25 mar, 2015 - Roderick Long -

Difamando Herbert Spencer? Uma reposta a Edwin Black11 minutos de leitura

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por Roderick Long

[Esta resposta foi escrita para LewRockwell.com em outubro de 2003. Tradução, revisão e edição de Giácomo de Pellegrini.]

No dia 28 de agosto, escrevi uma coluna para LRC intitulada “Herbert Spencer: A Difamação Continua“, na qual eu critico o livro de Edwin Black, War Against the Weak por sua deturpação do teórico liberal clássico do século XIX, Herbert Spencer.

Em 11 de outubro, recebi a seguinte nota bizarra de Sr. Black:

Enviei esta nota para outros dois em seu círculo e enviei para você também.

Caro Senhor:

Estou em uma turnê que percorre 40 cidades e preenche todos os meus dias para o livro War Against the Weak. Eu estou escrevendo isto de um avião, e eu lamento minha brevidade. Pegando alguns emails de algumas semanas atrás, agora eu tive acesso às suas observações e as de seus colegas de mesmas ideias defendendo Spencer.

Você escreveu, como mostrado abaixo:

“Spencer, claro, era um liberal radical, opôs-se firmemente a todo controle estatal coercitivo sobre o indivíduo; associar Spencer com esterilização compulsória, ou qualquer coisa compulsória, é ridículo.”

Você está correto nessa afirmação, e a única coisa ridícula nesta matéria é que você e suas citações e as citações de seus colegas pensam que eu “difamei” Spencer, sugerindo que ele era de fato ligado e advogava a esterilização compulsória ou eugenia. Isso é idiota. Deixe-me ser explícito. Spencer não advogava [sic] ou tinha responsabilidade [sic] sobre a esterilização compulsória, Darwin e Malthus também não. Nem a Bíblia Sagrada tem uma justificação para a KKK ou a Inquisição. Meu livro é sobre a distorção de ideias científicas do século XIX e século XX que originaram a vergonha científica da eugenia que usurpava cada noção que poderiam.

Não houve nenhuma difamação minha a Spencer – apenas uma difamação de mim por você, esses [sic] no seu círculo que têm falsamente e deliberadamente circulado esta noção de que eu culpo Spencer pelas ideias implementadas pela eugenia americana e nazista. Eu não fiz isso. Repito, não fiz. Agora, gentilmente, remova todas estas referências na Internet, cesse sua campanha de falsidade e espalhe a palavra entre seus colegas, de que eu sei a verdadeira definição de difamação e calúnia.Edwin Black

Não faço ideia o que as frases “seu círculo”, “seus colegas de mesmas ideias” e “suas citações e as citações de seus colegas” referem-se (eu sou o único autor citado em sua carta), a não ser que ele esteja incluindo as pessoas que leram minhas colunas. (Eu estou ciente que meu artigo foi citado favoravelmente por outros críticos do trabalho de Sr. Black, e eu vi algumas evidências de tentativas que podem terem sido feitas, por entidades desconhecidas, para suprimir estas críticas – vejam meu post no blog do dia 18 de setembro – mas eu pessoalmente não estou familiarizado com qualquer uma das pessoas envolvidas, nem estou envolvido em uma “campanha” contra alguém, a menos que escrever uma resenha negativa de um livro(!) pode ser descrita assim.)

Mas desde que o Sr. Black aparentemente enviou suas acusações de difamação contra mim e a outras pessoas (sem nome), eu sinto que é apropriado para mim postar a sua carta e responder publicamente.

Sr. Black acusa-me de “difamação”, atribuindo-lhe as seguintes teses:

a) Herbert Spencer era um defensor da esterilização compulsória.

b) Herbert Spencer tem responsabilidade no movimento originado mais tarde pela a esterilização compulsória.

A acusação do Sr. Black é errônea. Em nenhum lugar no meu artigo original eu lhe atribuo a tese (a). Só para constar: Edwin Black não acusa Spencer de defender a esterilização compulsória, e eu nunca disse nada em contrário. A declaração do Sr. Black de que eu tenha feito é sem base na realidade.

Também não lhe atribuo a tese (b), embora eu lhe atribua uma tese estreitamente relacionada. Reclamo no meu artigo que o livro de Sr. Black “trate a campanha de esterilização compulsória como uma consequência natural da filosofia de Herbert Spencer.” Em suma, eu descrevo o Sr. Black como sustentando isso:

c) Herbert Spencer tem responsabilidade pela contribuição de um clima intelectual que ajudou a fundamentar a esterilização compulsória.

