aos meios de produção, mas sim acesso ao poder político (cf. David Hart, Radical Liberalism of Charles Comte and Charles Dunoyer; Leonard Liggio, Radical Liberalism of Charles Comte and Charles Dunoyer; Ralph Raico, Classical Liberal Exploitation Theory; Mark Weinburg, Social Analysis of Three Early 19th-Century Classical Liberals; etc.). Quando Marx chamou o governo francês de “uma empresa de capital aberto para a exploração da riqueza nacional da França” em favor da elite burguesa e às expensas da produção e do comércio (Class Struggles in France), ele só estava ecoando o que libertários diziam há décadas.

Herbert Spencer também reclamou da influência de “autocratas das ferrovias” na política americana, “suplantando os direitos dos acionistas” e “dominando cortes de justiça e governos estatais” (The Americans). E Lysander Spooner denunciou a elite bancária e financeira quando escreveu o seguinte:

Em meio a selvagens, a mera força física, por parte de um homem, pode permitir que ele roube, escravize ou mate outro homem. […] Mas com os (chamados) povos civilizados, […] nos quais soldados em qualquer número e outras instrumentalidades da guerra em qualquer quantidade podem sempre ser adquiridos por dinheiro, a questão da guerra – e, consequentemente, a questão do poder – é pouco mais do que uma mera questão de dinheiro. Como consequência necessária, aqueles que estão prontos a empregar esse dinheiro são os verdadeiros governantes. […] [Os] governantes nominais, imperadores e reis e parlamentos, não são de maneira alguma os verdadeiros comandantes de seus respectivos países. Eles são pouco ou nada mais do que meras ferramentas, empregadas pelos ricos para roubar, escravizar e (se necessário) assassinar aqueles que têm menos ou nenhuma riqueza. […] [Os] chamados soberanos, nesses diferentes governos, são apenas líderes ou chefes de diferentes bandos de ladrões e assassinos. E esses líderes ou chefes são dependentes dos agiotas de dinheiro sujo para ter acesso aos meios de pôr em prática seus roubos e assassinatos. Eles não poderiam se sustentar por um momento não fossem os empréstimos feitos a eles por esses agiotas de dinheiro sujo. […] Além de pagar juros em seus títulos, eles talvez garantam aos seus detentores grandes monopólios em bancos, como os Bancos da Inglaterra, da França e de Viena; com o acordo de que esses bancos devam fornecer dinheiro em qualquer momento quando, em emergências súbitas, seja necessário atirar mais uma vez contra seu próprio povo. Talvez, também, por meio de tarifas de importação, eles deem grandes monopólios para certos setores da indústria, nos quais os agiotas atuam. Além disso, por taxação desigual, isentam total ou parcialmente as propriedades dos agiotas e jogam o fardo correspondente sobre aqueles pobres ou fracos demais para resistir.Sem traição VI

Como essa citação de Spooner mostra, os libertários do século XIX também viam uma ligação entre plutocracia e militarismo e criticavam duramente o que hoje seria chamado de complexo militar-industrial. Spencer, por exemplo, investia contra a “ajuda militar e os privilégios conferidos pelo Estado” desfrutados pela Companhia das Índias Ocidentais, que lhe permitiam cometer “feitos de sangue e rapina” na Índia, onde “as autoridades policiais se mancomunam com patifes endinheirados” para “permitir o uso do maquinário da lei para propósitos de extorsão”. Tais abusos, notava Spencer, eram “devidos sobretudo ao comando [da companhia ser exercido] pelo Estado, com a ajuda de fundos estatais e força estatal”. Se o poderio militar do Império Britânico não tivesse sido colocado à disposição dos diretores da Companhia, “sua condição indefesa os teria compelido” a agir diferentemente; eles teriam, por necessidade, que “direcionar sua atenção por inteiro ao desenvolvimento do comércio e à condução pacífica dos negócios” (Social Statics, cap. 27 [17]). Spencer, tendo escrito no meio do século XIX, reclamava especialmente do “lastimável monopólio do sal” – que se tornaria, é claro, o principal catalisador do movimento indiano por independência quase um século mais tarde.

