04 set, 2017 - Roderick Long -

Descanse em paz, Jorie Blair Long4 minutos de leitura

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por Roderick Long

[Obituário escrito em 01 de setembro de 2017 no seu blog Austro-Athenian Empire em memória de sua mãe, Jorie Blair Long. Tradução, revisão e edição de Giácomo de Pellegrini]

Minha mãe morreu hoje, aos 91 anos (02/03/1926 – 01/09/2017). Eu quero falar um pouco sobre sua vida.

Quem olhasse de fora diria que ela nasceu com privilégios: seus pais foram abastados (seu pai era um dos diretores do Banco da Reserva Federal de Chicago) e pode se dar ao luxo de viajar para destinos pouco acessíveis na década de 1930 como Havaí, Fiji, Samoa, Austrália e Nova Zelândia. Mas sua infância foi angustiante, dominada por um irmão mais velho que lhe abusava fisicamente (que, literalmente, tentou matá-la por três vezes, algo que o mesmo admitiu posteriormente) e pais que lhe abusavam emocionalmente; tratavam-na mais como um “parente pobre” do que como um membro da família.

Apesar de suas constantes notas máximas na escola, seus pais diziam que ela era mentalmente deficiente; apelidaram-na non compos mentis. Seu pai estava disposto a pagar por apenas dois anos de faculdade para ela, isso era tudo o que ele pensava ser necessário para mulheres. (Ele ficaria feliz de ter pago o total de quatro anos para o seu irmão, caso ele estivesse disposto a ir.) No leito de morte de seu pai, quando ele não era mais capaz de se comunicar, sua mãe roubou sua herança: literalmente, forçou a mão dele a fazer um X em um novo testamento, deixando, assim, a minha mãe pobre e dependente.

Minha avó manteve a minha mãe em casa durante anos, como, essencialmente, uma escrava, convencendo-a de que não era capaz de sobreviver por conta própria. (Ela se identificava com a heroína de Now, Voyager.) Finalmente, aos 30 anos de idade, minha mãe reuniu coragem para fugir, dirigindo até Los Angeles, em uma mistura de medo, culpa e euforia. Minha mãe logo encontrou trabalho como secretária e foi capaz de se manter perfeitamente bem. Ela também aprendeu a pilotar um avião.

Em poucos anos, ela conheceu e se casou com o homem que viria a ser meu pai. Infelizmente, durante uma viagem de negócios para América Latina, ele morreu em um acidente de avião. Eu ainda era um bebê. Minha mãe ficou sozinha e responsável pela minha criação, o que significou anos de dificuldades financeiras; em determinado ponto a maioria de nossos bens foram vendidos para saldar dívidas.

Minha mãe estava determinada a me criar da maneira mais diferente possível da forma como ela tinha sido criada. Ela me tratava quase como um adulto – discutia assuntos mais sérios comigo e nunca censurou minhas leituras. Ela também encorajou os meus interesses intelectuais; eu não tinha muito mais do que cinco anos, quando ela colou a expressão Cogito ergo sum no espelho do meu banheiro e explicou o que significava. Foi em torno da mesma idade que discutimos a questão de saber se tudo que tem um começo tem um fim: eu disse que não, ela disse que sim; eu apontava para a série de números a partir do zero até o infinito, e ela rebatia me falando sobre os números negativos.

Minha mãe também me ensinou a importância da independência e de pensar por si mesmo; tenho certeza de que ela é uma grande parte do motivo pelo qual me tornei libertário e, em seguida, um dissidente dentro do libertarianismo.

Agora que ela se foi, não há ninguém – ou ninguém que eu esteja em contato – que de alguma forma se lembra de mim quando eu era criança. Isso me faz sentir estranho.

Enquanto eu me graduava na Universidade de Cornell, minha mãe trabalhava lá como assistente administrativo e fazia algumas matérias paralelamente. Eventualmente ela entrou na Universidade, terminando seus dois últimos anos e se formando na idade de 65 anos. Toma essa, vovô.

Nos anos que se seguiram, a coisa que a minha mãe mais queria era ter uma casa – o que para ela significava um lugar grande o suficiente para ter todos os seus papéis e cartas fora das caixas, de forma que ela pudesse usá-las para escrever suas memórias. O meu maior arrependimento é que eu nunca fui capaz de prover isso a ela. Espero, eventualmente, compensar isso em parte escrevendo uma espécie de biografia dela, baseada em seus escritos e o que mais eu possa lembrar de suas histórias. Sinto-me feliz por ter sido capaz, pelo menos, de fornecer conforto e companhia em seus últimos anos, e que enquanto ela ainda era capaz de viajar eu pude levá-la em algumas viagens para a Europa.

Ela era uma pessoa maravilhosa e uma mãe maravilhosa. Ela merecia algo melhor da vida do que teve. Adeus, querida Mãe. Sentirei sua falta.

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