Além disso, meu artigo também o atribui a alegação de que:

d) Herbert Spencer “denunciou completamente a caridade” favorecendo o forte sobre o fraco e defendendo que os menos aptos pereçam.

Agora a tese (c) tem algumas semelhanças com a tese (b), mas não é a mesma tese. (Para uma defesa da distinção entre ser responsável por X e ser responsável por contribuir para um clima levando a X, veja o livro de David Kelley, The Contested Legacy of Ayn Rand, especialmente o capítulo 3). Então estou feliz por pegar a palavra de Sr. Black de que ele não sustenta a tese (b). Logo, eu nunca atribuí a tese (b) a Black em primeiro lugar, mais do que eu o atribuí a (a). Eu fiz e faço, a atribuição a (c) e (d). Refutar a tese (d) na verdade era o ponto central de meu artigo, embora você nunca adivinharia da resposta do Sr. Black, que totalmente ignora o assunto da tese (d) e a impressão de que minha preocupação foi a esterilização compulsória e nada mais. Esterilização compulsória não era o assunto principal, muito menos o único tema do meu artigo.

Em suma, as críticas de que se queixa o Sr. Black são críticas que não fiz, e as críticas que eu fiz de fato são aquelas que a resposta do Sr. Black não diz nada para dissipar.

Meu artigo original documenta totalmente minha afirmação de que o Sr. Black afirma a tese (d). Documenta também totalmente minha reivindicação de que essa tese (d) é falsa. E se afirmar falsamente a tese (d) não conta como uma difamação de Spencer, não consigo imaginar o que contaria. (Eu também critico o Sr. Black pela imprecisão da posição teológica de Social Statics. Isso não é uma difamação exatamente, mas é certamente uma imprecisão preocupante em um livro que se orgulha de uma rigorosa verificação dos fatos.) Se o Sr. Black acha que estou errado por descrevê-lo como um difamador de Spencer, então ele deve mostrar também que essa tese (d) é verdadeira, ou então que seu livro, afinal, não afirma a tese (d). Até agora o Sr. Black não fez nada disso.

E quanto a tese (c)? No meu artigo original descrevo o livro de Sr. Black como sugerindo não só que Spencer sustentava ideias repugnantes, mas também que a influência de suas ideias naturalmente levou ao final do século XX para campanhas pela esterilização compulsória. Em oferecer esta interpretação, eu teria deturpado o que escreveu Sr. Black? Julgue por si mesmo:

A discussão principal do Sr. Black sobre Herbert Spencer ocorre na seção de abertura do livro, que é intitulada “From Peapod to Persecution.” A implicação óbvia é que esta seção descreve os pequenos começos (peapod) do que depois se tornaria o movimento eugênico (perseguição). A metáfora orgânica de “peapod”NT1 também implica que o movimento foi uma consequência natural destes primórdios, em vez de uma perversão deles.

Após um resumo breve, hostil e completamente impreciso de Social Statics, o pensamento de Spencer é classificado entre as “novas filosofias que sugeriram que a sociedade só melhoraria quando as classes dos menos aptos se desvanecem afastadas.” (p. 12) O leitor é claramente convidado a concluir que as medidas coercivas para ajudar a desaparecer essas classes são uma extensão lógica das ideias de Spencer. (Tratamento de Sr. Black a Spencer é aliás muito mais hostil, e insinua muito mais afinidade com o movimento de eugenia, que qualquer coisa que ele diz sobre Malthus ou Darwin).

Esta implicação é reforçada pelo tratamento que Sr. Black dá a Buck vs. Bell, o notório caso em que o juiz Oliver Wendell Holmes sentenciou a esterilização compulsória. Observe como o Sr. Black introduz a questão da influência de Spencer:

Buck vs. Bell seria sentenciado em maio de 1927 pelo octagenário Holmes que em muitos aspectos se definiu pela Guerra Civil e se moldou pela ética do século XIX. Enquanto se recuperava de ferimentos de Chancellorsville, sua leitura incluía Social Statics de Spencer, tratado inovador que defendia o darwinismo social e assim significativamente influenciou o pensamento galtonianoNT2. Spencer advogava os fortes sobre os fracos e acreditava que os direitos humanos e a caridade em si eram falsas e contra a natureza. De fato, uma série de palestras de Holmes sobre The Common Law em 1881 também alegava que a ideia de direitos inerentes era “intrinsecamente absurda”.War Against the Weak, p. 119

