14 fev, 2015 - Roderick Long -

Egoísmo e Anarquia4 minutos de leitura

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por Roderick Long

[Este artigo foi publicado para Strike The Root em fevereiro de 2004. Tradução de Uriel Alexis Farizeli Fiori. Revisão e edição de Giácomo de Pellegrini.]

No final dos anos 1880, um debate acirrado irrompeu nas páginas do periódico libertário Liberty sobre abordagens egoístas versus direitos naturais no anarquismo. (As várias contribuições a este debate estarão eventualmente disponíveis na biblioteca online do Molinari Institute; enquanto isso, para detalhes vide The Individualist Anarchists: An Anthology of Liberty (1881-1908) de Frank H. Brook ou The Debates of Liberty: An Overview of Individualist Anarchism, 1881-1908 de Wendy McElroy.)

Egoístas argumentavam que não poderia haver quaisquer fundamentos racionais para qualquer pessoa reconhecer alguma autoridade acima de sua própria razão ou para colocar qualquer meta antes de sua própria felicidade. Consequentemente rejeitavam a “moralidade” como mistificação metafísica, concluindo que ninguém tem qualquer motivo para aceitar quaisquer princípios de conduta, anarquistas ou não, exceto na medida em que aceitar esses princípios seja estrategicamente efetivo para promover seus próprios interesses.

Anarquistas consistentes, insistiam, não deveriam aceitar quaisquer restrições não escolhidas, morais ou políticas, sobre seus desejos soberanos. Proponentes dos direitos naturais argumentavam que o respeito pela inviolabilidade dos direitos das outras pessoas é um sine qua non do anarquismo. Mesmo se o egoísta respeitasse os limites anarquistas na prática – algo de que jusnaturalistas não se sentiam nada confiantes – ele deve, não obstante, se reservar em princípio um direito de impor seu desejo sobre outros, caso ele julgasse que fazê-lo seria de seu interesse. Consequentemente o egoísta deve considerar a liberdade de outros como um presente revogável dele para os demais, em vez de um direito inerente; mas isto é tomar a atitude de um governante com súditos, não de um anarquista com seus iguais. Anarquistas consistentes, argumentavam jusnaturalistas, devem rejeitar o egoísmo em favor de uma lei moral universal e obrigatória.

Há muito eu tenho mantido que a filosofia grega e o libertarianismo moderno são aliados naturais, feitos sob medida um para o outro, não porque sejam similares, mas porque através de suas próprias diferenças, cada um pode suprir as deficiências do outro. Este debate na Liberty é outro exemplo. Ambos os lados deste debate compartilhavam uma suposição em comum: que o respeito pelos direitos de outros não é em si mesmo um componente de nosso autointeresse. Desta suposição se segue que se deve escolher entre colocar seu próprio interesse em primeiro lugar e considerar os direitos das outras pessoas como tendo um peso intrínseco. Mas isto é precisamente o que é disputado pelo Eudemonismo Clássico, a teoria moral iniciada por Sócrates, desenvolvida de diferentes formas por Platão, Aristóteles, Estoicos e aceita por quase todo grande filósofo moral antes da Renascença, incluindo Cícero e Tomás de Aquino.

De acordo com o Eudemonismo Clássico, o autointeresse é de fato o critério supremo para a ação correta, mas o nosso verdadeiro autointeresse é viver uma vida de prosperidade humana objetiva. Agir de acordo com a virtude da justiça não é um mero meio externo para tal prosperidade, é uma parte dessa prosperidade; consequentemente o autointeresse propriamente entendido requer que coloquemos valor – e não um valor meramente estratégico – em se comportar com justiça em relação a outros. Consequentemente o Eudemonismo Clássico pode alegremente abraçar tanto a insistência egoísta na supremacia primordial do autointeresse quanto à insistência jusnaturalista sobre a autoridade sagrada da justiça.

Podem me perguntar: “Bem, é legal que o Eudemonismo Clássico possa reconciliar os dois lados desse debate, mas por que deveríamos acreditar que o Eudemonismo Clássico é verdadeiro?”. Minha resposta é que o fato de que o Eudemonismo Clássico possa reconciliar os dois lados do debate da Liberty é em si uma razão extremamente boa para pensar que ele seja verdadeiro. (Ao dizer isso, eu estou me apoiando numa epistemologia moral coerentista ao estilo grego que eu não vou me alongar defendendo aqui; mas vide meu artigo A Natureza da Lei, parte IV: A Base da Lei Natural, meu livro Reason and Value: Aristotle versus Rand e minha revisão do Ethics As Social Science de Leland Yeager).

Claro, as visões Eudemonistas Clássicas sobre o conteúdo da justiça geralmente tinham pouca semelhança com o anarquismo individualista. Mas é por isso que as ideias dos filósofos gregos precisam de tanta correção pelas ideias libertárias quanto as ideias libertárias precisam de correção pelos gregos. Simbiose, cara.

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