Mas quem [escreveu Spencer] são os ganhadores? Os monopolistas. […] Para dentro de seus bolsos, na forma de salários para oficiais civis e militares, dividendos de lucros etc., foi grande parte da enorme receita da Companhia das Índias Ocidentais. […] Os donos ricos de propriedades coloniais devem ter proteção, bem como seus irmãos, os proprietários de terras da Inglaterra – aqueles com suas tarifas proibitivas, estes com suas leis do milho; e os recursos do povo pobre, faminto, sobrecarregado, devem ser ainda mais drenados para aumentar a já transbordante riqueza dos governantes.The Proper Sphere of Government

Portanto, a plutocracia, pensavam esses pensadores libertários, impulsiona o militarismo. Porém, eles também defendiam que o militarismo impulsiona a plutocracia. Dessa forma argumentava o “spenceriano” americano William Graham Sumner:

[M]ilitarismo, expansionismo e imperialismo: todos favorecem a plutocracia. Em primeiro lugar, guerra e expansão favorecem a corrupção, tanto nas cercanias quanto dentro do país. Em segundo lugar, elas tiram a atenção das pessoas dos feitos dos plutocratas. Em terceiro lugar, causam amplos gastos de dinheiro do povo, e o retorno não voltará para o orçamento nacional, mas para as mãos de alguns planejadores. Em quarto lugar, clamam por dívida pública e impostos altos, e essas coisas, em especial, tendem a tornar os homens desiguais, porque os ônus sociais recaem mais pesadamente sobre os fracos do que sobre os fortes, e tornam os fracos mais fracos e os fortes mais fortes.Conquest of the United States by Spain

Embora a influência da riqueza privada no governo não seja algo novo, os libertários do século XIX tendiam a pensar que ela estava investida de um ímpeto renovado pela ascensão da democracia e seu acompanhante inevitável, a política de grupos de interesse – o que os liberais franceses chamavam de “governo ulceroso”. Alguns libertários argumentavam que a democracia representativa leva à luta por influência política entre grupos de interesses especiais que competem – sem surpresa, são os interesses mais concentrados e ricos que tendem a se destacar. Sumner, por exemplo, mantinha que a democracia, longe de ser, como normalmente é suposto, a arqui-inimiga da plutocracia, é de fato aquela que garante o funcionamento da plutocracia:

Os métodos e o maquinário de um autogoverno democrático, republicano – primárias, comitês, convenções – se prestam, talvez com mais facilidade do que quaisquer outros métodos e maquinários políticos, aos usos de grupelhos que buscam influência política para propósitos investidos de interesses [escusos].Sumner, 'Andrew Jackson'

[Neste tópico, recomendo fortemente o artigo de Scott Trask, William Graham Sumner: Against Democracy, Plutocracy, and Imperialism; na edição do outono de 2004 do Journal of Libertarian Studies] Contudo, neste ponto, escritores como Sumner estavam simplesmente desenvolvendo as implicações da observação de James Madison em “O Federalista” de que a mutabilidade extrema a que estão sujeitos os governos representativos provavelmente servirá em benefício de uma minoria abastada:

Será de pouca vantagem para o povo que as leis sejam feitas por homens de sua escolha, se as leis forem tão volumosas que não possam ser lidas, ou tão incoerentes que não possam ser entendidas; se forem revogadas ou revisadas antes de promulgadas, ou se passarem por mudanças tão incessantes que ninguém que saiba o que é a lei hoje saberá o que ela será amanhã. […] Outro efeito da instabilidade pública é a vantagem irracional que ela dá aos sagazes, aos empresários e aos poucos endinheirados sobre a massa uniforme e industriosa do povo. Cada nova regulação concernente ao comércio ou à receita, ou que de qualquer forma afete os diferentes tipos de propriedade, representa uma nova colheita para aqueles que observam a mudança e podem antever suas consequências; uma colheita semeada não por eles mesmos, mas pela labuta e pelos cuidados do grande grupo formado por seus concidadãos. Esse é um estado das coisas no qual pode ser dito, com alguma verdade, que as leis são feitas para os POUCOS, não para os MUITOS.O Federalista, n.62

