04 ago, 2015 - Roderick Long -

Cartas Selvagens6 minutos de leitura

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por Roderick Long

[Este artigo foi publicado para Austro Athenian Empire em setembro de 2009. Tradução, revisão e edição de Giácomo de Pellegrini]

Em The Structure of Scientific Revolutions (um livro de grandes virtudes e grandes defeitos, mas eu não vou comentar sobre isso agora), Thomas Kuhn descreve um experimento que eu acredito que seja de grande importância para os libertários, particularmente para a esquerda libertária:

Em um experimento psicológico que merece ser mais conhecido fora do campo de pesquisa, Bruner e Postman [1949] pediram para alguns indivíduos que identificassem uma série de cartas de baralho numa exposição curta e controlada. Muitas das cartas eram normais, mas algumas tinham anomalias, por exemplo, um seis de espadas vermelho e um quatro de copas preto. Cada experimento era constituído na exibição de uma única carta para um único indivíduo em uma série de exposições que eram gradualmente aumentadas. Após cada exposição, era perguntado ao indivíduo o que ele tinha visto, e o experimento era terminado depois de duas sucessivas identificações corretas.

Mesmo em exposições mais curtas, muitos indivíduos identificaram a maioria das cartas, e após um pequeno aumento, todos os indivíduos identificaram todas as cartas. Para as cartas normais essas identificações eram geralmente corretas, mas as cartas anômalas eram quase sempre identificadas sem aparente hesitação ou perplexidade, como normais. O quatro de copas preto era, por exemplo, identificado como um quatro de copas ou de espadas. Sem qualquer consciência do problema, a carta era imediatamente encaixada numa das categorias conceituais preparadas pela experiência prévia do indivíduo. Ninguém gostaria de dizer que os indivíduos tinham visto algo diferente do que haviam identificado.

Com um aumento adicional de exposição às cartas anômalas, os indivíduos começaram a hesitar e a despertar uma leve consciência da anomalia. Expostos, por exemplo, ao seis de espadas vermelho, alguns disseram: “Este é o seis de espadas, mas há algo errado com ele – o preto tem uma borda vermelha.” Conforme se aumentava ainda mais a exposição, resultava em ainda mais hesitação e confusão até que finalmente e de repente, a maioria dos indivíduos começava a identificar corretamente sem hesitação. Além disso, depois de fazer isso com duas ou três das cartas anômalas, eles teriam menos dificuldades com as outras.

Alguns indivíduos, no entanto, nunca foram capazes de fazer a necessária adaptação de suas categorias. Mesmo depois de quarenta vezes, a exposição média necessária para reconhecer as cartas normais pelo que eram, mais de 10% das cartas anômalas não foram corretamente identificadas. E os sujeitos que falharam, muitas vezes experimentavam um sofrimento agudo pessoal. Um deles exclamou: “Não posso dizer o que é, seja o que for. Não parece uma carta. Não sei qual é a cor agora, ou se é espada ou coração. Não tenho mais certeza como se parece a carta de espada. Meu Deus!” […] Meu colega Postman me disse que, embora sabendo tudo sobre o experimento antecipadamente, encontrou, no entanto, olhando para as cartas incongruentes um enorme desconforto.

Em suma, as pessoas têm uma enorme dificuldade e muitas vezes uma forte aversão em reconhecer algo que não se encaixe em suas categorias estabelecidas. E isso ajuda, acredito, a explicar por que, como libertários, e em particular como libertários de esquerda, temos tanta dificuldade em propagar nossa mensagem; na esfera política mainstream somos como copas pretos e espadas vermelhas. O primeiro impulso da maioria das pessoas é nos assimilar através de alguma categoria familiar – e já que falamos tanto sobre as virtudes do livre mercado e os males do governo, tendemos a ficar aglomerados com os conservadores, já que eles fazem barulhos semelhantes. Quando a exposição mais prolongada convence as pessoas de que nós não somos muito conservadores, elas então tendem a se convencer de que nós somos espadas pretas com bordas vermelhas — convencionalmente conservadores em algumas questões, convencionalmente liberais em outras (uma tendência que nós encorajamos através do nosso, em parte útil e em parte enganador, diagrama de Nolan) — ao contrário do que realmente representamos, uma alternativa radical para ideologias existentes.

A lição moral, acredito, é que libertários e especialmente libertários de esquerda, precisam se concentrar mais em ter suas posições reconhecidas. Ser reconhecido, obviamente, não é suficiente — então depois se deve argumentar que a posição está correta – mas acho que a argumentação e a defesa são em grande medida sem sentido caso as pessoas não consigam sequer verem qual posição está sendo defendida.

Nossa tarefa vital, então, é espalhar a palavra, o que inclui as seguintes teses:

1. As grandes empresas e o governo são (na sua maior parte) aliados naturais.

2. Embora os políticos conservadores finjam odiar um Estado grande, e os políticos de esquerda finjam odiar as grandes empresas, a maioria das políticas mainstream — tanto de esquerda quanto conservadora — envolve intervenção maciça (versões ligeiramente diferentes) em nome das grandes empresas ou Estado grande às custas de pessoas comuns.

3. Os políticos de esquerda encobrem sua intervenção em nome da forte retórica da intervenção a favor dos fracos; políticos conservadores encobrem sua intervenção em nome da forte retórica dos mercados livres – mas em ambos os casos a retórica é desmentida pela realidade.

4. Uma verdadeira política de intervenção a favor dos fracos, caso a esquerda realmente tentasse, não funcionaria, já que a natureza do poder do Estado é deformar automaticamente tal política para os interesses da elite.

5. Uma verdadeira política de não-intervenção e de livre mercado, caso os conservadores realmente tentassem, poderia funcionar, já que a livre concorrência empodera as pessoas comuns à custa da elite.

6. As políticas conservadoras apesar de terem uma retórica associada ao livre mercado, são diametralmente opostas das políticas de livre mercado de fato, as falhas das políticas conservadoras não constituem uma objeção a (mas, ao contrário, uma reivindicação das) políticas de livre mercado.

Naturalmente devemos estar preparados para defender estas teses através do raciocínio econômico e da evidência histórica, mas o objetivo principal neste momento, penso eu, não deve ser tanto em como defendê-las, mas simplesmente como anunciar a existência delas. Nós precisamos fazer com que nossos espadas vermelhos e copas pretos sejam recursos suficientemente familiares da paisagem intelectual, nos quais as pessoas poderão vê-los como são em vez de desclassificá-los – ao ponto de nós chegarmos numa posição melhor para defender as teses. (Embora o ponto 6 já esteja começando a deslizar da descrição para a defesa, ainda acredito que 6 seja crucial na obtenção de maior audiência.)

O que eu defendo, então, é uma repetição constante (ou algo equivalente a isso) dos pontos 1 a 6, como um recurso constante de nossa propaganda. Nas conversas, em artigos, em cartas ao editor, devemos bater sempre nos pontos 1 a 6. A cura para a resistência ao desconhecido é fazê-lo familiar.

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