10 abr, 2015 - Roderick Long -

Como a desigualdade molda nossas vidas5 minutos de leitura

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por Roderick Long

[Este artigo foi publicado na Austro-Athenian Empire em setembro de 2010. Tradução, revisão e edição de Giácomo de Pellegrini.]

Como a desigualdade molda nossas vidas (Parte 1)

Aqueles que consideram a desigualdade socioeconômica como um problema sério são frequentemente acusados de “inveja”, como se tais preocupações fossem simplesmente uma questão de rancor de outra pessoa por ela ter mais cookies do que nós.

Acredito que esta reação perde o ponto de várias maneiras; deixe-me dizer um pouco sobre apenas uma delas:

Suponha que você esqueceu de pagar sua conta de energia (ou sua conta de telefone, ou sua conta de TV a cabo, ou sua conta de acesso à internet, ou sua fatura de cartão de crédito ou o que for). O que acontece? Seu provedor desconecta você, e você provavelmente vai ter que pagar uma taxa extra para ter o serviço restabelecido. Você também terá em seu relatório de crédito uma desaprovação.

Por outro lado, suponha que, por qualquer motivo (falhas de internet, linhas elétricas tragadas depois de uma tempestade, ou o que mais seja possível de acontecer), você sofra uma interrupção temporária do serviço de seu provedor. Eles te oferecem um reembolso? Claro que não. E não há nenhuma maneira fácil para você colocar uma desaprovação no relatório de crédito deles.

Agora, se você aluga um imóvel, dê uma olhada no seu contrato. Você escreveu isso? Claro que não. Você e o seu locador escreveram juntos? Novamente, claro que não. Foi escrito por seu locador (ou pelo advogado do seu locador ou proprietário) e é preenchido com muito mais estipulações sobre suas obrigações com ele do que das obrigações dele com você. E ainda pode conter uma linguagem ameaçadora como “o locatário concorda em cumprir todos os regulamentos e instruções adicionais nas quais o locador pode estipular de vez em quando” (que, literalmente, não passa de um tímido contrato de escravidão). Se você se atrasar no pagamento de seu aluguel, o proprietário pode te taxar de forma punitiva? Pode apostar que sim. Por outro lado, se ele se atrasa no conserto de um banheiro, você pode reter uma parte do aluguel? Apenas tente.

Agora pense sobre seu relacionamento com seu empregador. Em teoria, você e ele são indivíduos livres e iguais, entrando em um contrato de benefício mútuo. Na prática, ele provavelmente ordena as horas e os minutos do seu dia detalhadamente. Tal como acontece com o caso do locador, o contrato é fornecido por ele e é projetado para beneficiá-lo. Ele também se compromete a interpretá-lo; e você se encontrará sujeito a diversos regulamentos e diretivas que você nunca tinha consentido antes. E se você tentar inventar novas obrigações para ele como ele faz com você, eu prevejo que você ficará, digamos, desapontado.

Não são apenas os casos de algumas pessoas terem mais coisas do que você. São casos em que algumas pessoas são sistematicamente poderosas para ditarem os termos em que outras pessoas vivem, trabalham e comercializam. E nós, geralmente, tomamos isso como certo. Mas não é óbvio que as coisas tenham que ser assim.

Quando se trata de diagnóstico e prescrição, aqueles de nós que se preocupam com a desigualdade socioeconômica irão em duas direções diferentes. Alguns identificam o mercado livre como a causa de tal desigualdade e o regulamento do governo como a cura; para outros, é precisamente o contrário. Obviamente estou com o último grupo; todos os fenômenos que eu mencionei são possibilitados pelas sistemáticas restrições à concorrência. Libertários precisam gastar mais tempo focando na liberdade como a solução para estas assimetrias generalizadas de poder, ao invés de dar a impressão de que os demais achem a liberdade problemática.

Como a desigualdade molda nossas vidas (Parte 2)

Meu amigo Bryan Caplan respondeu ao meu post recente sobre desigualdade. Estou me preparando para sair da cidade para ir até Alabama Philosophical Society e assim provavelmente não terei uma chance de responder em detalhes até eu voltar. (Isto também se aplica a seção de comentários do meu post anterior, que não tive uma chance de olhar). Mas três pontos curtos agora:

a) A resposta de Bryan foca-se sobre as formas em que mercados livres poderiam resolver os problemas que eu apontei, isso, claro, se o que apontei fossem realmente problemas. Mas o objetivo da minha posição é que não temos um mercado livre! Libertários de esquerda têm apontado em detalhes as maneiras em que a habitação e o mercado de trabalho, por exemplo, são distorcidos através de direções oligopolistas e oligopsônistas, respectivamente. Por ignorar essas análises ao invés de refutá-las, Bryan, na verdade, pressupõe que os problemas estão fora da existência; ele poderia muito bem dizer “tarifas não podem realmente ser muito altas, porque se forem, os consumidores poderiam simplesmente mudar para uma agência de proteção rival com tarifas mais baixas.”

b) O fato de que os trabalhadores podem se esquivar, que os inquilinos podem ser delinquentes, etc., está à parte da questão. Nós já sabemos antecipadamente que cada parte num contrato pode potencialmente enganar a outra. O ponto é que, dado o contexto, os contratos são distorcidos para favorecer somente um lado. Essa inclinação não é contrabalanceada pela capacidade do outro lado ser delinquente, porque cada lado tem essa capacidade, e somente um lado tem o contrato favorável.

c) Sim, existem vários regulamentos que se propõem a ajudar a parte mais fraca no contrato; Mas os libertários de esquerda têm argumentado em detalhe que esses regulamentos, na prática, realmente tendem a ajudar o lado mais forte em vez do lado mais fraco. Talvez estejamos certos sobre isso, talvez estejamos errados, mas até onde sei, Bryan ainda não abordou os argumentos colocados e dificilmente se pode esperar que finjamos que não argumentamos.

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