Madison, por sua vez, tinha como fonte o antigo argumento ateniense de que sistemas eleitorais são, na verdade, oligárquicos, em vez de democráticos (veja o meu The Athenian Constitution: Government by Jury and Referendum). Enquanto tanto libertários quanto marxistas reclamavam do poder das elites abastadas, eles discordavam entre si sobre os remédios a serem aplicados, porque também discordavam da origem do problema. Para os marxistas, a plutocracia era um produto do mercado; a classe dominante emergia através do comércio e, só então, tomava o controle do Estado, de maneira a consolidar a hegemonia já estabelecida (o próprio Marx foi ambivalente nessa questão, mas Engels solidificou a posição marxista ortodoxa). Por isso, para os marxistas, era o mercado que deveria ser suprimido; essa é a origem da visão de esquerda de que o fascismo é simplesmente uma manifestação do “capitalismo” de livre mercado. Para os libertários, em contraste, a classe dominante, para ter poder, depende do poder do Estado – então, é esse que deve ser suprimido.

Os libertários, no entanto, não cometeram o erro de supor que o poder estatal por si mesmo era o único problema. Já que governantes normalmente estão em menor número do que governados, esses pensadores viram que o poder estatal não pode sobreviver a não ser por aceitação popular, que o Estado não tem o poder de compelir. Nas palavras de Spencer, “no caso de um governo representante de uma classe dominante […] a própria existência de uma classe monopolista de todo o poder se deve a certos sentimentos na comunidade” (The Social Organism [24]). De forma parecida, Dunoyer escreve:

O primeiro erro, e para mim o mais sério, é não ver as dificuldades onde elas se encontram – não as reconhecer exceto em governos. Já que é neles que, de fato, os maiores obstáculos são geralmente erigidos, assume-se que é só lá que existem, e apenas lá se empreendem críticas. […] Está-se relutante em ver que nações são o material do qual governos são feitos; que é de seu seio que governos emergem […].Industry and Morals

Ou, novamente, como o anarquista americano Edwin Walker acertadamente perguntou: se o estatismo fosse a causa de todo o mal social, o que poderia ser a causa do estatismo? (Communism and Conscience). Libertários do século XIX, então, tendiam a ser pensadores “radicais” ou “dialéticos” no sentido de Chris Sciabarra; eles viam o poder estatal como parte de um sistema intrincado de práticas e estruturas sociais que se reforçavam mutuamente, e estavam interessados, de forma intensa, nos acompanhamentos institucionais e culturais do estatismo – que tanto recebiam suporte do poder estatal quanto davam suporte a ele.

É em sua análise desses acompanhamentos que os vemos se debatendo com os aspectos especificamente fascistas da cultura estatista. Escritores como Dunoyer, Spencer e Molinari viam uma conexão próxima entre estatismo e militarismo porque, em sua visão, o Estado gerava a guerra; tribos que tinham sucesso em afastar invasores se tornavam cada vez mais dependentes das classes guerreiras, enquanto tribos que não conseguiam fazê-lo tornavam-se sujeitas à classe guerreira do inimigo – e em ambos os casos a classe guerreira estava posicionada para virar uma classe dominante. Dunoyer e Spencer também viam uma relação recíproca do estatismo com o militarismo por um lado e com o patriarcado por outro, já que eles consideravam o governo do homem sobre a mulher como a divisão de classe original, da qual todas as outras surgiam posteriormente. Dessa forma, eles não ficariam surpresos de ver movimentos fascistas glorificando tanto conquistas militares quanto a família patriarcal.

