19 nov, 2015 - Roderick Long -

Cair à direita, balançar à esquerda7 minutos de leitura

Download e-book

por Roderick Long

[Este artigo foi publicado para Austro-Athenian Empire em maio de 2010. Tradução de Antonio Augusto Abello; Revisão e edição de Giácomo de Pellegrini]

Eu não tento fazer você acreditar em algo que você não acreditaria, mas fazer você fazer algo que você não faria.Ludwig Wittgenstein

“De novo e de novo, você está caindo, e então se impedindo de cair. E assim é como você pode estar caminhando e caindo ao mesmo tempo.Laurie Anderson

Eu escrevi antes sobre a importância do livro de Thomas Kuhn, “A Estrutura das Revoluções Científicas” para os libertários de esquerda. Aqui vai outro exemplo.

Left-libs e right-libs – ou libertários mainstream, ou libertários “normais” ou qualquer coisa que se queira chamá-los (Eu mesmo sou tentado pela ironia de “libertários modais”) – frequentemente se frustram uns com os outros. Left-libs arrancam seus cabelos quando right-libs em um momento reconhecem a existência de extensos favoritismos governamentais às grandes corporações, e no momento seguinte se esquecem e tratam críticas às grandes corporações como críticas ao livre mercado. (Aqui, por exemplo, Kevin Carson se pergunta por que John Stossel, que no passado “tirou seu chapéu para as ideias de corporativismo e capitalismo de compadrio”, de repente “sorri e acena” quando Michael Medved “responde à alegações que as grandes empresas são corruptas e exploradoras, na economia corporativista em que vivemos, argumentando que ‘não pode acontecer, por que no livre mercado….’”). Right-libs, por sua vez, não conseguem ver porque left-libs continuam falando sobre intervenções corporativistas quando eles já reconheceram sua existência e maldade.

Eu acredito que a discussão de Kuhn sobre o pêndulo pode ajudar a iluminar o que está acontecendo de errado aqui. Kuhn escreve:

Desde a remota antiquidade, a maioria das pessoas observava um ou outro corpo pesado oscilando para frente e para trás até chegar ao repouso. Para os aristotélicos, que acreditavam que um corpo pesado é movido por sua própria natureza de uma posição mais alta para um estado de repouso natural em uma mais baixa, o corpo oscilante estava simplesmente caindo com dificuldade. Limitado pela corda, ele poderia alcançar repouso no ponto mais baixo somente depois de um movimento tortuoso e um tempo considerável. Galileu, por outro lado, olhando ao corpo oscilante, viu um pêndulo, um corpo que quase conseguia repetir o mesmo movimento de novo e de novo ad infinitum […] Quando Aristóteles e Galileu olhavam a pedras se balançando, o primeiro via uma queda limitada, o segundo um pêndulo […]Estrutura, pg 118-121

Para Kuhn, a mudança da interpretação aristotélica para a de Galileu representa uma “mudança de gestalt“, associada com uma mudança de paradigma; e eu penso que a discordância sobre corporativismo entre libertários envolve algo semelhante.

Tanto Aristóteles como Galileu perceberam os mesmos dois fatos sobre a pedra oscilando: a) ela continua indo para frente e para trás por bastante tempo, e b) ela eventualmente para e fica pendurada para baixo. A diferença, eu diria, está em o que cada um viu como fundamental ou essencial. Para Aristóteles, ficar pendurada para baixo (ou chegar o mais perto possível disso) era o que a pedra estava essencialmente fazendo, enquanto o período de ir para frente e para trás é uma imperfeição acidental – ruído no sinal. Para Galileu, em contraste, a oscilação perpétua para frente e para trás no mesmo arco (ou chegar o mais perto possível disso) era o que a pedra estava fazendo essencialmente, e é o encurtamento gradual do arco até que a pedra fique pendurada para baixo que é a imperfeição acidental ou “ruído”.

Poderíamos imaginar os seguidores de Galileu gritando “Mas a pedra continua oscilando para frente e para trás no mesmo arco! Por que você ignora isso?” E os aristotélicos respondendo “Eu já reconheci as forças que limitam a queda da pedra! Por que você age como se eu não tivesse?”