Nesta passagem o Sr. Black não apenas grosseiramente descaracteriza as ideias de Spencer (que, como mostrei, na verdade eram diametralmente opostas às descritas), mas ele claramente implica que as ideias de Spencer estavam entre as influências do século XIX que “moldaram eticamente” Holmes e, assim, ajudaram a determinar o resultado de Buck vs. Bell. Sr. Black apela a influência de Spencer para explicar a decisão de Holmes em Buck vs. Bell; caso contrário, uma referência a Spencer neste parágrafo seria inútil. E não há nenhuma sugestão de que Holmes tenha usurpado ou pervertido ensinamentos de Spencer. Pelo contrário, a frase “Holmes […] também alegava” claramente sugere, no contexto, que Holmes e Spencer estavam de acordo sobre os fundamentos e que Holmes tinha simplesmente pego ideias de Spencer para sua conclusão lógica. (O fato de que a referência mais famosa de Holmes a Spencer era hostil não é mencionado).

Dado que o Sr. Black afirma a tese (d), não há nada de surpreendente que ele esteja também confirmando a tese (c). De fato, se a tese (d) fosse verdade, seria uma excelente razão para crer na tese (c). Infelizmente, é a única razão para acreditar na tese (c). Portanto, se (d) cai, como deve, (c) cai também.

Em suma, as teses de Sr. Black repudia – (a) e (b) – são teses que eu nunca atribuí a ele e as teses que atribuí a ele – (c) e (d) – ele ignora. A tese (d) é explicitamente declarada em seu livro (ver as passagens citadas em meu artigo original), enquanto a tese (c) é inequivocamente implícito. Ambas (c) e (d) são comprovadamente falsas (novamente, como mostrei em meu artigo original).

Eu estou espantado com a sugestão de Sr. Black de que as críticas ao seu livro deveriam ser “removidas da Internet”. Isso não é a minha concepção de como uma discussão civil livre funciona. Eu, por exemplo, não escrevi notas secretas ao editor de Sr. Black exigindo que o seu livro seja retirado de circulação. Em vez disso, estou respondendo as afirmações do Sr. Black num fórum público, apresentando minhas evidências e deixando o veredicto para meus leitores. Sr. Black não deve a seus leitores a mesma cortesia?

Como eu mencionei acima e em outros lugares, há indicações de que algumas críticas online do livro de Sr. Black foram suprimidas silenciosamente. Uma pesquisa no Google sobre meu nome e o dele revela inúmeras páginas da web nas quais as resenhas críticas ao seu livro, citando meu artigo, foram misteriosamente apagadas (estão no “cache”, mas não a versão atual das páginas), apesar dos comentários favoráveis ao livro permanecerem intocados. Espero sinceramente que o próprio Sr. Black não esteja envolvido nesta aparente campanha para suprimir a crítica ao seu trabalho, já que isso seria uma violação muito mais grave de profissionalismo do que qualquer coisa que eu tenha originalmente me queixado do próprio livro.

No final: a acusação de Sr. Black de eu ter deturpado o seu livro é falsa. Em vez disso, ele deturpou meu artigo. Mais importante ainda, ele tem deturpado as ideias de Herbert Spencer, um herói da liberdade, através da reciclagem (se consciente ou inconscientemente) de antigas difamações inventadas no século XIX por inimigos políticos de Spencer. Sr. Black ainda não respondeu minhas críticas; em vez disso, ele denunciou outras críticas que eu não fiz, e ele tem através de seu próprio testemunho enviado acusações de difamação contra mim e para pessoas que não nomeia.

Eu mantenho o meu artigo original, e peço uma retratação das deturpações do Sr. Black a Spencer e para mim mesmo.

[Notas do Tradutor]

NT1 semente, numa tradução livre.

NT2 Francis Galton era primo de Charles Darwin e, baseado em sua obra, criou o conceito de “eugenia” que seria a melhora de uma determinada espécie através da seleção artificial. O primeiro livro importante para a psicologia de Galton foi Hereditary Genius (1869). A sua tese afirmava que um homem notável teria filhos notáveis.

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