Eles também não se surpreenderiam ao perceber que o fascismo toma seu nome dos fasces, símbolo romano de um machado em um feixe de bastões (o feixe de bastões por si só indicava que um oficial tinha o poder de infligir punição corporal; adicionar o machado implicava, ademais, o poder de matar). Bastiat considerava a reverência geral pela Roma antiga como uma influência cultural perniciosa. Ele escreveu:

O que foi o patriotismo [romano]? Ódio aos estrangeiros, destruição de toda a civilização, paralisação do progresso, flagelo do mundo com fogo e espada, agrilhoamento de mulheres, crianças e idosos a carruagens triunfantes – isso era glória, isso era virtude. […] A lição não foi perdida; e é de Roma, sem dúvidas, que esse adágio vem a nós […] a perda de uma nação é o ganho de outra – um adágio que ainda governa o mundo. Para adquirir uma ideia da moralidade romana, imagine uma organização de homens, no coração de Paris, que odeiam trabalhar, determinados a satisfazer suas vontades por meio de fraude e força e, consequentemente, em guerra com a sociedade. Indubitavelmente, um certo código moral e até algumas virtudes sólidas logo hão de se manifestar em tal organização. Coragem, perseverança, autocontrole, prudência, disciplina, constância no infortúnio, grande capacidade de guardar segredos, polidez, devoção à comunidade – tais, com certeza, serão as virtudes que a necessidade e a opinião prevalente fariam com que se desenvolvesse dentre esses salteadores; tais eram as dos piratas; tais eram as dos romanos. Pode ser dito que, a respeito dos últimos, a magnitude de sua empresa e a imensidão de seu sucesso lançou véu tão glorioso sobre seus crimes que estes viraram virtudes. E isso é precisamente porque essa escola de pensamento é tão perniciosa. Não é o vício abjeto, é o vício coroado com esplendor que seduz as almas dos homens.Academic Degrees and Socialism

Roma, a propósito, era outra cultura na qual a plutocracia triunfou ao adotar um disfarce de democracia. Spencer estava convencido de que a cultura ocidental em seus dias adentrava uma fase retrógrada, fase que ele chamava de “rebarbarização”, na qual os valores da sociedade industrial, a sociedade da cooperação voluntária e do benefício mútuo, estavam sendo submetidos uma vez mais aos valores antigos da sociedade militarista, de hierarquia, arregimentação, impulsos agressivos, anti-intelectualidade e visão de soma zero da existência humana. Spencer observava evidências da “rebarbarização” não só em políticas militares oficiais, mas também no desenvolvimento cultural, como por exemplo na crescente militarização da igreja, ou no recrudescimento do que ele chamava de “religião da inimizade” (Principles of Sociology). Spencer preocupava-se ao observar que nas “cerimônias da igreja celebradas por ocasião do embarque das tropas para a África do Sul [ele escrevia sobre a Guerra dos Bôeres] […] certos hinos são usados de uma forma que substitui pelo inimigo espiritual o inimigo humano. Dessa maneira, por uma geração, sob a fachada de uma religião que prega a paz, o amor e o perdão, tem havido um brado perpétuo das palavras ‘guerra’ e ‘sangue’, ‘fogo’ e ‘batalha’, e um exercício contínuo de sentimentos de antagonismo” (Facts and Comments, cap. 25).