Ludwig von Mises conta sobre um debate similar com seu mentor Eugen von Böhm-Bawerk, onde os efeitos de Cantillon que Böhm-Bawerk ignorou como mera “fricção” eram para Mises um fenômeno explanatório essencial na análise monetária.

Assim como Aristóteles e Galileu viram diferentes coisas quando olharam para a pedra oscilando, e assim como Böhm-Bawerk e Mises viram diferentes coisas quando eles olharam a expansão da base monetária, os right-libertarians e left-libertarians vêem diferentes coisas quando olham para a economia existente.

Claro, como Aristóteles e Galileu, ambos percebem (em algum nível de abstração) os mesmos fatos: existem bastantes políticas mais ou menos corporativistas e tem bastante troca mais ou menos livre. Mas para o right-libertarian, livre troca é o que caracteriza essencialmente a economia existente, enquanto as políticas corporativistas são só fricção; e assim como você não menciona constantemente fricção enquanto fala como um mecanismo funciona, right-libs não mencionam constantemente corporativismo quando falam como a economia funciona. Para o left-libertarian, em contraste, corporativismo é bem mais essencial para a economia existente. (Mesmo que para a maioria dos left-libertarians a livre troca provavelmente é essencial também, o que pode ser parte do que nos distingue dos outros anarquistas mainstream. Então a analogia não é perfeita. Mas não ligue pra isso).

Então left-libs e right-libs estão frustrados uns com os outros porque eles estão discutindo de lados distintos de uma mudança de gestalt, onde o que parece essencial para um parece acidental para o outro; e persuadir os oponentes pode ser menos uma questão de levar eles a concordar com uma lista de proposições específicas e mais uma questão de levar eles a olhar para o mundo através da lente dessas proposições. (Uma razão pela qual eu acho essa explicação plausível é que eu costumava ser mais right-libertarian do que sou agora, e isso soa verdade na minha recoleção do meu próprio autoentendimento).

Agora, Kuhn frequentemente dá a impressão que pensa que em casos como esse nenhum dos lados está mais certo do que o outro – que a interpretação aristotélica e de Galileu sobre a pedra oscilando são igualmente válidas, e que a escolha entre as duas é uma questão de um comprometimento não racional. É controverso se no fim do dia isso é o que Kuhn acredita precisamente, mas vamos deixar as questões de interpretação de Kuhn de lado. Sendo ou não a visão dele, não é a minha visão, e eu não acho que nada que Kuhn nos mostrou nos leva a uma posição tão relativista.

Então eu não quero sugerir que essa discordância entre left-libs e right-libs seja uma questão de uma mera diferença opcional de perspectiva, como o Coelho-pato ou o Cubo de Necker. Ao contrário de Kuhn (talvez), nestas discordâncias eu acredito que ambos os lados não reconhecem todos os mesmos fatos, ou de qualquer forma não registram a significância desses fatos igualmente. Do mesmo modo que eu considero a interpretação de Galileu da pedra oscilante superior explanatoriamente do que a de Aristóteles (ao explicar uma variedade maior de fatos, por exemplo), e da mesma forma com a interpretação de Mises sobre a expansão monetária sendo superior explanatoriamente do que a de Böhm-Bawerk, eu acredito que a interpretação da economia existente que vê o corporativismo como sistemático e onipresente é explanatoriamente superior do que a visão que o vê como mera fricção num mecanismo essencialmente de livre mercado.

Right-libertarians poderiam, claro, concordar com a análise na qual acabei de dar sobre a discordância, mas insistiriam que eles são Galileu/Mises e nós somos Aristóteles/Böhm-Bawerk. Essa seria uma resposta justa; nada que eu disse nesse post sustenta a visão left-lib sobre o que é essencial sobre o right-lib sobre o mesmo assunto.

Eu realmente acho, é claro, que existem muitos trabalhos left-libs importantes que de fato argumentam pela superioridade explanatória de ver corporativismo como essencial – incluindo, obviamente, os dois livros de Kevin Carson (veja também o sumário recente de Charles Johnson das nove maneiras em que o corporativismo opera). Mas isso vai além da intenção desse post, que é oferecer uma maneira de pensar sobre essa nossa discordância.

Download e-book