Outro desenvolvimento cultural que Spencer identificou como sintoma da “rebarbarização” foi a ascensão de esportes profissionais. Nas palavras dele:

Naturalmente, junto à […] exaltação da força bruta em sua forma armada […] mostrando como o sentimento de coercitividade, que é o elemento essencial do militarismo, permeou a nação, há a exaltação da força física habilidosa, na forma do atleticismo. A palavra é bastante moderna, em razão de que, há uma geração, os fatos a serem agrupados sob sua denominação não eram suficientemente numerosos e óbvios para requerer um nome. Em minha infância, os chamados “esportes”, eram quase todos representados, com exclusividade, por um jornal semanal, Bell’s Life in London [A vida de Bell em Londres, em tradução livre], encontrado, dizem-me, em lugares frequentados por desordeiros e tavernas de pouca classe. Desde então, o crescimento foi tamanho que a aquisição de habilidade em jogos famosos tornou-se uma ocupação intensa. […] Enquanto isso, para satisfazer a demanda, o jornalismo se desenvolveu de modo que, além de periódicos de miscelâneas diários ou semanais inteiramente dedicados a esportes, os jornais ordinários, diários e semanais, fornecem reportagens de “eventos” em todos os locais e não sem frequência um jornal diário tem uma página inteira ocupada por eles. […] Enquanto a superioridade corporal ganha destaque, a superioridade mental retira-se ao segundo plano. […] Dessa forma, várias mudanças apontam em direção àqueles dias medievais, em que coragem e poder corporal eram as únicas qualificações das classes dominantes, enquanto a cultura existente ficava confinada a padres e residentes dos monastérios.

Suspeito que Spencer não gostaria muito de cantar “War Eagle!” no estádio de Auburn.

Tais sintomas da militarização e da barbarização na arena cultural procederam em analogia a mudanças no governo, incluindo uma alternância do poder da autoridade civil para a militar e, dentro do governo civil, da autoridade parlamentar para a executiva. Em 1881, Spencer se referia às medidas tomadas pela Alemanha

para estender, direta e indiretamente, o controle sobre a vida popular. Por um lado, há leis sob as quais, até o meio do ano passado [i.e., 1880], 224 sociedades socialistas foram fechadas, 180 periódicos suprimidos, 317 livros etc. proibidos […] Por outro lado, pode ser nomeado o plano do Príncipe Bismarck para reestabelecer as guildas (grupos através de cujas regulações coagem seus membros) e seu plano de seguridade estatal […] Mudanças em todas as quais se vê progresso em direção a […] substituir a organização civil pela organização militar, de forma a fortalecer as restrições sobre o indivíduo e as regulações sobre sua vida em mais aspectos.Principles of Sociology V. 17

E Spencer via a Inglaterra começando a seguir os passos da Alemanha; ele percebeu, com alarme, “uma extensão manifesta do espírito e da disciplina militaristas dentre os policiais, que, usando quepes em forma de elmos, começando a carregar revólveres e percebendo a si mesmos como meio-soldados, passaram a tratar as pessoas como ‘civis’” e se colocou contra a “crescente assimilação das forças voluntárias pelo exército tradicional, agora a ponto de se propor torná-las disponíveis para serviço no estrangeiro, de modo que, ao invés da ação defensiva para que elas foram criadas, possam ser usadas para ação ofensiva” (ibid.).

Alguns anos mais tarde, do outro lado do Atlântico, Voltairine de Cleyre observou acontecimentos análogos nos EUA:

Nossos antecessores pensaram que haviam se precavido contra um exército permanente ao prover a milícia voluntária. Atualmente, vivemos para ver essa milícia declarada parte do exército dos Estados Unidos e sujeita às mesmas demandas que os soldados comuns. Dentro de mais uma geração, provavelmente veremos seus membros na folha salarial do governo geral.Anarchism and American Traditions

À época da Guerra Hispano-Americana, Sumner estava escrevendo sobre A conquista dos Estados Unidos pela Espanha, o que significava que os EUA, embora vitoriosos nos campos de batalha, sucumbiam nos campos ideológicos para as ideias imperialistas que a Espanha tradicionalmente representava. E E. L. Godkin, editor de The Nation – naquele tempo um periódico liberal clássico – escreveu em desespero, em 1900, Eclipse of Liberalism:

O nacionalismo, no sentido de ganância nacional [escreveu ele], suplantou o liberalismo. […] Ao fazer do engrandecimento de uma nação em particular um fim maior do que o bem-estar da humanidade, ele sofisticou o senso moral da cristandade. […] Não ouvimos mais sobre direitos naturais, mas sobre raças inferiores, cujo papel é se submeter ao governo daqueles que Deus fez seus superiores. A velha falácia do direito divino mais uma vez afirma seu poder ruinoso e, antes que seja novamente repudiada, devem haver embates internacionais em uma escala terrível. Em nossa pátria, toda crítica à política externa dos governantes é denunciada como antipatriótica. Ela não deve ser mudada, pois a política externa tem que ser contínua. No exterior, governantes de todos os países devem se apressar para estar em cada cenário de pilhagem internacional, para que possam assegurar sua parte. Para ter sucesso nessas expedições predatórias, as restrições ao governo […] parlamentar devem ser deixadas de lado.Eclipse of Liberalism

Em suma, os libertários do século XIX observaram a ascensão de diversas tendências que se juntariam para criar o fascismo – militarismo, corporativismo, arregimentação, chauvinismo nacionalista, plutocracia em disfarce populista, pedidos por “líderes fortes” e “grandeza nacional”, glorificação do conflito sobre o comércio e da força bruta sobre o intelecto – e eles se opunham de forma pungente ao pacote completo. E, embora eles tenham afinal perdido essa batalha, seu estandarte caído deve ser levantado por nós.

Deixem-me dar a última palavra a Sumner; ele escreve, de novo, sobre a Guerra Hispano-Americana:

[A] razão pela qual a liberdade, de que nós americanos tanto falamos, é uma coisa boa é que ela significa deixar as pessoas viverem suas vidas da maneira que desejarem, enquanto nós fazemos o mesmo. Se acreditamos na liberdade como um princípio americano, por que não a defendemos? Por que a jogaremos fora para nos imiscuir em uma política espanhola de domínio e regulação? […] [E]sse plano de uma república que nossos pais fundadores rascunharam foi um sonho glorioso, que demanda mais do que uma palavra de respeito e afeição antes que morra. […] A sua ideia era de nunca permitir que os abusos sociais e políticos do velho mundo surgissem aqui. […] Não era para haver exércitos, exceto por uma milícia que não teria funções que não as de polícia. Não haveria corte e pompa; não haveria ordens, fitas, condecorações ou títulos. Eles não queriam dívida pública. […] Não era para existir grande diplomacia, porque eles pretendiam se importar apenas com seus próprios negócios e não se envolver em nenhuma intriga às quais estavam acostumados os estadistas europeus. Não era para haver nenhum equilíbrio de poder ou “razão de Estado” que custa a vida e a felicidade dos cidadãos. […] Nossos pais desejariam um governo econômico, mesmo que grandes figuras o acusassem de parcimonioso, e os impostos não deveriam ser maiores do que o absolutamente necessário para financiar tal governo. O cidadão deveria poder manter todo o resto de sua renda e usá-lo como achasse melhor para sua felicidade e a da sua família; ele deveria, acima de tudo, ter garantidas paz e quietude enquanto perseguia sua empresa honesta e obedecia às leis. Nenhuma política aventureira de conquista ou ambição […] deveria jamais ser perseguida por uma república democrática livre. Portanto, o cidadão aqui nunca deveria ser forçado a largar sua família ou enviar seus filhos para derramar sangue por glória, deixando viúvas e órfãos na miséria por nada. […] É em virtude desses ideais que nós estivemos “isolados”, isolados em uma posição que as outras nações da Terra observaram com silenciosa inveja; e, ainda assim, há pessoas que se gabam de seu patriotismo, pois dizem que nós tomamos, agora, nosso lugar de direito dentre os países do planeta em virtude desta guerra.Conquest of the United States by Spain

Este discurso foi proferido na conferência sobre A Economia do Fascismo no Instituto Mises.

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